Os Sacramentos

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Traduzido por Jonadabe Rios

SacramentsExiste uma excelente definição da natureza dos sacramentos na Questão LXI da terceira parte da Suma de São Tomás, artigo IV. “Os sacramentos são certos sinais que protestam essa fé pela qual o homem é justificado”. Sunt autem sacramenta quaedam signa protestantia fidem, qua justificatur homo.

Esta definição nos facilita e faz parecer natural a transição do papel da fé ao dos sacramentos. A virtude destes não poderia jamais se separar da virtude da fé; ambos agentes sobrenaturais avançam de mãos dadas. Um sacramento é sempre um sinal exterior que atesta verdadeiramente essa qualidade escondida da alma: a fé, que justifica o homem ao colocá-lo em contato com Cristo.

Duas são as perguntas fundamentais que podemos fazer-nos: primeiro, porque deve existir esse testemunho externo ou profissão de fé? Em seguida, até que ponto concedemos a esses sinais o valor literal em seu significado e eficácia?

A maneira de resolver esta última pergunta constitui, precisamente, toda a diferença entre catolicismo e protestantismo, ou entre o judaísmo e o cristianismo. Em um ou outro de seus aspectos, isso constituirá o tema central deste trabalho; mas, por enquanto, detenhamo-nos em outra face do assunto: a unidade radical da teoria católica sobre os meios de santificação. A fé e os sacramentos estão unidos de forma indissolúvel, mesmo que possa se considerar a primeira como a realidade mais ampla, mais antiga e universal. O sistema sacramental está enxertado na fé; constitui, essencialmente, sua parte executiva; é, por assim dizer, a recompensa da fé. Como mérito pela sua fé, a Igreja obtém esses outros meios de aproximação a Cristo que fazem dEle, não só objeto de apreensão intelectual, mas até mesmo de posse física; a realidade sacramental se concede a quem tem fé; tal é a consequência lógica do ensino de Cristo no capítulo VI do Evangelho de São João. Ao que cumpre a vontade de Deus, crendo nAquele a quem o Pai enviou, a esse Cristo lhe dará sua carne para comer e seu sangue para beber. Poderíamos aplicar aqui o princípio geral repetido várias vezes por Cristo que representa os bens espirituais: “A quem tem, lhe será dado, e terá em abundância; mas quem não tiver, ainda o que não tenha lhe será tirado” (Mateus, XXV, 29). Como mérito por sua fé, a Igreja recebe riquezas ainda maiores nos sacramentos. Em nenhum momento a fé fica dissociada dos sacramentos; o que a primeira vista poderia parecer uma exceção à norma é precisamente uma de suas mais profundas aplicações; me refiro ao Batismo das crianças. São Tomás, seguindo Santo Agostinho, recorre à fé da Igreja para manter incólume a união entre a fé e os sacramentos da fé.

“Na Igreja do Salvador as crianças creem por intermédio de outros, da mesma forma que por intermédio de outros contraíram as culpas que são perdoadas pelo Batismo”; tais são as frases de Santo Agostinho que São Tomás cita na Questão LXVIII, art. IX ad 2m.; o Doutor Medieval completa a doutrina do antigo Pai com as seguintes palavras, cheias de significado: “Mas a fé de um somente, e ainda a de toda Igreja, aproveita à criança pela operação do Espírito Santo, que unifica a Igreja, comunicando a uns os bens de outro”. Fides autem unius, immo totius Ecclesiae, parvulo prodest per operationem Spiritus Sancti, qui unit Ecclesiam, et bona unius alteri communicat. Seria difícil fazer reprovação mais gratuita à Igreja Católica do que acusá-la de diminuir o poder da fé por uma insistência desmedida acerca da importância da vida sacramental.

Na verdade é o puritano, não o protestante, o inimigo do sistema sacramental, considerado em toda a amplitude desta definição tomista que iniciamos o presente capítulo, já que, para o puritano, a fé não necessita de nenhum auxilio ou complemento. As razões aludidas pelos teólogos católicos para justificar a existência destes sinais externos da fé interior dentro do culto cristão são principalmente de ordem psicológica; considerando a natureza humana em sua atual condição, sustentam que os sacramentos são indispensáveis para alcançar a perfeição da vida de fé.

