A unidade na variedade

Mais um texto em que se prova que Dom Vonier não critica o modo atual católico a despeito do clássico, mas defende o clássico aos que o ignoram e o rejeitam por causa do modo atual (ou outros modos que surgiram), e defende mostrando a unidade essencial deles apesar dos acidentes.


 

Para tratar lealmente o meu grande tema, a Nova Aliança, não devo negligenciar os fatos que parecem contradizer a minha tese principal. Vejamos pois se os elementos essenciais e permanentes do catolicismo, os elementos clássicos, que tanto aprecio, não sofreram no decorrer do tempo deformações introduzidas, não pelos hereges, mas pelos próprios católicos piedosos.

Tanto o teólogo como o historiador estudam, cada um sob o seu ponto de vista, as várias manifestações exteriores da fé católica através dos tempos. Talvez nenhuma questão, em nossos dias, tenha sido objeto de maior atenção dos críticos da evolução religiosa do que as modificações aparentes do culto e da piedade na Igreja católica. Muitos volumes têm sido escritos sobre este assunto, e poderiam escrever-se ainda muitos outros.

Se ouso tratar da matéria nesse capítulo do nosso estudo, não é que eu tenha, evidentemente, a pretensão de fazer uma exposição completa de todas as diferentes manifestações da devoção no seio do catolicismo imutável. O que posso tentar aqui é expor alguns princípios que permitirão ao leitor ver essas modificações na sua verdadeira perspectiva e nas suas justas proporções. A tese principal dessa obra antes requer que se mostre ter havido, de fato, poucas variações, do que elas enumerar exemplos.

Pertence ao espírito de discernimento inato no catolicismo, não ligar senão uma importância relativa aos fenômenos, que são evidentemente fruto do tempo, e dar máxima importância aos que são fruto do pensamento e da doutrina. Nem todos têm no mesmo grau o dom de discernir essas duas causas de mudança: o tempo e o pensamento.

Notam-se na fé católica duas espécies de mudança: (1) há o desenvolvimento do dogma; (2) as variações de temperamento, de sentimento ou, se preferem, de imaginação, na piedade.

Não é preciso analisar aqui de modo mais extenso as “modificações” do dogma. Emprego de propósito o termo modificação para indicar, de maneira vaga, qualquer acréscimo que tenha sobrevindo às verdades reveladas ou dogmáticas. O catolicismo, quanto ao desenvolvimento do dogma, anda a passo lento. Neste sentido tem feito realmente pouco progresso. As mudanças de temperamento religioso, porém, parecem às vezes fazer prodígios e exceder em extremo ao desenvolvimento do dogma.

A estabilidade dogmática tem como contrapeso a estabilidade litúrgica nas formas do culto instituídas realmente pela Igreja. São de fato relativamente insignificantes as mudanças introduzidas na liturgia. A missa romana de hoje pouco difere, em suma, da missa romana dos primeiros séculos*. Há mais de mil anos que ela não sofre alterações. E no oriente a Liturgia tem sido ainda mais estável. Mas, quanto ao temperamento religioso, tem-se dado o contrário. Enorme tem sido a mudança durante esse espaço de tempo.

A Liturgia da Igreja é a expressão prática do dogma. Ela segue portanto os movimentos do dogma e não os do temperamento. A missa latina contém o mistério divino do sacrifício Eucarístico e toda uma doutrina de vida cristã. Ela satisfaz plenamente o monge do século nono, ao cavaleiro das cruzadas, ao fervoroso franciscano do século treze, ao cientista do século quinze, ao clero do concílio de Trento, ao campeão da fé no século dezesseis e ao missionário do século vinte. Um tal fenômeno é bastante para nos impedir a dar demasiada importância às pretendidas variações da piedade católica.

O temperamento intelectual do catolicismo permaneceu praticamente o mesmo. É ele inalterável. A prova disto é que todos os dias mestres e alunos das nossas escolas de teologia manuseiam as obras doutrinárias católicas de todos os períodos da história com grande facilidade e perfeita compreensão. Sentimo-nos bem com os Escolásticos. Não nos parece estranha nenhuma das suas dissertações. Se não aceitamos todas as suas conclusões, ao menos compreendemos muito bem a maneira de ver deles. Os nossos espíritos são essencialmente irmanados. Mesmo quando a ingenuidade daqueles tempos nos faz rir, nós nos assemelhamos aos que riem ouvindo as garrulices dos irmãos menores.

É notável a época dos Santos Padres pelo frescor de pensamento, ainda hoje de inesgotável encanto para nós. Quando pois dizemos ter havido mudanças de temperamento no catolicismo, não queremos com isso significar que houvesse mudanças de interesse intelectual. Pode asseverar-se portanto que as preocupações intelectuais do catolicismo têm sido as mesmas em todos os tempos.

Quando falo aqui da estabilidade dogmática do catolicismo, nela incluo toda a vida moral católica que, sob o ponto de vista prático, pode ser encarada como uma parte do dogma. A propósito, surge a questão se a vida ascética da Igreja considerada como distinta da vida moral, possui igualmente estabilidade. A resposta deve ser afirmativa. Os princípios gerais da doutrina ascética no século quarto – foi nessa época que a ascese católica se tornou um poder espalhado no mundo inteiro e universalmente aceito – são os mesmos de hoje. O mesmo deve dizer-se do que chamamos de vida mística, a vida contemplativa ou de oração da religião católica. Nada mais fácil, com efeito, do que compor um tratado completo de oração, extraído das obras de Santo Agostinho. Seria compreendido com a mesma facilidade com que o são as cartas de São Francisco de Sales sobre a vida devota e mística.

Onde estão pois as variações das formas exteriores do catolicismo? Como diferiram as gerações católicas umas das outras? O que acabamos de expor mostra que essas diferenciações não são profundas. Entretanto, existem certas diferenciações, é fato histórico. Dirão talvez que a maior parte dessas mudanças sobrevieram principalmente nas devoções católicas que têm sofrido variações em certas épocas: ora domina uma forma de devoção, ora outra. Esta explicação no entanto é incompleta, não satisfaz plenamente.

Em muitos séculos da história do catolicismo não havia as devoções como as entendemos hoje, e nem por isso a fisionomia religiosa de cada um desses séculos era a mesma. Assim, dificilmente podemos dizer que houvesse uma devoção especial no século quarto, como também no onze e no dezesseis. Entretanto o temperamento religioso dessas épocas foi bem diferente. Seria mais verdadeiro o dizer que a décima nona centúria foi o século das devoções, no sentido mais restrito da palavra, e que é nisto que consiste o seu temperamento particular.

Realmente, tem-se a tentação, nos tempos atuais, de duvidar da exatidão dum grande número de livros religiosos escritos, segundo as formas primitivas do catolicismo, por termos sido educados numa atmosfera saturada de devoções particulares. Tornamo-nos assim incapazes de simpatizar com os hábitos da piedade dos tempos passados. Ouso mesmo dizer que o católico do século dezesseis compreendia, provavelmente, melhor o seu irmão do século quinto do que nós compreendemos a ambos.

Parece-me terem todas as variações, que sobrevieram à piedade católica, os mesmos limites que tiveram as variações da civilização. Cada civilização tem sua maneira própria de compreender e exprimir a religião; mas esta diferença não toca de modo algum a substância da fé. Que a humanidade, sob o ponto de vista do temperamento, passa por uma sucessão de fases mais ou menos profundas, mais ou menos duráveis, não resta dúvida.

O catolicismo não é somente a melhor religião da humanidade: é a única religião dada por Deus à humanidade como raça. Deve pois poder adaptar-se a todos os diversos temperamentos da humanidade. É necessário que essa religião apresente algo de novo, já que os homens das diferente épocas não têm sempre o mesmo temperamento. Mas, do mesmo modo que a natureza humana não muda, apesar da diferença de civilização, assim também o catolicismo permanece sempre o mesmo a despeito das variações que possa sofrer na sua manifestação exterior.

O Espírito Santo, pode dizer-se, é o autor das novas formas do sentimento religioso. Ele conhece melhor o homem do que o homem conhece a si mesmo. É o mesmo Espírito na criança e no adulto; mas sob outro aspecto é um espírito muito diferente, porquanto a santidade da criança está bem longe da do homem que já atingiu a maturidade. De modo semelhante, o Espírito é o mesmo em todas as gerações. Ele conhece os homens e dá graças diferentes segundo a diversidade de raças e gerações:

“O espírito de inteligência… (é) benigno, estável, constante, seguro, tudo pode, tudo vê e encerra em si todos os espíritos, inteligente, puro, sutil”. (Sab. VII, 22-23).

O temperamento, como tudo o que faz parte da natureza humana, é submetido à Providência divina, tanto na ordem natural como na sobrenatural.

Em suma, não posso decidir-me a dar grande importância às pretendidas variações na manifestação da piedade no catolicismo. Houve nisto exagero. Atribuíram-lhes proporções que não correspondem aos fatos históricos. O modo romanesco de se escrever hoje a história dá-nos a impressão de se anunciarem gratuitamente novas manifestações do Espírito Santo, como se esse espírito divino tivesse de ser dado duma maneira ainda desconhecida. O nosso tempo sob a influência de numerosa literatura sui generis chegou a julgar-se diferente dos outros tempos, num grau mais profundo do que o é na realidade. Têm-se exagerado demais as devoções e as formas externas de piedade, que nos são próprias. A massa dessa literatura religiosa dá a impressão de que há pouca ou quase nenhuma afinidade entre nós e as gerações dos séculos passados, o que não é verdade.

