A vida dos Anjos

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São Miguel II 29.09.2011É digna de nota a parcimônia com que as Escrituras se referem à natureza, à vida e à atividade desses seres maravilhosos, que chamamos anjos. Manifestam-se eles para cumprir missão bem definida, para transmitir uma mensagem e desaparecerem tão repentinamente, como tinham entrado em cena. O único traço dos anjos que as Escrituras parecem distinguir com clareza é exatamente aquela agilidade de movimento, aquela liberdade em relação às rigorosas leis do espaço, precisamente a peculiaridade da natureza angélica que maior atração exerce sobre a imaginação humana.

Seria, todavia, inexato afirmar que tudo ignoramos da natureza dos anjos. A teologia católica tem seus próprios recursos e, no concernente às existências angélicas, chegou a determinadas conclusões que, em seu conjunto, podem ser consideradas como expressão da verdade.

O pensamento humano não se satisfaz em conferir desempenho puramente ministerial aos espíritos celestes. Os anjos são mais que ministros e mensageiros. Acima de tudo, são parte do universo, a parte mais nobre. E, muito cedo, na história do pensamento cristão, encontramos anjos ocupando importantíssima posição cósmica.

Há estabilidade de poder e de vida no mundo dos espíritos, e os anjos transformaram-se nos grandes seres sobre os quais, como sólidos fundamentos, repousa o mundo. Este ponto de vista é certamente esboçado nas epístolas de São Paulo, quando o apóstolo fala do Cristo elevado “muito acima de qualquer Principado e Autoridade e Poder e Soberania e de todo nome que se pode nomear não só neste século, mas também no vindouro” (Ef 1,21).

Nossa teologia parte do princípio de que os anjos são puros espíritos e podemos ter como verdade tudo quanto pode ser deduzido desse princípio. Não podemos, talvez, ir muito longe. Contudo, ao constatarmos as volumosas obras escritas pelos melhores teólogos sobre o assunto, devemos admitir a possibilidade de muito poder escrever sobre o assunto, sem cair em especulações extravagantes.

Certas épocas deixaram-se trair por essas especulações, o que pode acontecer a toda filosofia, mas tais excessos em nada atingem trabalhos de um gênio tão sóbrio como São Tomás de Aquino, para citar apenas um entre os maiores e humildes teóricos dos anjos.

A arte católica e a teologia parecem conflitantes a respeito dos seres angélicos. Com efeito, a arte católica lhes empresta cor física, beleza visível, enquanto que, de modo contrário, a teologia católica se esforça por esvaziá-los de todo elemento de materialidade e de visibilidade. Basta, porém, ter bom senso para alcançar a paz nessa controvérsia insolúvel.

Tais como somos agora, em nosso estado mortal, não nos é possível pensar através de elementos puramente espirituais. Temos necessidade do socorro de nossa fantasia. E a imaginação mais rica será a que gerar a mais satisfatória visão dos mensageiros celestes.

Todavia, é absolutamente necessário admitirmos que a realidade angélica é diferente, incomparavelmente diferente e infinitamente mais bela do que podemos imaginar. Não devemos ficar tristes ao tomar conhecimento de que nossa visão dos anjos, se é que temos uma, não representa o celeste visitante em seu estado real, pois ele nos aparece em traços tomados à imaginação.

Quais são as conclusões corretas a serem tiradas do princípio de que anjos são espíritos? Os enunciados discriminados a seguir podem ser tomados como teses geralmente aceitas a respeito da existência dos anjos:

1 – Os anjos têm começo, mas não podem perecer. Permanecem perpetuamente idênticos a eles mesmos.

2 – Os anjos não estão sujeitos às leis do tempo, mas têm uma medida de duração que lhes é própria.

3 – Os anjos situam-se de maneira absoluta acima do espaço, sem jamais poderem ser submetidos às suas leis.

4 – Os anjos exercem seu poder sobre o mundo material diretamente pela vontade.

5 – A vida dos anjos é dotada apenas de duas faculdades: inteligência e vontade.

6 – No que toca à ordem natural, o anjo não pode errar, nem em sua inteligência nem em sua vontade.

7 – O anjo jamais volta atrás de uma decisão que tenha tomado.

8 – O espírito angélico não é como o espírito humano, sujeito a um desenvolvimento gradual. Desde o inicio surge com plenitude de conhecimento.

9 – O anjo pode influenciar diretamente uma outra inteligência criada, mas não pode agir diretamente sobre outar vontade criada.

10 – Os anjos são dotados de livre-arbítrio. São capazes de amar e odiar.

