O aspecto sacramental do sacrifício da Missa em sua parte negativa

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Missa_tridentina_002Nos assuntos teológicos, a faísca que ilumina nasce sempre sob o casco do raciocínio mais estrito. Conceber o sacrifício da missa como um sacramento é perceber uma imensa verdade que, se apreendida pela inteligência, mesmo no final de um processo lógico difícil, estabelece toda diferencia entre a luz e as fantasmagorias. O grande sacrifício cristão é essencialmente um mistério sacramental; já demonstramos isso amplamente. Vejamos, então, como esta conclusão afeta o mecanismo de nossa fé. Não proponho, entretanto, explicar de que forma um sacramento pode ser ao mesmo tempo um sacrifício; faremos isso mais adiante; por enquanto me interessa a atitude da mente que sabe que o sacrifício da Missa é uma realidade sacramental.

Desejo falar da liberdade interior do povo católico, o qual pode ser chamado, na frase de São Pedro, de “real sacerdócio”, em suas relações com um dos mais tremendos mistérios propostos à fidelidade do homem.

Aceitando que o sacrifício divino da Missa seja também um sacramento, somos convidados a contemplar o que acontece sobre o altar de tal forma que cria uma nova mentalidade, diferente das anteriores. Nos propõem duas realidades: primeiro que, sobre o altar, em dado momento determinável com facilidade, se oferece um perfeito sacrifício composto por elementos absolutamente divinos, que não sou outra coisa que o Corpo e o Sangue de Cristo. Mas, ao mesmo tempo, nos é indicado que não temos de dar a este sacrifício um significado natural, considerando-o um sacrifício no mesmo sentido em que os homens ofereciam, aqui na terra, holocaustos à divindade, uma vez que não existe aqui o elemento de “destruição”, comum denominador de todos os sacrifícios naturais. Em outras palavras, o principio de que, na Missa, oferecemos como sacrifício um sacramento, implica imediatamente duas coisas: que há um verdadeiro sacrifício e que ele é de natureza tal que os homens nunca conheceram outro igual.

Para salvaguardar a sacramentalidade do sacrifício da Missa, é da maior importância eliminar tudo o que o converteria em um sacrifício puramente natural, numa ação humana, rodeada de sensações e circunstâncias humanas. Deve ser uma realidade que não intervenham as leis comuns da natureza, pois, de outra forma, deixaria de ser um sacramento para converter-se em um sucesso natural.

Para permanecer dentro da ortodoxia é tão indispensável manter em nossa mente o caráter sacramental do sacrifício da Missa, como a realidade da vitima divina que nele está contida. Isto é o que chamo de “aspecto negativo” dentro do conceito sacramental da Missa.

Concedemos, sem disputa, que o sacrifício é a expressão suprema de culto à divindade; aceitamos também como verdade certa que o Filho de Deus, ao morrer na Cruz, constituiu um verdadeiro sacrifício oferecido ao Criador. Este sacrifício divino, juntamente com todos os holocaustos rituais que o precederam e prefiguraram durante o Antigo Testamento, deve receber o nome de “sacrifício natural”, uma vez que todos eles apresentam aspectos que podem ser percebidos por nossos meios naturais de conhecimento. A morte, elemento natural do sacrifício, é coisa facilmente comprovável; todos puderam ver a morte de Cristo na cruz: “Contemplaram Aquele a quem transpassaram” é a frase que São João encerra o relato da Paixão. Todo sacrifício natural é, em essência, uma coisa perceptível e sujeita à experiência humana. Assim, o sacrifício eucarístico é precisamente o contrário, pois não há experiência humana que nos revele a natureza deste sacrifício, que escapa a toda forma de experiência humana conhecida. O sacrifício que é sa
cramento pertence a ordem de realidades que só podemos conhecer pela fé. Costuma-se denominar sacrifício místico ou incruento, mas não há vocábulo que substitua o único que pode expressá-lo completamente: “sacrifício sacramental”. Com este termo, dizemos que se trata de um sacramento que é, ao mesmo tempo, sacrifício, ou melhor, que o sacrifício é um sacramento. A expressão “sacrifício sacramental” é, sem dúvida, a mais exata, embora, por razões idiomáticas, eu preferiria esta pequena equação verbal: sacramento-sacrifício.

Portanto, quando meditarmos sobre o sacrifício do altar, não devemos evocar a cena do Calvário, com suas dores angustiosas e seus rasgos físicos, nem sequer devemos pensar em uma morte hipotética; tudo o que constitui o sacrifício natural deverá estar longe de nosso pensamento. Rogo a meu leitor que não me interprete errado. Ao assistir a Missa, pode muito bem meditar sobre as terríveis e dolorosas circunstâncias da Paixão e Morte históricas de Cristo; seria difícil encontrar tema mais adequado de meditação para esses instantes; o que quero dizer é que nenhum desses detalhes naturais que acompanharam o holocausto de Cristo na Cruz se encontrará no sacramento-sacrifício que se realiza sobre o altar.