A mais notável inovação dos tempos modernos, quanto a expressão exterior da fé católica, aparece sem dúvida no culto da santa Eucaristia. Esta inovação é sobremaneira interessante por ser a Eucaristia o dom mais permanente da Nova Aliança que Deus fez com o homem. Tomemos como exemplo bem conhecido a instituição – já pode ser encarada como tal – dos Congressos Eucarísticos, realizados com grande esplendor, em geral de dois em dois anos, numa das grandes cidades do globo. Poderia parecer não ter a atitude, relativa à Eucaristia, dos católicos, digamos do século quinto, ponto algum de semelhança com as festas eucarísticas dos Congressos de Chicago ou de Buenos Aires.

Este caso pode servir-nos aqui de exemplo clássico para ilustrar a verdade que defendemos neste capítulo, a saber que a unidade reina na diversidade das manifestações da nossa fé. O que se passa nessas vastas reuniões de fiéis, não é de certo diferente do modo de proceder, mais simples e mais primitivo, das gerações dos primeiros cristãos. Tudo é realizado em maior escala, mas os atos são os mesmos como os que sempre fizeram parte do culto da Igreja católica.

Quando se trata da expressão exterior duma crença religiosa, é de bom aviso aceitar implicitamente certos axiomas da filosofia imutável da humanidade. Eis um deles: Plus aut minus nont mutat substantiam rei – (o mais ou o menos não muda natureza duma coisa). As grandes dimensões dadas a um ato não mudam a natureza essencial e permanente desse ato. Se uma tragédia grega é perfeita na sua interpretação e no seu conjunto, podem variar o número dos atores e o esplendor do teatro, ela não deixa de ser perfeita por ser apresentada em condições mais restritas e de menos esplendor. Outro exemplo: a paixão de Nosso Senhor pode ser representada d modo muito belo por alguns membros duma sociedade pia, mas isto não nos impede de admirar a maravilhosa interpretação que lhe dá toda a população crente das montanhas de Oberammergau, na Baviera.

No dia em que a Igreja fez a elevação do Corpo e do Sangue de Nosso Senhor no sacrifício da missa, para adoração dos fiéis, ela admitiu em princípio e em doutrina a procissão da festa do Corpo de Deus pelas ruas das cidades mais ricas do mundo. Toda a substância do culto já se acha na elevação das sagradas espécies durante a missa, mesmo na pequena elevação. O que foi feito depois, no decorrer dos séculos, a respeito do culto da Eucaristia, é só uma questão de mais ou de menos, plus aut minus.

A civilização da época põe em obra os seus próprios recursos: a imaginação religiosa, o humanitarismo. Os sentimentos do tempo, exprimem-se, eles mesmos, livremente e dum modo original. No entanto a continuidade é absolutamente intacta, não somente quanto a fé, mas no culto essencial, assim como há continuidade nos vários estilos das igrejas e catedrais.

Os poderosos movimentos que operam de modo mais direto sobre os órgãos executivos da Igreja não fazem exceção à lei da unidade na variedade. O fato de serem criadas novas ordens religiosas não significa que tenha aparecido um novo ideal religiosa. Não pode haver novidade, novitas, na Igreja. Quem diz novidades, diz heresia na linguagem eclesiástica. Os Inovadores são os hereges que têm com as suas dissensões e revoltas afligido a Igreja. Na Inglaterra o protestantismo no século dezesseis foi comumente chamado nova ciência. Não é um novo ideal que causa uma renovação católica, mas Deus suscita novos homens que abraçam com um novo fervor e entusiasmo um ideal já existente. É bem significativo, sob esse ponto de vista, que no momento da contra-reforma católica fosse o grito universal: “Que se volte ao fervor dos primeiros tempos! Ao ideal dos fundadores das ordens religiosas!”

As obras doutrinais publicadas por esses institutos religiosos são maravilhosamente intermutáveis (interchangeable, em inglês). Há nelas uma comunidade de pensamento e de vida, de ação e de programa, que surpreenderia o crítico superficial. As diferenças acidentas das ordens religiosas, de todos os tempos, como que desaparecem quando comparadas com o acordo que há entre elas, quanto aos pontos essenciais. Acontece produzirem-se numa congregação ou família religiosa mudanças que um observador poderia, de passagem, julgar consideráveis. É que o instituto se adaptara à civilização do país em que vive ou à daquele donde viera. Muitos religiosos são filhos do seu tempo. No entanto, a despeito da distância de vários séculos, é perfeita a semelhança de pensamento relativo aos verdadeiros princípios da vida espiritual entre aqueles que professam um estado de vida cristã mais perfeito.

A paixão moderna pela teoria da evolução obriga o historiador católico a ser duplamente cauteloso, se não quiser, quando estuda os fatos, ser vítima dos preconceitos em voga. A palavra evolução de modo algum pode ser aplicada ao catolicismo, porquanto ela tomou finalmente a significação de transformismo que não tem sentido quando se trata da fé. É a fé completa, e sempre o foi, não precisa portanto de nenhum aperfeiçoamento, venha de onde vier, seja de dentro ou de fora.

Devemos dar outro nome às variações superficiais que admitimos no catolicismo. Chamemo-las, na linguagem de São Paulo, diversidade de dons ou graças, se bem que este termo indique claramente uma categoria determinada de dons sobrenaturais. Aliás São Paulo pode ser considerado como a personificação do gênio da fé que às vezes parece flutuar na superfície das coisas e se espalhar em fantasias e sentimentalismos frouxos e passageiros para voltar, como as ondas do mar, às suas profundezas nativas:

“Fiz-me fraco com os fracos, para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, afim de salvar a todos” (I Co. IX, 22).

Quando se estuda com maior atenção a vida cristã, de todas as gerações, através dos séculos, fica-se cada vez mais convencido de ter a Igreja cumprido maravilhosamente, em todos os tempos, a sua grande missão pessoal, e satisfeito de modo cabal o seu ministério. Realizou o que lhe era possível fazer em cada época.

A Igreja teve sempre uma percepção admiravelmente clara acerca das necessidades vitais do cristianismo. Ela deu sobretudo grande desenvolvimento à ciência teológica relativa a Cristo. Derramou uma luz mais intensa sobre os Sacramentos, tornou-os mais conhecido e tirou deles frutos mais copiosos. Deu estabilidade aos princípios morais e místicos, que são os fundamentos da santidade prática.

É isto de certo um fenômeno surpreendente, quando nos lembramos que na história profana mal se pode encontrar a continuidade dum ideal. A onda da santidade católica corre sem interrupção através dos séculos. Cometeríamos, pois, uma grave injustiça para com a nossa fé, se recusássemos atribuir aos homens doutros tempos as grandezas e os esplendores da vida sobrenatural, por ser a maneira de pensar e de amar diferente da nossa nalguns pontos acidentais. Devemos igualmente lembrar-nos de que, segundo as disposições da Providência divina, as gerações cristãs do passado não desfrutavam esses dons naturais, essas vantagens materiais que tanto têm contribuído para o encanto e esplendor do culto nos últimos tempos.

É certamente admirável – e o historiador das religiões não cessa de o confirmar com espanto – que a Igreja Romana tenha podido governar o mundo inteiro com tanto poder e tamanha eficácia em épocas em que a simples falta de meios de comunicação era o bastante para tudo imobilizar. Mas a unidade da fé e essencialmente um dom de Deus. É independente de todas as formas de progresso humanos.


* Ele se refere aqui à Missa Tridentina.

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Mais sobre o suposto arcaísmo.

Em breve postarei os capítulos em que os principais trechos foram tirados, mas por enquanto, essas pequenas citações são suficientes:

“Dizemos que a Igreja é pura se ela possui hoje a fé da era apostólica. Mas nesse assunto há variedade, assim como pureza; a fé, sendo essencialmente um elemento da vida, não pode permanecer monótona, não poderia ser considerada à luz de uma herança que não é afetada pelo gosto das gerações seguintes. A maneira de expressar a fé tem grande variedade, e seria um purismo perigoso aquele em que se insistisse em uma forma absolutamente inalterável de expressão. Esse purismo seria arcaísmo e poderia levar ao puritanismo, a uma heresia.” (O Espírito e a Noiva, c. 14)

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O Lado Oposto – Dom Anscar Vonier

Para definir com maior clareza a posição intelectual do catolicismo, os teólogos têm muita vez percorrido a um processo muito simples: imaginam o erro oposto ao dogma de modo a pôr em relevo a verdade em face do erro contrário. Mas uma tal ficção torna-se inútil quando se trata da Nova e Eterna Aliança.

A triste realidade histórica do modernismo forneceu-nos um sistema mais oposto ao catolicismo do que tudo que se possa imaginar. Pode dizer-se que o modernismo é a negação radical de todo o organismo sobrenatural e de todas as riquezas que uma aliança implica e pressupõe. Pois o traço característico duma aliança de Deus com o homem consiste em criar instituições e em fornecer ao homem meios fáceis de santificação e de salvação, os quais devem ser tomados em consideração em toda atividade moral e religiosa dos indivíduos.

A vida cristã para o modernismo é, pelo contrário, simplesmente uma experiência pessoal, uma experiência vivida, que o indivíduo procura realizar mais e mais. O modernismo não pressupõe nenhum dom de Deus ao homem. Se ele pudesse falar de dons pressupostos, não indicaria senão o subconsciente, que emerge pouco a pouco e se torna consciente. Porquanto o modernismo, súmula de todos os erros, nada tem que ver com as graças sobrenaturais que a consciência não pode conhecer.