11 – Os anjos conhecem as coisas materiais e individuais.

12 – Os anjos não conhecem o futuro, nem os pensamentos secretos das outras criaturas racionais, nem os mistérios da graça, a menos que tais coisas lhes sejam livremente reveladas por Deus ou por essas outras criaturas racionais.

Essas proposições relacionam-se com o estado de natureza dos anjos. Todavia, o anjo foi elevado ao estado sobrenatural, ao estado de graça, e em relação a esse estado, há outros princípios admitidos pelos teólogos; vamos reserva-los para o próximo capítulo, que trata de sua santidade.

O enunciado das referidas teses é absolutamente claro. É fácil compreender o sentido das palavras, apesar da existência de dificuldades em conformar a elas a visão habitual do nosso espírito. Tais teses abarcam praticamente todo o campo da teologia dos anjos. Tudo o que vai além não passa de sutileza.

Ensinam as Escrituras a existência de hierarquia entre os anjos. Há anjos maiores, talvez imensamente maiores, e outros menores; mas seria temerário, e até mesmo insensato, arriscar uma explicação para tais diferenças, em se tratando de substâncias espirituais.

Por que um espírito é maior que outro? Não sabemos dizê-lo. Podemos, bem entendido, afirmar que um espírito é maior, porque sua inteligência é mais poderosa, porque apreende as coisas de forma mais simples e mais límpida, porque vê, num único ato intelectual, o que outros espíritos de ordem inferior não podem perceber, senão através de diversos atos. É evidente, contudo, não nos dar tudo isso o fundamento da grandeza dos anjos. Os anjos maiores podem compreender e ver assim porque suas faculdades intelectuais são maiores. E por que são maiores? Porque sua natureza é maior. Mas como sua natureza é maior? Para tais perguntas os filhos dos homens não têm resposta.

Assim, nossa teologia dos anjos ocupa-se dos traços angélicos gerais e não de seus atributos especiais. Não sabemos mais dos anjos mais elevados do que dos menores. Conferimos aos anjos atributos genéricos, que pertencem a todas as substâncias espirituais finitas, com exceção da alma humana.

Podemos agora dar uma explicação sobre cada uma das proposições enunciadas anteriormente.

1 – Os anjos têm começo, mas não podem perecer. Permanecem perpetuamente idênticos a eles mesmos.

Os espíritos, da mesma forma que a matéria, foram criados do nada pela onipotência de Deus. Não são parte da Substância divina, como não o são também uma pedra ou uma árvore, mas se assemelham à divina Substância, de forma muito mais perfeita, de maneira que, comparativamente, podemos chama-los divinos, pelo fato de a semelhança de Deus encontrar-se neles de uma maneira não encontrada no resto da criação.

Não sabemos se todos os espíritos atualmente existentes foram criados no mesmo momento ou em várias criações.

Nenhum espírito finito pode criar um outro, e é mais conforme ao pensamento católico afirmar que Deus criou todos os anjos no mesmo ato.

A distância que separa o momento presente do da criação do mundo dos espíritos não é evidentemente calculável por quaisquer medidas de tempo.

A substância espiritual, uma vez produzida por Deus, não pode decair. Pode agir mal, tanto pela inteligência como pela vontade, mas sempre será substância perfeita. Não muda no que tem de essencial, nem se deteriora em sua natureza. Mal podemos dizer que ela é imortal, porque a palavra imortalidade não exprime exatamente o sentido dessa permanência.

Um espírito é simplesmente inalterável. Suas mudanças são apenas mudanças do pensamento ou da vontade.

2 – Os anjos não estão sujeitos às leis do tempo, mas têm uma medida que lhes é própria.

O cardeal Newman, de maneira belíssima, exprimiu isso no seu “Sonho de Geronte”:

“Porque os espíritos e os homens
Contam por medidas diferentes
Os menos e o mais no decurso do tempo.
Pelo sol e a lua, leis primitivas,
Pelas estrelas que se levantam
E harmoniosamente se deitam…
Pelo retorno das estações e o balanço,
De um lado para outro, da haste do pêndulo.
Precisa e pontualmente os homens dividem
As horas, iguais, contínuas, para seu uso
Comum. Não ocorre, porém, assim entre
Nós no mundo imaterial, onde os
Intervalos, em sua sucessão, são unicamente
Medidos pelo pensamento vivo e crescem
Ou diminuem com sua intensidade.
E o tempo não é propriedade comum,
Mas o que é longo e curto e lento o que
É rápido. O que é próximo está longe,
Segundo o modo como é recebido e apreendido
Por este o por outro espírito, e
Cada um é o regulador de sua própria
Cronologia e falta à memória seus naturais
Pontos de referência, que são os anos, os
Séculos e os períodos”.

