O mistério da glorificação de Cristo

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pantocratorA vitória de Cristo é parte integrante do mistério da sua glorificação supõe obstáculos que teve a vencer e inimigos a destruir. É necessário, pois, começarmos a estabelecer os princípios fundamentais que permitem crer razoavelmente nessa glorificação.

O mistério é um fato ou uma verdade que supera a capacidade da razão humana. Como os outros mistérios que se relacionam com a Encarnação, a glorificação de Jesus é um fato tão incompreensível em si mesmo quanto em suas circunstâncias ao mesmo tempo. Uma pessoa que viveu neste mundo há dezenove séculos – que, aliás, não é um período demasiado longo – em tudo semelhante a nós, está agora num estado de glória que é descrito nestes termos: Está assentado à direita de Deus. É uma exaltação infinita, sem limites, que confunde a razão humana, um quadro de glória que desafia toda previsão, comparação ou paralelo. Porque Cristo, enquanto homem, saiu da humanidade decaída; e se o seu nome hoje é elevado acima de todo nome, nem por isso ele abandonou a humanidade. Não procurou desembaraçar-se dela. Não a largou para longe de si como vestimenta indigna. Pelo contrário, conservou com amor todos os liames que o prendem a ela. Foi, portanto, dentro mesmo da humanidade que Jesus foi glorificado, assim como foi dentre as coisas terrenas que escolheu os elementos (pão e vinho) para estabelecer a sua presença na Eucaristia.

Devemos aceitar esse fato. Não é um absurdo. Não implica contradição. Por mais humilde que seja a condição da humanidade, é possível que Cristo, o seu chefe, seja glorificado infinitamente. São também profundos os mistérios da coexistência de Deus e o mal, da soberania absoluta de Deus e o livre arbítrio do homem. Há na religião cristã séries assim de realidades diametralmente opostas; entretanto, não se pode negar o que é santo pelo simples fato de estar em conjunto com aquilo que não é.

A glorificação de Cristo é uma verdade que se impõe, e deve ser para nós objeto de contemplação e regozijo. O mundo compraz-se em negá-la; entretanto, não pode destruí-la nem diminuí-la: o cristão está absolutamente certo de que Cristo reina na glória do Pai.

Essa glória é, essencialmente, um estado de bem aventurança sem limites. Cristo Goza toda a felicidade que lhe é devida em virtude da união hipostática de sua natureza humana com a natureza divina. Durante a sua vida mortal, estava essa felicidade restrita em parte, num grau que ignoramos. No céu, porém, o gozo inunda-lhe a alma sem reserva. A menor pena, a mais leve tristeza, seria a destruição da sua glória de Filho sentado à direita do Pai.

Podem os cristãos, neste mundo, imaginar que Jesus ainda sofra. Conservam a lembrança de todas as arguras da sua paixão e morte. Os sofrimentos de Cristo, pode-se dizer, estão gravados no seu espírito, tão presente os têm na memória. Além disto, Cristo é desconhecido, blasfemado, perseguido. O seu amor não é correspondido; os homens, em vez de amá-lo, são profundamente ingratos a ele. O cristão piedoso sofre com esta indiferença e ingratidão. Ele se identifica misticamente com Jesus e atribui a Ele as suas próprias penas. Entretanto, pecaria gravemente contra a fé se esquecesse que Cristo, na sua própria pessoa, está infinitamente acima de todo e qualquer sofrimento. Cristo é o rei da glória. Ele governa o mundo com irresistível poder, com virga férrea, como atestam as Sagradas Letras.

Está, pois, o temperamento, o caráter próprio do cristão, inteiramente formado pelo mistério da glorificação de Cristo conforme o seguinte artigo do Credo: Está assentado à direita de Deus Pai todo poderoso donde há de vir a julgar os vivos e os mortos. O cristão não deve, pois, ter uma mentalidade diferente da dos Apóstolos que foram escolhidos pelo Filho de Deus para serem os fundamentos e pregadores do seu Reino. Depois do Pentecostes, eles espalharam-se em todas as direções com os olhos fitos em Jesus coberto de opróbios, abismado em dor; mas também em Jesus ressuscitado e glorioso: “Aos presbíteros dentre vós rogo eu, companheiro de idade e testemunha da paixão de Cristo, como também sócio da glória que um dia se há de revelar” (S. Pedro, I, 1).