Os modernistas moderados não rejeitam os fatos históricos; mas para eles a religião consiste muito mais na interpretação intelectual que cada indivíduo dá a esses fatos do que nos próprios fatos. Os modernistas rígidos ou extremistas, porém, rejeitam mesmo os fatos históricos como inúteis. O que exigem, como necessário, é poder passar da obscuridade do subconsciente à luz da consciência. Todos eles, extremistas ou moderados, repelem os artigos da fé católica que afirmam a importância e a necessidade dos dons sobrenaturais, inacessíveis à consciência e à experiência íntima.

Esses dons estão, aos olhos dos modernistas, fora da psicologia e não têm nenhum valor espiritual ou religioso, ainda que admitam a sua realidade objetiva. Para eles, um homem não pode ser religioso, crendo na Redenção, se não sentir interiormente ter sido resgatado. Desprezam as orações dirigidas a Deus para obter graças sobrenaturais que não podem ser conhecidas pela consciência. No entanto, é surpreendente ver até que grau o modernista, no domínio da consciência, copia o católico. Adota quase inteiramente a doutrina católica sobre a oração mental. Apropria-se de todas as riquezas do misticismo católico. Todas as experiências dos nossos santos são para ele como uma espécie de sorte-grande: é a experiência o seu forte.

Todavia, pedí ao modernista que faça profissão de fé no sacrifício de Cristo na cruz, como poder de destruição do pecado, e ele mostrará uma irresistível oposição intelectual. Pedí-lhe crer nos sacramentos como instrumentos capazes de santificar eficazmente sem o esforço consciente do homem, e ele vos responderá que não crê em magia. A razão por que as teorias modernistas têm sido mui perigosas para muitos espíritos desprevenidos, é que os adeptos dessa heresia têm quase o fervor duma Santa Teresa ao pregar a sua religião, uma religião individualista e experimental. Falam do reino de Deus nas almas com tais expressões que um Santo Inácio de Loiola não poderia superá-los neste ponto. Mas ignoram o reino de Deus exterior, o qual não depende dos esforços e das experiências religiosas do homem.

Assim, o teólogo pode facilmente ceder ao desejo de expor a doutrina da Nova e Eterna aliança para descrever expressamente o oposto, o contrário do modernismo. Pois não há exagero em afirmar que o modernismo contém tudo o que é do catolicismo, com exceção dos elementos que posso chamar as riquezas necessariamente pressupostas duma aliança de Deus com o homem. Nisto o protestantismo difere do modernismo, porquanto ele admite os dons sobrenaturais de Deus. Exagera mesmo um desses dons, pois considera a santidade do cristão como algo puramente extrínseco, uma coisa imputada exteriormente e arbitrariamente predestinada.

No entanto não podemos dizer que o modernismo, rejeitando tudo o que não é ato da experiência, se tenha tornado adversário do protestantismo. Com efeito, a fé religiosa conforme Lutero é essencialmente um sentimento, um movimento do coração. O modernismo levou ao extremo essa ideia falsa da fé. Toda doutrina que faz a religião depender da experiência e que está disposta a admitir todos os fenômenos religiosos, contanto que eles sejam percebidos pela consciência, não é, pode dizer-se, alheia ao modernismo

Os modernistas não recusariam admitir o fato da transubstanciação, se esse ato tão oculto pudesse com os progressos da psicologia religiosa tornar-se um fenômeno de ordem experimental. Pois o que eles rejeitam são os dons a priori, que o dogma católico reconhece e proclama, para os quais só têm desprezo e escárneo.

Não é fácil num livro como este evitarem-se todas as expressões que dele desejaríamos afastadas. Assim não me agrada a palavra – institucional – aplicada à religião. Contudo evita-la seria um preconceito inútil, já que é constantemente empregada hoje em dia pelos teólogos. Procuramos pois dela tirar o maior proveito.

Os modernistas não são necessariamente inimigos duma religião institucional, se tomarmos esta expressão em sentido lato. Pode um modernista seguir todo o sistema filosófico da sua doutrina e achar ainda lugar para uma religião institucional. As experiências religiosas, que são o único credo do modernista, podem ser habilmente organizadas e tornar-se de fato uma instituição, uma sociedade espiritual, uma ecclesia, contanto que as suas respectivas experiências sejam concordes na prática.

Encontram-se nos escritos dos modernistas mui belas descrições sobre o Corpo místico de Cristo. A Igreja e os seus membros têm sido exaltados às vezes em seus livros até às nuvens. Tais expansões podem enganar os próprios eleitos, mas uma só palavra que facilmente pode passar despercebida ao leitor desprevenido trai o veneno do modernismo. Esta palavra é: experiência.

Os verdadeiros inimigos da religião institucional são os puritanos e os não-conformistas, (1) para os quais a única religião que tem valor é a religião individua. Para eles, uma instituição não é nem um auxílio para o sentimento religioso, nem um resultado deste sentimento.

O modernista não vai tão longe. Acerca dele poderíamos mesmo dizer o contrário. É possível que alguns modernistas em momento de descuido tenham denunciado e condenado a religião institucional, mas entendem com isso uma religião não-experimental, porquanto eles não recusariam recitar todo o símbolo duma Igreja: una, sancta, apostólica, dando a esta fórmula a significação duma vasta experiência religiosa coletiva.

Mas vê-se logo que uma tal religião é uma caricatura da verdadeira instituída por Deus, da religião da Nova e Eterna Aliança. Realmente, a religião verdadeira não somente vai além da ordem dos fenômenos da experiência, como também da ordem dos fatos individuais. Além da ordem dos atos humanos. Ela é maior que todo o gênero humano. Possui riquezas que excedem tudo o que o homem pode sentir ou produzir. Ela é organizada, mas não à maneira duma associação ou liga de homens que se agrupam para dirigir os seus sentimentos e interesses religiosos como se administra um capital. O modernismo, como vimos, admitiria uma tal instituição.

A verdadeira religião institucional possui uma organização criada por Deus mesmo. Ela se impõe ao homem. Não depende da escolha dos homens, mas se eleva diante deles como uma autoridade superior, como uma autoridade celeste: apresenta-lhes leis, ministra-lhes meios de santificação, facilita-lhes a salvação eterna. Os órgãos administrativos dessa religião foram instituídos por Deus antes de quaisquer conselhos e deliberações dos sábios.

A organização não é a mesma coisa que instituição. Esta prevalece sobre aquela que é somente um dos seus resultado. Tomada neste sentido, é a religião institucional da Nova Aliança uma coisa distinta e bem definida. Pode-se aceita-la ou não: mas sabe-se o que se aceita ou o que se rejeita. Contra esta Igreja de instituição divina, milhares de pregadores do erro têm do alto da cátedra da heresia feito ecoar a voz condenando-a como potência do mal, como veneno destruidor de toda a verdadeira religião; mas em vão.

Como os modernistas, que o são ex-professo, os adversários da religião institucional tornaram-se campeões do misticismo que eles declaram incompatível com toda organização religiosa. Eles têm também procurado apossar-se da maior parte das riquezas espirituais da vida católica pessoal. A grande admiração que têm a um São Francisco de Assis contrasta com o ódio que manifestam contra os papas de todos os tempos. Chamam de mártires aqueles que foram registrados na história da Igreja como maus católicos, insubmissos, revoltosos. Gostariam de ler os Evangelhos somente à luz da emancipação do homem e ver no próprio Cristo o herói duma insurreição contra o jugo de toda religião institucional. Tanto mais se entusiasmam com o Cristo que imaginam, quanto maior aversão têm a todo o liame imposto ao espírito do homem.

Hoje em dia forja-se um Cristo que, simples revolucionário, procura destruir a religião instituída, e ignora-se o verdadeiro Cristo, o Filho de Deus, que veio ao mundo edificar uma mansão espiritual sobre bases bem sólidas e para ser, Ele mesmo, a aliança perfeita e permanente de Deus com o homem. Os próprios católicos devem estar para ser, Ele mesmo, a aliança perfeita e permanente de Cristo não se torne para eles uma força negativa em vez dum poder positivo e criador.

Jesus Cristo não só combateu os fariseus e os sacerdotes da lei mosaica, mas é Ele uma Pessoa divina, uma Pessoa infinita que afirma e cria. E o Evangelho não é apenas uma descrição mórbida do antagonismo pessoal entre Cristo e os seus inimigos. Existe realmente esse antagonismo no Evangelho, mas não é isto absolutamente a razão de ser da narração sagrada. Encaremos pois as coisas nas suas justas proporções e compreenderemos que mesmo sob o ponto de vista histórico há muito mais amor do que ódio acerca da Personalidade divina de Cristo.

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Dom Vonier contra o modernismo

Diante do que foi publicado contra D. Vonier, algumas poucas pessoas passaram a lançar suspeitas de que ele era modernista. Contra isso, basta mencionar os textos em que ele é expressamente contra o modernismo. Duvido que os que lançaram essa suspeita (que nesse caso, até onde eu sei, não foi o autor do blog referido), sejam capazes de escrever em um livro o que D. Vonier escreveu em um parágrafo. Há, inclusive, um capítulo em que ele se dedica especialmente a combater o modernismo, capítulo que será publicado ainda essa semana:

•    “A triste realidade histórica do modernismo forneceu-nos um sistema mais oposto ao catolicismo do que tudo que se possa imaginar. Pode dizer-se que o modernismo é a negação radical de todo o organismo sobrenatural e de todas as riquezas que uma aliança implica e pressupõe. Pois o traço característico duma aliança de Deus com o homem consiste em criar instituições e em fornecer ao homem meios fáceis de santificação e de salvação, os quais devem ser tomados em consideração em toda atividade moral e religiosa dos indivíduos.”