Newman traduziu nessa esplêndida linguagem o que a teologia escolástica apresenta de maneira técnica. Ainda que os anjos existam para sempre, não diremos que eles são eternos. A eternidade é a medida da existência de Deus: implica em negação, não somente do fim, mas igualmente de começo. Implica, também, na imutabilidade, sob todos os pontos de vista, inclusive imutabilidade da inteligência e da vontade, que é, precisamente, a eternidade pertencente exclusivamente a Deus.

3 – Os anjos situam-se, de maneira absoluta, acima do espaço, sem jamais poderem ser submetidos às suas leis.

Nossa razão concorda mais facilmente com essa tese do que nossa imaginação. A razão nos diz que um espírito, pela própria definição de sua natureza, não tem, em sua composição, nada que se possa relacionar com o espaço. O movimento não pode ser atribuído aos espíritos no sentido corporal e mecânico do termo.

Os espíritos agem, exercem poder sobre todas as coisas materiais, ora num ponto do universo, ora em outro. Tais ações ou influências são sucessivas e não simultâneas. Entretanto, não se pode dizer que um espírito se deslocou ou que voou de um local para outro. Exerceu, simplesmente, dois diferentes atos de seu poder sobre objetos afastados um do outro.

4 – Os anjos exercem seu poder sobre o mundo material diretamente pela vontade.

O poder da vontade dos anjos não é apenas imanente, mas também executivo. Tal vontade pode mudar as coisas do universo material, seja por contato direto, seja por influência. Os espíritos podem fazer maravilhas ou prodígios, servindo-se, para isso, das forças da natureza, mas não se poderia dizer que eles sabem fazer milagres, no sentido próprio desse termo, como ressuscitar mortos: isto requer o poder divino.

As angelofanias, ou aparições de anjos ou de espíritos, em geral, podem ser explicadas pelo poder que possuem esses seres superiores de agir, sobre nossa percepção sensível e de transmitir-nos as fortes impressões relatadas nas Escrituras, em diversos exemplos: “Seu corpo tinha a aparência do crisólito e seu rosto o aspecto do relâmpago, seus olhos, como lâmpadas de fogo, seus braços e suas palavras, como o clamor de multidão” (Dn 10,6).

5 – A vida dos anjos é dotada apenas de duas faculdades: inteligência e vontade.

Com essa proposição, excluímos da vida dos espíritos todo traço de vida sensível. Não se pode dizer que os anjos são dotados de imaginação, de paixão, de sensibilidade. Todas essas manifestações são essencialmente manifestação de vida orgânica e de poder sensível. É o que entendemos pela expressão corrente de “pureza angélica”. Os anjos são isentos de toda sensualidade, não por virtude, mas por natureza. Se pecado existir neles, jamais será, ainda que na mais leve escala, um pecado sensual.

Nós, seres humanos, não temos absolutamente uma experiência de semelhante vida. Entretanto, é uma das primeiras conclusões que é necessário admitir quando podemos dizer que os anjos são anjos.

Por mais atraente que seja a noção dos anjos para a imaginação cristã, não há, contudo, nenhuma doçura mole, nenhuma sentimentalidade na verdadeira angelologia católica.

6 – No que toca à ordem natural, o anjo não pode errar, nem em sua inteligência, nem em sua vontade.

Esta afirmação pode parecer surpreendente, porque muito ouvimos falar da instabilidade de toda a criação. Ela decorre, porém, diretamente da simplicidade da natureza espiritual. Não pode existir no anjo qualquer fonte de pecado ou de erro em sua própria esfera de existência, mas ele pode pecar e errar nos mistérios da graça, porque estes mistérios situam-se acima dele, ultrapassam-no. Aqui, ainda devemos enviar o leitor ao capítulo da Santidade Angélica e ao Pecado dos Espíritos.

7 – O anjo jamais volta atrás de uma decisão que tenha tomado.

É sem qualquer dificuldade que admitimos esse traço de caráter do anjo, porque o admiramos mesmo no homem. No homem há diferença entre obstinação e firmeza das resoluções. Com efeito, enquanto a obstinação provem da estreiteza de visão, a firmeza das decisões decorre realmente da largueza de visão, englobando fatos com suas circunstâncias e seus fundamentos e consequências.