Os Apóstolos receberam a missão de tornar conhecido ao mundo Aquele que, aos seus olhos, enchia o céu e a terra com o esplendor da sua personalidade. Ficaram, portanto, profundamente penalizados em não poder levar todos os homens a contemplarem a glória do Mestre. Sofreram, da mesma forma, com o receio de que a crueza das perseguições viesse a obscurecer no espírito dos novos convertidos a realidade da majestade de Cristo.

Em todos os tempos, tem sido uma das principais tarefas entre os obreiros apostólicos a conservação de uma fé viva: dar aos cristãos plena e integral confiança no Credo, mostrando-lhes a grandeza e o esplendor do mundo invisível: “Vós, porém, filhinhos meus, sois de Deus – escreve S. João – e vencestes aquele tal (o Anticristo); mais poderoso é o que está em vós do que o que está no mundo” ( II Ef, IV, 4). Aquele que crê na glorificação de cristo está apto para resistir a todas as potências, a todo o esplendor e a toda a glória que ousam levantar-se neste mundo contra Deus.

A respeito desta mentalidade cristã, há um trecho mui eloquente num dos sermões de S. Leão sobre a Ascensão do Senhor: “Desapareceu, diz o Santo, tudo o que era visível em nosso Redentor no mistério invisível do além. É preciso agora crer naquilo que já não se vê, esclarecido pelos raios que vêm do alto. A fé torna-se, assim, mais nobre e mais firme. Fortificada pela ascensão de Nosso Senhor e pelo dom do Espírito Santo, tem esta fé resistido às cadeias, às prisões, ao exílio, à fome, à espada, aos dentes das feras, a todos os suplícios inventados pela crueldade dos perseguidores. Não somente homens, mas mulheres, jovens e donzelas, têm afrontado todos os perigos, selando com o próprio sangue essa fé que tem afugentado demônios, curado enfermos e ressuscitado mortos. Os próprios apóstolos, não obstante tantas lições e milagres, ficaram transtornados com os horrores da paixão de Jesus e tiveram dificuldade em crer na sua ressurreição. A ascensão do Senhor, porém, lhes foi tão proveitosa que tudo aquilho que lhes havia causado temor tornou-se para eles fonte de alegria. Elevaram então a vista até a divindade d’Aquele que está assentado à direita do Pai e, já livres dos obstáculos das coisas sensíveis, contemplaram a Pessoa divina que desceu do céu não se separando do Pai e voltou ao céu sem se haver afastado d’Ele. Os Apóstolos, tendo visto Jesus elevar-se, por si mesmo, até a glória da majestade do Pai, estando agora de maneira inefável mais perto deles na sua divindade e mais distante na sua humanidade, tiveram, então, um conhecimento mais sublime e mais santo de Jesus”.

A glória de Cristo é imutável. É agora o que será por toda a eternidade. É ativa agora e sempre. Mas nem todos a vêm: para os espíritos celestes, está em pleno brilho. Eles vêm Cristo exercer a cada instante o seu poder de uma a outra extremidade do mundo. Para o crente, ainda neste vale de lágrimas, Cristo está no esplendor de Deus, mas não o pode atingir com os olhos do corpo, nem com os do espírito. O incrédulo nega essa glorificação, e é porque a nega que é incrédulo. Essa glória de Cristo não será aumentada no fim do mundo, mas será manifesta a todas as criaturas. Quando a Sagrada Escritura fala do grande dia do Juízo, ela o chama invariavelmente: manifestação da glória de Cristo, maravilha que existia em todo o tempo, mas que só então será desvendada a todos: essa é a única diferença. E o que é verdade da glorificação de Cristo, é igualmente verdade da sua vitória que, como temos dito, faz parte integrante da exaltação do Filho de Deus.

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Retirado de uma tradução antiga em português da “Vitória de Cristo”. Já estamos providenciando uma nova tradução para publicação.

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