•    “A vida cristã para o modernismo é, pelo contrário, simplesmente uma experiência pessoal, uma experiência vivida, que o indivíduo procura realizar mais e mais. O modernismo não pressupõe nenhum dom de Deus ao homem. Se ele pudesse falar de dons pressupostos, não indicaria senão o subconsciente, que emerge pouco a pouco e se torna consciente. Porquanto o modernismo, súmula de todos os erros, nada tem que ver com as graças sobrenaturais que a consciência não pode conhecer.”

•    “Todavia, pedí ao modernista que faça profissão de fé no sacrifício de Cristo na cruz, como poder de destruição do pecado, e ele mostrará uma irresistível oposição intelectual. Pedí-lhe crer nos sacramentos como instrumentos capazes de santificar eficazmente sem o esforço consciente do homem, e ele vos responderá que não crê em magia. A razão por que as teorias modernistas têm sido mui perigosas para muitos espíritos desprevenidos, é que os adeptos dessa heresia têm quase o fervor duma Santa Teresa ao pregar a sua religião, uma religião individualista e experimental. ”

•    “Assim, o teólogo pode facilmente ceder ao desejo de expor a doutrina da Nova e Eterna aliança para descrever expressamente o oposto, o contrário do modernismo. Pois não há exagero em afirmar que o modernismo contém tudo o que é do catolicismo, com exceção dos elementos que posso chamar as riquezas necessariamente pressupostas duma aliança de Deus com o homem. Nisto o protestantismo difere do modernismo, porquanto ele admite os dons sobrenaturais de Deus. Exagera mesmo um desses dons, pois considera a santidade do cristão como algo puramente extrínseco, uma coisa imputada exteriormente e arbitrariamente predestinada.”

•    “Os modernistas não recusariam admitir o fato da transubstanciação, se esse ato tão oculto pudesse com os progressos da psicologia religiosa tornar-se um fenômeno de ordem experimental. Pois o que eles rejeitam são os dons a priori, que o dogma católico reconhece e proclama, para os quais só têm desprezo e escárnio.”

•    “Encontram-se nos escritos dos modernistas mui belas descrições sobre o Corpo místico de Cristo. A Igreja e os seus membros têm sido exaltados às vezes em seus livros até às nuvens. Tais expansões podem enganar os próprios eleitos, mas uma só palavra que facilmente pode passar despercebida ao leitor desprevenido trai o veneno do modernismo. Esta palavra é: experiência.”

•    “A Redenção, segundo o modernista, “não consiste num ajuste enigmático entre a pobre humanidade e a infinita santidade de Deus: consiste no palpitar do coração de Cristo e no bater dos corações dos homens agradecidos”, Expressar a magnífica generosidade da Redenção em linguagem de escritórios e de comércio é, aos olhos do modernista, façanha de tempos idos cuja mentalidade lhe repugna. O teólogo, por sua vez, pode muito bem propor ao filantropo as seguintes questões: será porventura bom entregar o Filho de Deus à dissecação do psicanalista para que lhe não deixe senão o que podemos compreender? Quanto tempo durará a admiração para uma tal pessoa? Não é verdade ser necessário para o homem ter um Redentor que seja mais que um moralista, mas que mestre, mas que amigo? Que seja uma pessoa transcendente, a Santidade duma aliança entre Deus e o homem? Não se diz, e com razão, que uma geração humana é incapaz de compreender as que a precederam? Que nos não podemos colocar sob o mesmo ponto de vista ou mentalidade dos nossos pais e ainda menos dos nossos antepassados? De tal modo somos absorvidos por nós mesmos que, em todas as épocas, não vemos senão a nós. Se Cristo Redentor não possuísse um elemento transcendente, infinitamente superior à humanidade, não seria ele vítima dos caprichos dos homens que a bel-prazer o fabricariam à sua imagem e semelhança? Não fariam da obra Redentora ora uma coisa ora outra? Em vez do Filho de Deus que, “como relâmpago, parte do oriente e brilha até ao ocidente”, dar-nos-iam um Filho de Deus que para uns estaria no deserto, para outros no recôndito da casa, e seria investido duma missão inteiramente limitada ao sabor do tempo. O teólogo que conserva os augustos e permanentes dogmas da cristologia é ainda o melhor humanista, porque o seu Cristo, se bem que realize grandes obras humanas, permanece sempre maior do que todas as suas ações.”
•    “Segundo os modernistas Cristo teria recebido em dia marcado do curso da sua vida a revelação da sua dignidade de Messias. Eles chamam essa revelação a vocação de Cristo, o seu apelo. Mas esta teoria não tem sentido na teologia católica que afirma ter Jesus Cristo tido sempre e a cada momento consciência da sua divindade, qualquer que tenha sido o modo desse conhecimento”

•    “Para os modernistas a Redenção é só um fato subjetivo. Ela não existe senão no indivíduo, quando realmente mudado e santificado. Mas se os resultados objetivos e universais da Encarnação, há pouco citados, fossem só abstrações e meras ficções intelectuais, ruiria todo o dogma católico.
Reconheço ser difícil empregar nesta matéria termos que não se prestem a equívocos e confusão. O pecador que comete hoje um pecado ofende realmente a Deus. Ele atrai sobre si a cólera de Deus e torna-se escravo de Satanás. Mas todo esse mal, por grande que seja, não é contudo senão o mal dum indivíduo ou de vários indivíduos. Já não há um reino do mal, um reino do pecado, um reino de Satã. Existiam realmente esses reinos das trevas, mas Cristo morrendo na Cruz os destruiu para sempre. O forte entrou na casa do “forte armado”, conforme a comparação do Evangelho, e “tomou-lhe todas as suas armas em que tinha posto a sua confiança”.
“Despojando os principados e as potestades infernais (Cristo) levou-os cativos gloriosamente, triunfando em público deles em si mesmo” (pela cruz) (Co II, 15). Quando os teólogos católicos dizem e repetem ter o Filho de Deus satisfeito completamente, pela sua morte, a justiça divina, eles entendem que essa reparação é o maior resultado objetivo e exterior da Redenção; mas um resultado que paira todo em Deus em ão no homem. Em nossos dias procurou-se humanizar toda a teologia da Redenção. Não se quer ver nela senão as vantagens em proveito dos homens. Tem-se desvirtuado o sentido das grandes frases técnicas da teologia, a fim de que elas signifiquem exclusivamente a conversão moral dos indivíduos. “Que é a Redenção, dizem os modernistas, senão o homem convertido interiormente, espiritualmente, despojado do seu egoísmo? É isto o aplacar a cólera divina, a única libertação real da tirania de Satanás”.
É supérfluo demonstrar que essa ideia arruína e destrói todo o dogma católico. Se a indiquei é para mostrar a que consequências ilógicas pode chegar-se quando alguém recusa admitir como grandes verdades objetivas, solidamente baseadas in natura rerum, os resultados universais da Redenção de Cristo: isto é, a satisfação à Justiça Divina, o apaziguamento da cólera de Deus, a expiação de todos os pecados, a restituição da graça, a destruição do império de Satanás, a vitória sobre a morte, o ingresso no reino da glória. Esses sublimes resultados são evidentemente de vantagens imensas para o homem; não se confundem com a transformação subjetiva e moral dos indivíduos. São eles o tesouro permanente da Nova e Eterna Aliança.”

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Sentido ortodoxo das metáforas em eclesiologia

Só o fato de tratar como metáforas já seria possível responder boa parte das acusações, apesar de tudo o que já foi demonstrado:

Pe. Penido: Antes de mais, poderíamos repetir aqui o que acima levamos dito [cf. OCM, Cap. VI, p. 159-167 – N. do T.] sobre o valor das metáforas “Corpo” e “Cabeça”, porquanto qualificar de “Alma” ao Espírito Paráclito, é usar de metáfora. […]

Dom Vonier: “Logo os cristãos irão abandonar totalmente a forma antiga para a nova, cuja conduta significará sua separação da sinagoga, suas perseguições, serem selados com a marca de fogo de Cristo na fornalha da tribulação. Em sua primeira epístola aos coríntios, São Paulo, como sabemos faz uso capital da grande metáfora do Corpo de Cristo, a fim de trazer à tona a unidade dos cristãos, apesar da diversidade dos dons. Esta é para ela a ocasião de revelar-nos o papel peculiar do Espírito Pentecostal em trazer esse elemento exclusivamente cristão: a unidade de todos em um só Corpo. É através do Espírito que somos feitos um.” (O Eterno Espírito e o Nascimento da Noiva)

