Se Cristo venceu, por que todas as aparências, bem como as experiências humanas, são contra o seu triunfo total?

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Até agora não tínhamos consideradoChristTheKing nenhuma dificuldade prática que pudesse impedir crermos, do intimo da alma, na doutrina da suprema vitória de Cristo. Chegou, porém, o momento de expormos uma objeção que poderia parecer terrível a muitos espíritos, e ao mesmo tempo procuramos resolvê-la.

Esta objeção é simples, mas de grande alcance. Resume-se na seguinte proposição: Todas as aparências assim como as experiências humanas são contra o triunfo total de Cristo.

Há realmente aqui não somente certa espécie de improbabilidade que existe em cada mistério da fé, mas uma contradição aparentemente direta entre a soberania espiritual de Cristo, proposta à nossa fé, e as realidades que se deparam, em toda parte, à nossa vista.

De fato, como se pode crer na vitória de Cristo, quando se vêem tantos pecados, tantas apostasias, tanta incredulidade no mundo, a não ser que se esteja obcecado elo mais ingênuo dos otimismos?! Enganar-nos-íamos afirmando aquilo que as outras religiões podiam apresentar como próprio delas?

Os cristãos – insinua o nosso detrator – devem mostrar maior heroísmo do que têm mostrado ou mostram antes que o mundo proclame a Cristo como grande triunfador espiritual. Seria mais consentâneo se eles reconhecessem francamente o caráter trágico da sua religião, o espantoso abismo entre o ideal e o real, e se contentassem em prestar ao seu Deus um culto de compaixão por ter discípulos lamentavelmente tão inferiores ao que espera deles. Alguns zombeteiros, menos cruéis, diriam mesmo que a religião de Jesus possui certo encanto que lhe é próprio: tem um Deus magnífico que sofre da pobreza de ideal dos seus discípulos.

***

Devemos lembrar aqui ao leitor o escopo do presente livro: tem ele por fim exclusivo reconfortar os crentes. Aqueles que não têm fé, que não acreditam que o Filho de Deus morreu na Cruz, como vítima de expiação, não podem achar nenhum interesse nas considerações que fazemos nesta obra. Aqueles, porém, que aceitam este artigo da fé são capazes de compreender a suprema vitória de Cristo sobre o mal. Poderíamos dizer que é recompensa dessa fé sublime admitir o crente nos segredos de Deus. Quanto, porém, às pessoas que não querem ou não podem crer são, evidentemente, impelidas a julgar somente de modo humano os acontecimentos humanos.

Ora, a característica da expiação, operada pelo sangue de um Deus, consiste na reparação do próprio mal que escandaliza a muitas almas, isto é a falta de correspondência do homem ao amor infinito de Deus que o redimiu. Foi este o pecado, assim como todos os outros, expiado pelo Filho de Deus.

Outro exemplo que podemos aduzir da riqueza do poder expiatório de Cristo, o qual supera todos os pecados imagináveis, é o seguinte: o deicídio dos judeus é o maior crime cometido pelo homem desde o primeiro pecado. Poderia alguém, pouco criterioso, pensar que Deus teria feito melhor se não tivesse vindo ao mundo, porque assim não teria dado ocasião ao homem de cometer crime tão hediondo.

Tal argumento teria valor se não fosse evidente que essa morte de Deus, da qual os homens se tornaram culpados, é fonte de expiação para os próprios deicidas. É somente pressupondo uma expiação infinitamente abundante que é possível crermos que a iniquidade foi apagada, quando essa iniquidade consiste na morte ignominiosa aplicada a um Deus-Redentor.

Tendo o Cristianismo, como é evidente, em sua própria origem o sangue de Deus como potência de redenção e de vitória, está obrigado a adotar princípios superiores às considerações meramente humanas e admitir valores que não têm precedentes na filosofia natural. O mal já não pode ser no mundo o que teria sido se não houvesse, à base da ordem moral, um contrapeso tão grande como é a expiação pelo Sangue de Cristo. Talvez tenhamos dificuldade em compreender que essa santa expiação diminua o mal moral; mas assim é, e faz parte da própria essência da fé cristã na redenção. É, sem dúvida, um dos problemas mais interessantes e ao mesmo tempo mais difíceis propostos ao espírito humano conciliar a culpabilidade do pecado com a certeza da destruição do mesmo pelo Sangue de Cristo.

Ensina a doutrina cristã que o pecado foi expiado pelo filho de Deus muito antes de ser cometido pela vontade livre do homem, porquanto Cristo morreu para apagar tanto os pecados passados como os futuros. Entretanto, qualquer que seja a solução dada a esse problema, uma coisa é certa: o ato de expiação de Jesus é infinitamente mais importante e de maior peso na balança dos valores morais que o conjunto de todos os pecados possíveis de todos os homens. É a consequência imediata da Encarnação, do mistério do Deus-Homem como facilmente se compreende. Quem crê nesse mistério é levado a crer na superioridade ilimitada da justiça sobre o pecado, da expiação sobre as ofensas; em suma, tem o direito de possuir a fé na vitória do Filho de Deus, a despeito das aparências terrestres. Aquele, porém, que não crê no mistério da Encarnação não pode pretender tal privilégio intelectual. Não pode empregar outros princípios senão os da ética natural ou filosófica.

Podemos ter como regra que todas as faltas dos homens e as apostasias dos nossos tempos não são necessariamente, em si mesmas, sinais de que a vitória de Cristo seja incompleta. Nenhuma dessas nefandas realidade excede o poder redentor e conquistador do Filho de Deus: ele satisfez por todas elas.