São Tomás dá uma razão tripla para a instituição dos sacramentos: Sacramenta sunt necessária ad humanam salutem, triplici ratione. (III, QQ. LXI, art. I.). “Os sacramentos são necessários para a salvação humana por três motivos”, que, no fundo, é um único: a psicologia do homem caído; em primeiro lugar, a condição da natureza humana formada de espírito e matéria; em segundo lugar, a situação do homem, escravizado pelas coisas materiais, servo do que só pode ser superado pelo poder espiritual que se encerre no material; finalmente, a ação humana, tão propensa a extraviar-se em interesses exteriores, que encontra nos sacramentos uma atividade verdadeiramente física e encaminhada, ao mesmo tempo, à salvação.

Nada seria mais simples que desenvolver este assunto colocando em jogo toda a fascinação da psicologia humana; a vida sacramental da Igreja implica, certamente, uma perfeita compreensão de nossas necessidades. Os sacramentos são, por sua própria natureza, uma prolongação da Encarnação, uma variante do mistério que expressamos ao dizer: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós”. Não é, por acaso, o Filho de Deus feito homem o sacramento por excelência, o magnum sacramentum, o invisível convertido em visível? “Certamente é grande a todas as luzes o mistério da piedade que se manifestou na carne, foi justificado em espírito, visto pelos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, elevado à glória” (I Timóteo III, 16).

A definição dos sacramentos mencionada acima, como declaração e profissão da fé que está em nós, não é, por outro lado, a integra definição do sacramento cristão, mesmo que se possa aceitá-la como definição completa do sacramento considerado em seu aspecto mais amplo. São Tomás não vacila em dar a muitos dos ritos mais importantes do Antigo Testamento o nome de sacramentos, mesmo que sempre explique que a virtude desses antigos sacramentos se limitava à significação das verdades da fé primitiva, enquanto que o sacramento cristão possui um grau superior de significação, que está ligado à eficácia. Seria inexato e pouco generoso negar aos antigos ritos instituídos por Deus a dignidade sacramental, pelo menos em grau inferior; todos eles eram sinais externos da fé na futura redenção. Sem causar diretamente a graça, fortaleciam imensamente essa fé.

São Tomás divide a existência da humanidade em quatro etapas: o estado de inocência anterior a queda, o estado de pecado antes da vinda de Cristo, o estado de pecado posterior à vinda do Redentor e o estado beatífico no céu. Na primeira e na última dessas etapas não há necessidade de qualquer sacramento; o homem necessita deles nas duas etapas intermediárias. Mas os sacramentos alcançam sua perfeição no estado de pecado posterior à vinda de Cristo; os sete sacramentos do culto cristão são, no mais alto sentido do termo, pois, além de significar a graça – depósito da fé -, a contém e a produzem: Nostra autem sacramenta gratiam continent et causant (III, Q. LXI, art. IV ad 2m).

Poderiam colocar dificuldades à teoria de que Deus concedeu ao homem algum tipo de sacramento antes de Cristo, e outro diferente depois de Cristo: isso não implicaria uma mudança na vontade divina? A resposta de São Tomás parece, de fato, engenhosa, mas sintetiza perfeitamente essa visão ampla do sistema sacramental que faz dos sacramentos uma realidade tão antiga quanto o mundo: “Respondamos à terceira objeção, que não pode considerar-se arbitrário ao pai de família por dar diversas ordens aos seus, segundo as diferentes épocas, em vez de ordenar que se faça o mesmo trabalho no inverno e no verão; da mesma forma, não existe mudança em Deus pelo fato de que tenha instituído alguns sacramentos durante a Antiga Lei e outros depois da vinda de Cristo; os primeiros foram figuras da graça, enquanto que os últimos estão destinados a manifestar presencialmente a graça”. (III, Q. LXI, art. IV ad 3m).

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