Referindo-se ao “Corpo de Cristo”, “Noiva”, “Coluna e Sustentáculo da Verdade” e “Templo de Deus” (Capítulo que por si já bastaria para demonstrar que ele se referia a metáforas ao falar da Igreja e encerrar a questão a respeito do “pancristismo”): “As grandes metáforas da Noiva do Cordeiro, do Corpo de Cristo e do Templo de Deus, que de comum acordo são as metáforas que descrevem- definida na, foram produtos das mentes inspiradas dos Apóstolos quando a Igreja já tinha uma história, ou melhor, quando ela sequer tinha passado por sua primeira perseguição e estava aguardando novas hostilidades de seus inimigos. […] Quando, portanto, ele falou de Cristo como sendo Cabeça sobre toda a Igreja, e quando chamou a Igreja, Corpo de Cristo, ele foi facilmente compreendido; a metáfora entrou na vida diária de seus ouvintes […] As metáforas, em seguida, pressupõem, na literatura apostólica, uma realidade bem conhecida, algo tão caro e definido que poderia ser expresso figurativamente, sem prejuízo para a sua perfeição constitucional. […] Seria fácil trabalhar mais completamente o completo significado dessas metáforas; os Padres e outros pregadores não deixaram maravilhosas ampliações das ideias originais. Mas como todas as metáforas, seu poder está em sua própria simplicidade. Quando nos dizem que a Igreja é o Corpo de Cristo glorificado, que ela é a noiva de Cristo, quase não precisamos de mais nada. Sabemos que nada mais pode ser dito, pois o ponto de suprema intimidade foi atingido. Percebemos que tudo o que a teologia pode dizer em linguagem mais precisa não será mais profunda ou mais santa do que o conteúdo da metáfora. […] Mas as metáforas de que falamos aqui cobrem toda a definição da Igreja; na verdade, elas são mais vastas do que qualquer definição possível. […] Mas é óbvio que esses símbolos devem ser aplicados à Igreja no tempo presente; não excluímos a Igreja glorificada do círculo da imagem; uma e a mesma figura nos dá a Igreja em seus vários estados, o estado de luta e o estado de glória. É por isso que a Igreja é tão bela; ela é realmente o forte Corpo de Cristo, […]” (O Espírito e a Noiva, no capítulo “As Grandes Metáforas”)

Pe. Penido: Bem claro fique, por conseguinte, que não deve ser a analogia interpretada em sentido entitativo, senão em seu valor dinâmico. Nossa alma ao corpo substancialmente se junta, para com ele formar uma só pessoa humana: interpretássemos entitativamente a comparação, e teríamos que o Espírito Santo uniu-se substancialmente ao Corpo Místico para com ele constituir uma só pessoa ou hipóstase divina. Erro panteístico idêntico àquele que asseverou a união hipostática entre Cristo e seu Corpo Místico; erro já condenado pela Encíclica. Vimos anteriormente que D. Vonier incidiu nesse erro ao afirmar expressamente a união hipostática entre o Espírito e a Igreja [Já foi provado que ele não afirmou isso expressamente. Pelo contrário, ele afirmou claramente ser metáfora]. Já se precavera contra tamanho desacerto o grande D. Marmion, escrevendo: “Quando dizemos que o Espírito Santo é a Alma da Igreja, não entendemos evidentemente que ela é a “forma” da Igreja como a alma é em nós a “forma” (substancial) do corpo. Sob esse ponto de vista, seria teologicamente mais acertado dizer que a Alma da Igreja é a graça santificante, com as virtudes infusas que lhe servem de obrigatório cortejo; com efeito, a graça é o princípio da vida sobrenatural que faz viver duma vida divina os membros da Igreja.” Le Christ Vie de l’Âme [Cristo, Vida da Alma], p. 186. […].) Levemos pois a comparação ao plano dinâmico; passemos da ordem do ser à ordem da operação, e digamos que o Espírito Santo exerce, no Corpo Místico, uma atividade semelhante à que desempenha a alma, no corpo humano.

Dom Vonier afirmando a ordem da operação: “O Espírito Santo nos conserva tudo o que Nosso Senhor fez, tudo o que Ele disse. É pelo Espírito Santo que nós temos a presença real de Cristo na Eucaristia; não uma presença exclusivamente espiritual, isto é, um simples pensamento do espírito, uma lembrança, conforme o sentir protestante. Mas é pelo poder do espírito Santo que se dá, segundo a linguagem universal da tradição cristã, a maravilhosa transubstanciação do pão no Corpo, e do vinho no Sangue de Jesus Cristo.”

Texto também já mencionado antes por D. Vonier: “Pois a característica, desta epifania do Paráclito, começada no dia de Pentecostes, consiste nisto, que o Espirito Santo fala e age ostensivamente e que as suas obras são visíveis.”

Em outra parte D. Vonier diz: “Encontramos nos Atos a história das manifestações e das operações do Espírito Santo, e nada nos impede de considerar esta história como o quadro da situação normal da Igreja de Jesus Cristo.”

Pe. Penido: Deixamos ao leitor a tarefa agradável de vivificar o que aqui é dito abstratamente, pela leitura dos “Atos dos Apóstolos”, o livro do Espírito Santo no qual concretamente se lhe descreve a ação na Igreja. […]

Dom Vonier: “Estas considerações aumentam consideravelmente a importância teológica do livro dos Atos dos Apóstolos, que é de fato o Evangelho do Espírito Santo, assim como as narrações dos quatro evangelistas são o Evangelho do Verbo Encarnado. Encontramos nos Atos a história das manifestações e das operações do Espírito Santo, e nada nos impede de considerar esta história como o quadro da situação normal da Igreja de Jesus Cristo.”

Portanto, nada mais injusto do que considerar que Dom Vonier não tinha isso tudo como metáfora. Nota-se, aliás, que em muitas acusações D. Vonier, ironicamente, possuía o mesmo pensamento do pe. Penido.

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A Ilusão Milenarista

Pe. Penido: Um dos mais preciosos ensinamentos da Encíclica é o concernente à fundação da Igreja. A esse respeito vigoravam, mesmo entre os teólogos, ideias inexatas e até mesmo errôneas. E. Mura, por exemplo… H. Dieckmann… Dom Anscar Vonier abismou-se por completo no erro, chegando até a soçobrar na franca heresia. Para não sermos acusados de calúnia, transcrevemos aqui alguns textos desse autor. (1) “A ideia básica deste livrinho sobre o Mistério da Igreja é a estreita relação que há entre a Igreja na sua constituição essencial, e o mistério da glorificação de Cristo o filho de Deus.” (2) “A Igreja não tem essencialmente relação tão imediata com a morte de Cristo como a tem com o estado glorioso de Cristo.” (3) “Verdadeiramente a Igreja não é outra coisa mais do que uma província no reino da glória do Senhor.” (4) “O conceito da Igreja é idêntico ao conceito de glorificação de Cristo.” (5) “Admitimos como verdade fora de qualquer dúvida que a fundação da Igreja data de Pentecostes.” (6) “A Igreja é em toda a sua essência e existência um ser de glória, como o próprio Cristo.” (Todas essas citações são tiradas da edição brasileira de “O Mistério da Igreja”, às páginas 15, 16, 17, 18, 19, 38.) Rematava, atribuindo erroneamente uma heresia ao Cardeal Manning, para adotá-la em seguida: a heresia da união hipostática entre a Igreja e o Espírito Santo. (Ver acima, no 3.º capítulo [da Parte Segunda], a nota 28 [= 2.º Excerto, acima – N. do T.].)

Já observamos que, em outros livros (incluindo um livro posterior a essa palestra), ele não atribuía nenhuma união hipostática entre a Igreja e o Espírito Santo. Quanto a relação com a glorificação de Cristo, não foi ela seguida da cruz, pressupondo as lutas da Igreja? Alguns dos outros itens são explicados no capítulo “As Grandes Metáforas”. Quanto ao item cinco, já vimos que ele pressupunha que a fundação foi anterior ao pentecostes, apesar de não se excluir a real possibilidade de ou o texto ter sido mal traduzido ou ele realmente ter sido infeliz ao se expressar dessa forma na palestra.

Pe. Penido: Já o excelente eclesiólogo suíço Charles Journet assinalara a obra de Vonier como eivada de ilusão milenarista. (Nova et Vetera, Revue Catholique Pour la Suisse Romande, 1941, p. 327. Ele critica D. Vonier, por ter absorvido a Igreja militante na triunfante; esquecendo-se de que a província da glória de Cristo deve ser precedida pela província da Cruz de Cristo. “Antes da hora da recapitulação nos céus, há a hora da recapitulação no sangue; antes da Igreja da glória de Cristo, há a Igreja da Cruz de Cristo.”)

Um texto já mencionado de D. Vonier: Uma das mais profundas originalidades do cristianismo consiste no seguinte: o seu divino fundador anuncia, como parte da sua mensagem, que a condição normal de seus discípulos será a de sofrer toda a sorte de opressões e de perseguições. Não fosse o otimismo que lhe faz declarar que todo sofrimento conduz à vitória, Cristo poderia ser chamado profeta de desgraças, porque jamais alguém falou do futuro com cores mais sombrias do que ele. […] Outras tribulações, de gênero especial, esperam os seus discípulos e a sua Igreja, precisamente por lhe pertencerem (colocar Jo XV 18-21). Os cristãos serão perseguidos como foi o próprio Cristo. Serão entregues à morte pelos homens que pensarão honrar assim a Deus. Pois não foi o divino Mestre crucificado por terem os sacerdotes da antiga Lei declarado que era blasfemador? […] Os milhares de anos de história da Igreja com todas as narrações de perseguições, comparados com a glória da vida futura, não são realmente mais do que os trinta e três anos da vida mortal de Cristo em estado de humilhação. (A Vitória de Cristo, p. 129)

D. Vonier, no mesmo livro, explica o que quer dizer por Igreja vitoriosa: “Em todos os atos de sua vida, a Igreja Católica manifesta um aspecto da vitória de Cristo: a sua fé, as suas orações, os seus sacramentos, as suas lutas, toda a sua organização, estão a proclamar que o seu chefe é Aquele que destruiu o mal e adquiriu uma glória eterna. Para que ela seja uma Igreja de vitória, não é preciso estar isenta de assaltos externos e que todos os seus filhos sejam santos. Uma só coisa lhe é necessária: deve ser capaz de resistir a todos os adversários exteriores e destruir todos os pecados que se achem nos corações de cada um dos seus membros. Ora, este poder a Igreja sempre o teve; portanto, temos toda a razão de proclamá-la Igreja militante, o que significa Igreja vitoriosa.” (Vitoria de Cristo, 116)

Pe. Penido: Vem agora a Encíclica, com soberana autoridade, dissipar as confusões e pôr em meridiana luz a verdade católica. A Igreja foi formalmente fundada e constituída no Calvário; nasceu do lado do Salvador, qual nova Eva mãe de todos os viventes. (E, 39, 12. – E, 74, 33: “O Corpo Místico de Cristo, nascido do coração rasgado do Salvador.”)