Não temos nenhum meio de conhecer a percentagem das pessoas que tiram proveito desta vitória divina e que serão definitivamente e eternamente salvas. A ninguém Deus confiou esse terrível segredo. Mas, qualquer que seja, finalmente, a proporção dos que se salvam e dos que se condenam, devemos sempre ter em mente que o número dos réprobos não pode de modo nenhum ser encarado como prova de que a vitória de Cristo foi menos completa do que poderia ter sido. São tais cálculos e tais apreciações vistas puramente humanas sobre a obra de Deus. A única atitude razoável que devemos ter a esse respeito é a de pensar que a última vitória de Cristo não podia ser maior.

De que modo misterioso o reino dos Céus será compensado pela perda dos réprobos, não o sabemos. No entanto, devemos aceitar como axioma teológico, indiscutível, que existe inteira compensação; assim o Filho de Deus podia verdadeiramente dizer: E a vontade do Pai que me enviou, é que eu não perca nenhum daqueles que me deu; mas que o ressuscite no último o dia (S. João VI, 39).

O guiar-se na vida prática pela fé, como a expomos neste livro, não é seguir o iluminismo, nem tão pouco um otimismo absurdo; é, pelo contrário, o exercício dos mais sublimes dons do Espírito Santo, dos dons da ciência e da inteligência, que permitem ao cristão discernir o que é sentimento do que é razão, e ver a diferença entre as aparências e as realidades, entre os valores eternos e as emoções passageiras. Aliás, veremos como permanecem intactas as obrigações morais ao lado duma crença tão intransigente na vitória de Cristo, e como se pode ter grande horror ao pecado, exultando-se com o pensamento que todos os pecados foram remidos pelo Filho de Deus feito homem.

É, no entanto, bom ouvir a um dos maiores teólogos católicos tratar de assunto tão contrário à experiência humana. Essas sublimes inteligências estão ao abrigo das influências perturbadoras do puro sentimento. S. Tomás de Aquino, ilustre entre todos pelo seu inflexível apego aos juízos da razão e, por conseguinte, ao valor das realidades cristãs, escreve na Suma Teológica: “Cristo pela sua paixão é a causa da nossa libertação dos pecados, neste sentido que ele instituiu um meio pelo qual podem ser remidos todos os pecados, passados, presentes e futuros, como o médico que preparasse um remédio para curar todas as moléstias, mesmo as doenças futuras” (Pars – III, q. 49, art. I, ad 3). “Foi maior a caridade de Cristo padecente – ainda o doutor angélico – do que a malícia daqueles que o crucificaram. É maior o seu poder expiatório, pela Paixão, que o poder de pecar dos que o crucificaram e lhe deram a morte. Porquanto a Paixão de Cristo não é só suficiente, mas superabundante para expiar os pecados daqueles que o
pregaram na cruz. (Pars III, q. 18, ar. 2 ad 2).

É certo que Deus poderia ter dado à obra da Encarnação outro fim, isto é, perseverar os homens de todo pecado, como o fizera a Maria Santíssima. Mas não foi este o plano de Deus. A Encarnação deve por desígnio remir todos os homens dos pecados cometidos por eles. Cristo cumpriu essa obra, e a cumpriu integralmente. Se há quem não tire proveito dela, nem por isso deixa a Encarnação de conservar todo o seu valor, pois nenhum ente humano, dotado de liberdade, permanece definitivamente fora da graça da redenção, a não ser por própria culpa.

A teologia católica contém uma magnífica doutrina que demonstra, de maneira clássica, a plena significação da vitória de Cristo sobre o pecado.

O adulto que é batizado fica de tal maneira livre de todo pecado que, por assim dizer, não há nenhum intervalo entre ele e o céu; pois se viesse a morrer imediatamente após o batismo, a sua alma iria no mesmo instante para o céu gozar da visão de Deus, qualquer que tivesse sido o seu modo de vida. O sacramento do batismo confere-lhe completo proveito da vitória de Cristo: não tem mais necessidade de outra purificação. “Não aceitar esta doutrina, diz S. Tomás, seria insultar a eficácia da morte de Cristo” (Pars III, q. 68, art. 5).

O que temos dito neste capítulo a respeito do pecado aplica-se, naturalmente, ao domínio de Satanás. A vitória de Cristo é tão completa hoje como o será sempre. O poder do príncipe das trevas foi esmagado; e se ele é ainda ativo, os seus esforços assemelham-se aos esforços dum general vencido, que bate em retirada. Ainda não está preso. Será no fim dos tempos. O Apocalipse de S. João no-lo mostra em grande cólera, fazendo guerra aos santos, posto que vencido. Entretanto, devemos estar inteiramente convencidos de que os maus espíritos não têm o menor poder sobre aqueles que pertencem a Cristo e estão em estado de graça. Encontram-se numerosas e tocantes passagens nos escritos dos santos Padres a respeito da raiva impotente do demônio: “Satanás, diz Sto. Agostinho, pode ladras, mas não pode morder”.

A vitória de Cristo sobre a morte não apresenta nenhuma dificuldade prática: a ressurreição da carne é um fato dogmático. Lembremo-nos de que, graças a ressurreição de Cristo, a raça humana toda voltará de novo à vida, sem entrar em conta a sorte última dos eleitos ou dos condenados.

Mais uma vez podemos chamar a atenção dos leitores sobre esta grande verdade que todos os males vencidos por Cristo são apenas males finitos, limitados; ao passo de que a vitória é verdadeiramente uma realidade infinita.

Tal modo de pensar talvez cause mossa a certos espíritos que não chegam a ver que, por exemplo, a redenção do mundo, realizada pelo sangue de Deus, é infinitamente de maior valor para nós que a salvação de todos os homens. É preciso, pois, que se compreenda que as estatísticas dos resultados humanos são enganosas quando aplicadas às obras do próprio Deus.

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