O homem perspicaz não sente necessidade de mudar seus pontos de vista e decisões, porque, desde o inicio, viu claramente as verdadeiras consequências do assunto de sua atenção. No homem, as intenções vacilantes têm origem no predomínio, nele, do elemento sentimental sobre o intelectual. Entre os espíritos, essa fonte de fraqueza, essa hesitação quanto ao fim a atingir, não pode existir: é facilmente compreensível. Num relance os espíritos apreendem uma verdade, teórica ou prática. Eles vêem todos os seus aspectos, todas as suas consequências e não existem ele nenhuma força inferior capaz de agir sob a influência de impressões mais movediças e de desviar sua razão a advertida e sua vontade exclusivamente espiritual de sua primeira decisão.

8 – O espírito angélico não é, como o espírito humano, sujeito a um desenvolvimento gradual. Desde o início surge com plenitude de conhecimento.

Está aqui definida a mais profunda diferença entre a inteligência do puro espírito e a inteligência humana. O puro espírito, desde o princípio de sua existência, é plenamente dotado de todo conhecimento. Jamais foi discípulo para aprender, no verdadeiro sentido da palavra, como o homem deve aprender, deve ser discípulo. Poder-se-á dizer que um anjo pode aplicar seu conhecimento a objetos novos, mas não adquire idéia que já não lhe tenha sido infundida pelo Criador, por ocasião de sua própria criação.

9 – O anjo pode influenciar diretamente uma outra inteligência criada, mas não pode agir diretamente sobre outra vontade criada.

A primeira parte dessa tese parece, à primeira vista, contradizer a precedente, ao dizer que os anjos jamais aprendem, no verdadeiro sentido da palavra.

Todavia, é ponto importante da teologia católica a recíproca iluminação dos anjos, em virtude da qual as faculdades intelectuais deum esclarecem o outro. A contradição é, aliás, apenas aparente.

A influência que o termo teológico iluminação implica não é um ensinamento ministrado a um ignorante, mas a comunicação de mensagens procedentes da esfera superior das vontades divinas, comunicação para a qual as faculdades intelectuais dos anjos estão preparadas e com as quais estão, de alguma forma, harmoniosamente sintonizadas.

Podemos afirmar que nenhuma comunicação procedente dos Conselhos de Deus surpreende os espíritos angélicos. Os espíritos podem, pois, agir sobre as faculdades intelectuais uns dos outros. Mas, é princípio intangível da teologia católica que somente Deus pode agir sobre uma vontade criada. A criatura poderá incitar, persuadir, tentar a vontade, mas não poderá jamais atingi-la diretamente.

10 – Os anjos são capazes de livre-arbítrio. São capazes de amar e odiar.

O livre-arbítrio é a própria essência da perfeição moral e sempre foi admitido que os anjos são moralmente bons.

É preciso, naquilo que lhe concerne, tomar o amor e o ódio não no sentido de uma paixão, de um sentimento, mas como traduzindo, seja a afinidade, seja a oposição da vontade que, aliás, desconhece todo o apego sensual.

11 – Os anjos conhecem as coisas materiais e individuais.

12 – Os anjos não conhecem o futuro, nem os pensamentos secretos das outras criaturas racionais, nem os mistérios da graça, a menos que tais coisas lhe sejam livremente reveladas por Deus ou por essas outras criaturas racionais.

Essas duas teses são evidentes por seus próprios enunciados.

O conhecimento dos anjos não abarca unicamente as coisas abstratas, mas também as concretas. Os atos livres e futuros das criaturas racionais não são objeto de conhecimento para a natureza criada. Somente Deus os contempla com a infalível segurança de sua visão, na luz de sua eternidade. Pelas mesmas razões que tornam impossível a um espírito agir diretamente sobre a vontade de uma criatura racional, os desejos secretos do coração do homem ou o pensamento de um espírito são ocultos aos outros espíritos, a menos que, livremente, aquele que tem esse desejo ou esse pensamento os revele.

Em cada pensamento há um ato da vontade, pois penso quando quero e o que quero. Ora, o mistério que circunda a vontade envolve também meus pensamentos íntimos.

Os mistérios da graça são decisões, não de uma vontade criada, mas de Deus.

Será, pois, a fortiori, ainda mais impossível a um espírito criado descobrir o que Deus pensa, a menos que o próprio Deus se digne revela-lo

***

Nota: esta tradução não foi feita pelo projeto. É apenas a transcrição de outra tradução com a finalidade de fazer conhecer melhor o trabalho de Anscar Vonier enquanto seus livros são traduzidos. Daremos preferência aos que não estão e português, mas iremos traduzir todos os seus livros.

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