Dom Vonier: Os filhos de Deus não eram um, mas estavam dispersos; Cristo morreu para reuni-los. Jesus não morreu para uma nação: “Mas para reunir em um corpo os filhos de Deus que andavam dispersos” (Jo 11, 52). O que Jesus fez através do mérito de Seu Sangue, o Espírito faz de forma eficaz através da sua presença pentecostal em todo o mundo até o fim dos tempos. (O Espírito Eterno e o Nascimento da Noiva, no livro “O Espírito e a Noiva”)

Pe. Penido: O dia de Pentecostes assinalou, por sua vez, a promulgação e a manifestação externas da Igreja. Se é verdade que o Corpo Místico não pode existir formalmente sem estar animado por sua Alma, o Espírito Santo, é também verdade que já no Calvário “foi a Igreja enriquecida daquela abundantíssima comunicação do Espírito que divinamente a ilustra desde que o Filho do homem foi elevado e glorificado no seu doloroso patíbulo.” (E, 40, 28. – E, 74, 25: “Foi ela (Maria) que com suas eficacíssimas orações, obteve que o Espírito do divino Redentor, já dado na Cruz, fosse depois em dia de Pentecostes conferido com aqueles dons prodigiosos à Igreja recém-nascida.

A MESMA COISA QUE PIO XII DISSE NA ENCÍCLICA: “De fato o divino Redentor começou a fábrica do templo místico da Igreja, quando na sua pregação ensinou os seus mandamentos; concluiu-a quando, glorificado, pendeu na Cruz; manifestou-a enfim e promulgou-a quando mandou sobre os discípulos visivelmente o Espírito paráclito”

Dom Vonier: “Quando dizemos que a Igreja nasceu no dia de Pentecostes, queremos dizer, é claro, que o início de uma vida que é uma vida total, que é toda a nova santidade do cristianismo, surgiu em seguida; não só foram dados sinais externos da presença do Espírito, mas uma santidade interior, a santidade da Igreja, começou sua carreira naquele poderoso dia” (O Espírito Eterno e o Nascimento da Noiva, no livro “O Espírito e a Noiva”)

A propósito: “Com a efusão do Espírito Santo em Pentecostes, nasce na sua vitalidade a Igreja que vai sob a ordem de Nosso Senhor, instituir para os batizados uma liturgia sacramental, compreendendo a oração, a pregação, o ofício divino, a celebração dos mistérios da Cruz e da Eucaristia, que multiplicará rapidamente os bispos, os padres e outras ordens, para a multiplicação e santificação daqueles que creem” (Dom Lefebvre. A Vida Espiritual, p. 88, ed. Permanência).

Pe. Penido: A “Igreja que Cristo adquiriu com seu sangue e cujos membros se gloriam de uma Cabeça coroada de espinhos” (E, 29, 17), essa Igreja não é um ser de glória, mas, como o seu Fundador, um ser “perseguido, caluniado, atormentado por aqueles mesmos a quem veio salvar”. (E, 30, 2.) Entendemos agora por que essa Encíclica sobre a Igreja foi escrita (nem podia deixar de sê-lo) sob o signo da Cruz. […]

Creio não ser mais necessário mostrar o que D. Vonier falou sobre o estado atual da Igreja no livro “A Vitória de Cristo”, escrito um ano depois do “Mistério da Igreja”. Entretanto, ainda é útil mencionar o que ele pensava sobre o Milenarismo:

Dom Vonier, acusado de “ilusão milenarista”, chamando o milenarismo de ilusão: Outra forma de ilusão sobre o grande assunto da segunda vinda de Cristo tem sido mais universal, mais persistente e é, de certo modo, mais desculpável. Essa forma de sonho religioso é mais antiga que os Evangelhos; é a esperança do homem do milênio. Tem sempre sido a fé de certas pessoas pias, cujas almas têm sido afligidas pelas iniquidades mundanas, a de que haveria sobre a terra algum dia um magnificente reino de Deus. Com o advento do cristianismo, Cristo seria, é claro, o Rei dessa feliz era de santidade humana. Não é fácil se opor a essas pessoas e provar que estão erradas quando professam esperança em um grandioso triunfo de Cristo sobre a terra antes da consumação final de todas as coisas. Esse tipo de ocorrência não é excluído, não é impossível, não há certeza de que não possa haver um período prolongado de cristianismo triunfante antes do fim. O ponto de divisão entre as aspirações legítimas de almas devotas e as aberrações de um milenarismo falso é este: os Quialistas – como os milenaristas são chamados, a partir da palavra grega “mil” – parecem esperar uma vinda de Cristo e uma presença de sua glória e majestade sobre a terra que não seria a consumação de todas as coisas, mas uma porção da história da humanidade. Isso, porém, não está consoante com o dogma católico. A vinda de Cristo no segundo advento – a Parúsia, como é chamada tecnicamente –, na cristandade ortodoxa, é a consumação de todas as coisas, o fim da história humana. Se antes desse final há de ter um período, mais ou menos prolongado, de santidade triunfante, isso resultará não da aparição triunfante da Pessoa de Cristo em sua Majestade, mas da operação dos poderes de santificação que estão trabalhando agora: o Santo Espírito e os Sacramentos da Igreja. Os Quialistas de todas as épocas e opiniões, e muitos podem ser encontrados hoje, parecem desesperar não somente do mundo, mas até mesmo da dispensação da graça inaugurada no Pentecoste; eles esperam, a partir da presença visível de Cristo, uma completa conversão do mundo, como se um resultado feliz não se fizesse de outra forma. Ainda têm de aprender o significado destas palavras de Cristo aos Apóstolos: “Santifica-os pela verdade. A tua palavra é a verdade.” A Igreja Católica tem plena confiança na presente ordem da vida sobrenatural, e se ela anseia o retorno de seu Cristo, não é porque desespera do trabalho que lhe foi dado, mas porque deseja ver esse trabalho manifesto a todos os homens, para que se evidenciem as coisas maravilhosas que Cristo realizou aos homens antes de sua ascensão ao céu. (Retirado do livro “Morte e Julgamento”, capítulo que já está disponível).

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Dom Vonier “pancristista”?

Antes e continuar, é interessante notar que o Papa estava falando de outro erro do qual o pe. Penido usou os mesmos raciocínios para o que considerava ser o pensamento de D. Vonier. Entretanto, não poucas foram as pessoas induzidas a pensar que Dom Vonier ensinou o “pancristismo” e que Pio XII o condenou por isso, o que qualquer pessoa que leia tanto a encíclica quanto o texto do pe. Penido verá que não é o caso.

Texto do pe. Penido: O Pe. L. Kösters, S. J., Die Kirche unseres Glaubens, Freiburg, 1935, p. 151-152, já assinalava os dois erros de quietismo e de panteísmo como inquinando certas exposições da doutrina do Corpo Místico. Como exemplo de “pancristismo”, apresenta ele o exegeta protestante A. Deissmann, que, em seu livro Die ntl. Formel “in Christo Jesu”, Marburg, 1892, dava à expressão: “em Jesus”, tão característica de S. Paulo (E, 59, 33 [= EncíclicaMystici Corporis, no trecho à p. 59, linha 33 seg. de OCM. – N. do T.]) um sentido local: os fiéis estão no Cristo pneumático, como vivem no ar, os peixes na água e as plantas na terra!

Até o momento ele não se refere a D. Vonier, mas menciona o erro de um protestante que aplicava o sentido local à expressão “em Jesus” (assunto condenado expressamente na encíclica).

Segue o pe. Penido na explicação da condenação a respeito da interpretação sobre a confusão entre Cristo e a Igreja: Feckes (op. cit.(**), p. 38-39) indicava que a metáfora de Corpo não deve ser interpretada como se os membros perdessem a liberdade e independência para se confundirem em Cristo. Observa que a metáfora nupcial (a Igreja “Esposa”) vem corrigir toda tendência a um “pancristismo místico”. Mais adiante (p. 164) afirma que Cristo é o princípio quase-formal da Igreja entendendo por aí que a Igreja deve a Cristo a existência e as forças que a fazem viver, sem que haja, todavia, confusão de essências. Não deve entrar na cogitação dos fiéis um “cristo-misticismo-panteístico” porque a fusão da Igreja e de Cristo em um novo indivíduo seria contra todo pensamento lógico (que o Logos leva em si em virtude de sua essência) e contra todo sentido religioso, pois atribuiria pessoalmente a Cristo todas as deficiências, faltas e pecados dos fiéis.

Chamo atenção novamente sobre a origem do termo “pancristismo” que não deveria ter sido aplicado a Dom Vonier mesmo se ele realmente tivesse cometido o outro erro em que foi acusado (que veremos não ser verdade). O “pancristismo” é referente a confusão entre Cristo e a Igreja, não entre o Espírito Santo e a Igreja. Nem mesmo o pe. Penido aplica esse termo ao que falou sobre D. Vonier. Então, qual o motivo de terem atribuído esse termo ao autor?

Pe. Penido continua: “A doutrina da Igreja como prolongamento, extensão, continuação da Encarnação redentora, foi posta em magnífico realce por K. Feckes,Das Mysterium der heiligen Kirche, Paderborn, 1935. Pela profundeza dos conceitos, o vigor da dialética, a clareza da exposição, a ortodoxia da doutrina, bem mereceria esse volume uma tradução portuguesa – quando mais não fosse, para servir de antídoto ao malogrado volume de D. Vonier, de título idêntico.” (OCM, p. 136, nota 13).

Ainda trataremos isso com mais detalhe, mas por hora basta essa citação de que Dom Vonier também pensava a mesma coisa a respeito: Não é a Redenção uma obra descontínua. Cristo mesmo a cumpriu toda. Mas a sua presença interior na Igreja tomou o lugar da sua presença exterior. […] Pois a característica, desta epifania do Paráclito, começada no dia de Pentecostes, consiste nisto, que o Espirito Santo fala e age ostensivamente e que as suas obras são visíveis. […] Não quero dizer que o Espírito Santo tenha resgatado a humanidade, mas é exato o afirmar com São Paulo que “Cristo, pelo Espirito Santo, se ofereceu a si mesmo, sem mácula, a Deus” como vítima da nossa salvação.

Pe. Penido mencionando o pe. K. Feckes: “A Igreja militante reproduz na sua vida, ou antes prolonga pelos séculos afora, os ofícios e estados não já do Cristo celeste – como sonhou D. Vonier – senão de Cristo Viageiro.

D. Vonier em outra obra (lembre-se que ainda não começamos a avaliar a conferência sobre o Mistério da Igreja): Uma das mais profundas originalidades do cristianismo consiste no seguinte: o seu divino fundador anuncia, como parte da sua mensagem, que a condição normal de seus discípulos será a de sofrer toda a sorte de opressões e de perseguições. Não fosse o otimismo que lhe faz declarar que todo sofrimento conduz à vitória, Cristo poderia ser chamado profeta de desgraças, porque jamais alguém falou do futuro com cores mais sombrias do que ele. […] Outras tribulações, de gênero especial, esperam os seus discípulos e a sua Igreja, precisamente por lhe pertencerem (colocar Jo XV 18-21). Os cristãos serão perseguidos como foi o próprio Cristo. Serão entregues à morte pelos homens que pensarão honrar assim a Deus. Pois não foi o divino Mestre crucificado por terem os sacerdotes da antiga Lei declarado que era blasfemador? […] Os milhares de anos de história da Igreja com todas as narrações de perseguições, comparados com a glória da vida futura, não são realmente mais do que os trinta e três anos da vida mortal de Cristo em estado de humilhação. (A Vitória de Cristo, p. 129).

Em outras palavras: “os milhares de anos de história da Igreja com todas as narrações de perseguições, comparados com a glória da vida futura” , “reproduz na sua vida, ou antes prolonga pelos séculos afora […] Cristo Viageiro” (“não são realmente mais do que os trinta e três anos da vida mortal de Cristo em estado de humilhação”). E nada diferente do que disse o Papa Pio XII: “O que sucede quando ela, seguindo as pisadas de seu Fundador, ensina, governa, e imola o divino sacrifício; quando abraça os conselhos evangélicos e reproduz em si mesma a pobreza, a obediência e a virgindade do Redentor; quando, nos muitos e variados Institutos que como joias a adornam, nos faz em certo modo ver a Cristo, ora no monte contemplando, ora pregando às turbas, ora sarando os enfermos e feridos e convertendo os pecadores, ora enfim fazendo bem a todos. Não é pois para admirar se ela, enquanto vive nesta terra, se veja também, como Cristo, exposta a perseguições, vexações e sofrimentos.”

Pe. Penido: D. Vonier, em conferências pronunciadas no ano de 1934 em Salzburg (estampadas, logo em seguida, num volume, em má hora traduzido para o português sob o título: O Mistério da Igreja) desposou uma forma congênere de panteísmo místico, afirmando a união hipostática não já entre Cristo e a Igreja, senão entre o Espírito Santo e a Igreja. Iguais são os inconvenientes, aliás assinalados implicitamente pela Encíclica ao tratar da habitação, nas almas dos fiéis, do divino Espírito Santo. (E, 60, 35.)(***)

Antes de mencionar o que D. Vonier disse em outros textos, note, novamente, que o pe. Penido não chama isso de Pancristismo, justamente por se tratar do Espírito Santo. Nesse momento não posso deixar de pensar na quantidade de pessoas que se assustaram e se deixaram levar só pelo nome. Entretanto, chamar “Pancristismo” algo relacionado ao Espírito Santo é a mesma coisa de falar de um “Panamericano da Arábia”.

Três livros de D. Vonier dedicam alguns capítulos específicos ao assunto, além do “Mistério da Igreja”. Em 1930, D. Vonier escreveu o livro chamado “A Nova e Eterna Aliança”, em 1933 o livro “Christianus” e em 1935 escreveu “O Espírito e a Noiva”. Ora, a palestra sobre o “Mistério da Igreja” ocorreu em 1933. Temos, então, um livro escrito 3 anos antes da palestra, um escrito no mesmo ano da palestra e outro escrito 2 anos depois. Isso é importante por dois motivos: (1) eles demonstram uma continuidade no pensamento de D. Vonier e (2) em alguns casos ele usa, se não as mesmas palavras, o mesmo esquema argumentativo. Isso prova que o pensamento de Dom Vonier em 1935 era o mesmo de 1930 e 1933, mostrando qual era realmente seu pensamento, apesar de possíveis erros na palestra. Entretanto, também avaliaremos o “Mistério da Igreja”, no seu devido tempo e nas suas devidas proporções. Mas vamos ao que D. Vonier disse sobre o tema. Os comentários entre colchetes são meus:

Dom Vonier sobre a relação entre o Espírito Santo e a Igreja:

1930, A Nova e Eterna Aliança: “Vejamos agora o grande acontecimento do dia de Pentecostes. Qual o dom concedido à Igreja nesse dia? A Igreja recebeu de certo um dom inteiramente novo. Não basta dizer que o Espirito Santo foi dado nesse momento com maior intensidade do que o fora antes. Não! O pentecostes realizado dez dias depois da ascensão do Senhor foi acontecimento único na história do mundo, único como a última Ceia, único como a morte de Cristo no Calvário! O Espírito Santo não tinha sido ainda dado. Ele foi dado à humanidade nessa hora para sempre bendita, hora nona do quinquagésimo dia depois da Páscoa da Redenção!

O Espírito Santo desde a criação do homem tem visitado os justos. D’Ele se diz no Credo que falou pela boca dos profetas: Qui locutus est per profetas. De certo, ninguém pode ser santificado sem o Espírito de Deus. Mas o Pentecostes do Novo Testamento é um fato imenso, um evento inteiramente novo. Desde então o Paráclito está conosco duma maneira desconhecida dos profetas e dos reis que desejaram ver o que nós vemos, e não viram; ouvir o que nos ouvimos, e não ouviram. Não há exagero em dizer que a presença do Espírito Santo na Igreja é tão nova quanto a do Filho de Deus desde a Encarnação.

Deus foi sempre, de certa maneira, companheiro do homem, passeou com ele, fez do homem seu amigo; mas não se pode dizer que Ele se tenha feito homem e vivido no mundo entre os homens, como Ele habita entre nós, desde que se cumpriu na Virgem Maria o que tinha sido predito pelo Senhor. É a Encarnação um modo inteiramente novo para Deus de estar com o homem, de ser a vida espiritual do homem.

A habitação do Espírito Santo nas almas dos fiéis pertence ao mesmo plano de realidades. É também nova quanto ao modo; poderia dizer-se mesmo que é tão original como a natividade do Verbo humanado. No entanto, seria falso falar-se duma Encarnação da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, porque o Espírito Santo não assumiu a natureza humana, como o fez o Verbo. O que quero dizer é que a vinda do Paráclito é inteiramente análoga [“análogo” não é “idêntico”] à vinda do Filho de Deus. Em ambos os casos temos uma verdadeira descida de Deus ao mundo, descensos de coelho, como jamais acontecera antes.

Os teólogos têm procurado compreender e explicar a maneira por que esse novo acontecimento difere profundamente das outras manifestações do Espírito Santo no mundo antigo. Mas acharam-se sempre diante dum mistério tão grande quanto o da Encarnação. O modo pelo qual Deus se fez homem é um segredo que ele não revelou. Assim também é um segredo de Deus a maneira de o Espírito Santo habitar nas almas dos justos. Entretanto, nos dois casos, ambos sublimes, é verdade que uma Pessoa divina, e não outra pessoa, desceu do céu para habitar com o homem neste mundo.

Poderia repetir aqui o que os teólogos escreveram para esclarecer a natureza dessa nova habitação do Paráclito.

Todavia os maiores entre eles confessam que tudo o que dizem a este respeito é como que palavras balbuciadas por crianças. Explicam, por exemplo, que a vinda do Espírito Santo confere à alma cristã uma orientação especial para a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade. Dizem, com São Paulo, que o cristão fica assinalado com o selo do Espírito Santo, assim como é assinalado pelo batismo com o sinal de Cristo. […] Penso, porém, que todas as proposições da teologia, relativas a esta matéria, são salvaguardadas por esta outra verdade: A vinda do Filho de Deus e a vinda do Espírito Santo são dois fatos semelhantes, análogos, posto que o Verbo se tenha unido substancialmente à natureza humana, ao passo que o Espírito Santo se tornou, por assim dizer [“por assim dizer” não quer dizer que tomou no sentido exato da palavra. É “por assim dizer” pois são “análogos”. Se são apenas análogos, não são, por consequência, idênticos. Veremos adiante que ele se refere a tudo isso como metáforas], a alma que dá a vida a toda a Igreja.

Estas considerações aumentam consideravelmente a importância teológica do livro dos Atos dos Apóstolos, que é de fato o Evangelho do Espírito Santo, assim como as narrações dos quatro evangelistas são o Evangelho do Verbo Encarnado. Encontramos nos Atos a história das manifestações e das operações do Espírito Santo, e nada nos impede de considerar esta história como o quadro da situação normal da Igreja de Jesus Cristo.”

1933, Christianus: Não seria admissível falar em Encarnação da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, pois o Espírito não se fez carne como a Palavra se fez carne. O que eu quero dizer é que o advento do Paráclito é do mesmo tipo que a vinda do Filho de Deus: em ambos os casos há um verdadeiro descensus de coelo, uma verdadeira descida do céu de uma forma que não houve antes. De que forma esse novo advento difere tão profundamente dos sussurros do Espírito no mundo antigo antes de Cristo, os teólogos têm tentado compreender e explicar; mas eles são confrontados com um mistério, assim como o mistério da Encarnação. Assim como é segredo de Deus a forma que o Filho de Deus se fez homem, também é seu segredo como o Espírito de Deus habita no homem; mas, em ambos os casos, é literalmente verdade que seja uma Pessoa Divina e ninguém mais falando com os homens aqui na terra. Eu poderia repetir tudo o que foi escrito pelos teólogos, para explicar o significado dessa nova permanência do Paráclito. Mas o mais sábio deles confessa que todas as suas palavras são balbucios infantis. Eles afirmam, por exemplo, que através da vinda do Espírito Santo a alma cristã tem uma orientação especial e exclusiva pela Terceira Pessoa da Santíssima Trindade. Com São Paulo eles dizem que somos selados com o Espírito Santo, assim como somos selados com o sinal de Cristo no Batismo. Essa é a uma clara insinuação de que o Paráclito é para nós tanto quanto a Palavra Encarnada. Mas eu acho suficiente para todos os fins da teologia cristã afirmar essa paridade entre o advento do Filho de Deus e a descida do Espírito Santo, embora um fez-se carne, enquanto outro, por assim dizer, toda a Igreja para si. […] Entramos mais uma vez na questão do mistério do primeiro Pentecostes. Qual foi o dom concedido à Igreja naquele dia? Que um presente inteiramente novo veio à Igreja é evidente em todo o gênio do Novo Testamento. Não seria suficiente dizer que o Espírito Santo foi dado no Pentecostes em uma medida mais completa do que ocorria antes. A descida do Espírito que ocorreu dez dias depois da Ascensão do Senhor foi uma coisa única na história do mundo, tão única quanto a Última Ceia, tão única quanto foi a morte de Cristo no Calvário. O Espírito não tinha sido dado antes, mas foi concedido naquele abençoado momento, na nona hora do quinquagésimo dia depois da Páscoa da Redenção.

1933, O Espírito e a Noiva: “A Igreja é tão verdadeiramente o símbolo do Espírito como a pomba no batismo de Cristo e, através desse fato, a espiritualidade da Igreja é diferenciada de todas as outras espiritualidades possíveis, pois é uma espiritualidade que é, ao mesmo tempo um sinal, um testemunho, uma prova de que o Espírito está nesta terra. […] Nesse sentido, podemos dar rosto a uma expressão que é querida por muitos escritores eclesiásticos; eles dizem que o Espírito Santo “encarnou-se” na Igreja, como a Segunda Pessoa da Trindade encarnou-se em uma natureza humana individual. A única exceção que tomamos para tal frase é o uso da palavra “encarnada” no que diz respeito ao espírito. Como dissemos em um capítulo anterior, a vinda do Espírito é tão literal quanto a vinda da palavra, mas, em vez de tomar carne, vestiu-se em sinais.

Para não repetir muitas coisas, observe a parte em que ele fala expressamente que isso tudo é metáfora no último item.

1934, A Vitória de Cristo: A vinda do Espírito Santo, no dia de Pentecostes, foi, sob todos os pontos de vista, um fenômeno tão grande na economia divina da salvação do homem como a Encarnação do Verbo no seio da Santíssima Virgem. Difere, porém, no modo. O Filho veio assumindo a natureza humana: o Espírito Santo, dando sinais evidentes e inegáveis da sua vinda. (Vitória de Cristo)

Portanto, Dom Vonier pelo menos antes da conferência, durante o ano da conferência e depois da conferência não acreditava num “pancritismo” com Espírito Santo (“Pancristismo”, claro, segundo o entendimento de algumas pessoas). Talvez esse fosse realmente o pensamento dele, não?

Pe. Penido: Como o erro logo prolifera, já em 1937 escrevia G. Feuerer (Unsere Kirche im Kommen, Freiburg i. B., p. 183) que podemos falar numa espécie de encarnação do Espírito Santo na Igreja, e referia-se explicitamente a D. Vonier. Este, por um estranho equívoco, pretendeu colocar a heresia sob o insigne patrocínio do Cardeal Manning (O Mistério da Igreja, trad. portug., p. 58) quando o célebre purpurado excluíra, explicitamente, na sua teoria, toda união hipostática entre o Espírito Santo e a Igreja. (Ver o texto autêntico de Manning na obra citada do Pe. E. Mersch [= Le Corps Mystique du Christ, 2.ª ed., Paris, 1936], t. II, p. 357 nota.)

Já sabemos o que Dom Vonier pensava sobre o assunto, não atribuía nenhuma união hipostática e falou expressamente que “seria falso falar-se duma Encarnação da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade”.

Pe. Penido: A guerra impediu que recebêssemos um artigo do Pe. Erich Przywara, S. J.: “Corpus Christi Mysticium, Eine Bilanz”, publicado na Zeitschrift für Aszese und Mystik, 1940, p. 197-215. Conhecemo-lo apenas por uma recensão publicada por uma revista suíça, segundo a qual o douto jesuíta atribui a origem da “crise” reinante entre os teólogos germânicos a propósito do Corpo Místico, ao filósofo Max Scheler o qual, em artigos publicados em 1916, opunha o Corpo Místico à Igreja jurídica; donde alguns suprimiram todas as distâncias hierárquicas, operaram a fusão entre Cristo e os cristãos por uma espécie de monstruosa transubstanciação, de maneira a formarem uma só carne, como afirma um folheto muito divulgado, impresso em 1939 e intitulado: Der Christ als Christus. De outro lado, reagindo contra esses devaneios, certos autores como L. Deimel, Leib Christi, Sinn und Grenzen einer Deutung des innerkirchlichen Lebens, Freiburg, 1940, minimizam a noção de Corpo Místico, ao ponto de anulá-la praticamente.

Nessa parte não há nenhuma relação aqui com D. Vonier. Entretanto, serviu para dar volume ao texto do blog. E a título de curiosidade, D. Vonier falou uma única vez sobre a hipostatização da Igreja, não do Espírito Santo, mas em termos completamente diferentes: “O ponto em questão é o que pode ser denominado hipostatização da Igreja, isto é, a prática de falar dela como ser fosse uma pessoa. Ela é chamada de Noiva, para nos limitarmos ao título do livro. Essas hipostatizações são familiares na literatura humana e na imaginação popular. São dados nomes pessoais para países; eles são até mesmo amados como belas figuras, principalmente do sexo feminino. Isso ocorre sempre, mas não precisa estar entre aspas. Esse processo de hispotasiar é mais justificado e tem base mais verdadeira que o caso do afeto nacional e o idealismo racial? É evidente que no que diz respeito à Igreja, a idealização ocorreu muito antes que existisse como um sentimento nacional: é tão antigo quanto a própria Cristandade. Mas qualquer que seja a explicação psicológica deste processo na vida humana comum, é certo que existe na Igreja um elemento que é único e não pode ser encontrado na natureza. O Espírito de Deus, uma Pessoa Divina, é para as almas cristãs espalhadas de todos os tempos e climas um vínculo de vida e união que não é sequer imaginável em outros lugares. A presença desse Espírito entre os fiéis, como espero mostrar neste livro, é mais do que a santificação separada de muitos milhares, ou melhor, milhões de almas individuais. Há o mistério de uma vida: a natureza não possui nada que seja análogo. Chamar a Igreja de Noiva é mais do que literatura, é uma necessidade teológica. Sem esse nome ou seu equivalente, nunca poderíamos conhecer a verdadeira relação entre a Igreja e Cristo, e não poderíamos expressar a operação especial do Espírito que desceu no dia de Pentecostes.” (Prefácio do livro “O Espírito e a Noiva”).

Esse capítulo e todos os outros serão postados integralmente para qualquer pessoa que queira conferir o que está sendo colocado.

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