Quando somos exortados a relembrar que assistimos, na Missa, um sacrifício incruento, isso implica mais que a simples ausência de circunstâncias sangrentas. A expressão quer dizer que existe uma diferença profunda entre ambos os sacrifícios, uma vez que um se realiza in natura, o outro in sacramento; é impossível conceber maior diferença. O sacrifício in sacramento não consiste meramente em uma forma atenuada e turva do natural, é algo totalmente diferente, não existe entre ambos outra coisa em comum além da divina Vítima que se imola neles. Essa é a grande liberdade de espírito que, por meio da fé na realidade do sacrifício eucarístico, está reservada a nós católicos: sabemos que, em virtude desta fé, nos movemos em um mundo que transcende toda experiência humana; somos místicos autênticos, pois possuímos uma realidade infinita sem auxílio de elementos humano: eis, aqui, o mysterium fidei, o mistério da fé. Tratamos de rodear a celebração eucarístico com a imitação mais fiel do sacrifício verdadeiro de Cris
to na Cruz; repetimos uma e outra vez o sinal da Cruz sobre as espécies; a Missa é um drama sacro, um “mistério” teatral de primeira ordem; nos contentamos em recordar cada um dos acontecimentos que se desenvolveram, desde o Horto das Oliveiras até o sepulcro em que foi depositado o cadáver de Cristo; mas nos consta, também, que o sacramento que se celebra rodeado e encoberto por estes ritos, considerado em si, carece de tais acidentes humanos; é algo simples, sem sucessão de acontecimentos e difere muito do mundo em que habitamos.

Nunca foi difícil para o católico compreender quão adequadas foram as palavras com que Cristo encerrou o anuncio do mistério de sua Carne e seu Sangue dadas como alimento e bebida do homem: “As palavras que os disse são espírito e vida” (Jo VI, 64). Nesta frase se encerra a realidade que nos é tão cara: a profunda diferença entre a ordem da natureza e do sacramento.

É um assunto querido aos doutores cristãos exaltar o caráter espiritual ou, melhor dizendo, imaterial, do sacramento da Eucaristia; flui, através de toda literatura sagrada, esta dupla corrente: a fé na realidade da Coisa divina que se contém neste sacramento, e o gozo em seu caráter absolutamente extraterreno. O mundo sacramental é um universo desconhecido habitado por Alguém a quem conhecemos bem.

Poderíamos por acaso colocar em dúvida por um único instante a fé de São Tomás na presença real? Apesar de São Tomás ser um dos doutores mais espirituais ao tratar da Eucaristia, ele está muito longe de ser, neste ponto, um ultrarrealista. Está próximo de Santo Agostinho mais que qualquer outro teólogo moderno. Tem passagens, como a que citamos em seguida extraída da Suma, de forte sabor agostiniano, mesmo que não abandone por um instante o terreno firme da realidade sacramental: “Neste sacramento (da Eucaristia) está contido o próprio Cristo, não em sua espécie própria, mas em estado sacramental”. In hoc sacramento continetur ipse Christus, non quidem in specie própria, sed in specie sacramenti.

“Por isso é possível receber espiritualmente a Cristo de duas formas: primeiro, tal como é em sua condição natural, e assim se alimentam espiritualmente os anjos do mesmo Cristo, por estarem unidos a Ele no gozo da perfeita caridade e clara visão beatífica; este é o pão que esperamos encontrar no céu, a união total e não a que se realiza mediante a fé, única que pode existir sobre a terra.

A segunda forma de receber espiritualmente a Cristo é tal como Ele se encontra sob as aparências sacramentais; quando o homem que crê se aproxima com desejo sincero de receber o sacramento, não somente se alimenta espiritualmente de Cristo, mas recebe o próprio sacramento, coisa impossível para os anjos; portanto, mesmo que seja próprio dos anjos receber Cristo espiritualmente, não convém a sua natureza comer espiritualmente o sacramento” (III, Q. LXXX, art. II).

Acrescentarei ainda, como comentário, que São Tomás não fala aqui da comunhão espiritual no sentido moderno do termo, mas da comunhão sacramental digna, que supõe fé e desejo sincero.

Extrairei da mesma passagem outra frase áurea: “Os sacramentos são fornecidos à fé, graças a qual distinguimos a verdade como por um espelho, de forma confusa e, portanto, falando com precisão, não convém aos anjos, mas aos homens, receber o sacramento espiritualmente”. Já exortei aos meus leitores a regozijarem-se na verdade de que os sacramentos são signos, e a não renunciar a glória do simbolismo sacramental pois o protestantismo viciou a doutrina tradicional da significação sacramental.

Seguindo esta mesma trajetória de idéias, lhes aconselho agora que defendam contra qualquer ataque o caráter espiritual de nossos sacramentos, mesmo que também o protestantismo tenha tratado de viciar o conteúdo do sacramento, substituindo-o por essa idéia de espiritualidade. Até mesmo a citação de São Tomás que acabamos de ler se refere diretamente ao pão eucarístico, seu espírito se adapta perfeitamente ao sacrifício eucarístico. Tratamos, de fato, de um sacrifício espiritual, já que nele não existe morte, mesmo que possua todos os requisitos indispensáveis ao sacrifício.

Conhecemos os fundamentos teológicos que o protestantismo argumentou para recusar a doutrina de que na Eucaristia, além de uma comunhão, haja um sacrifício. Se houvesse, respondiam, isso significaria que o sacrifício de Cristo na Cruz não foi completo. Mas adiante refutaremos essa afirmação, mas, por enquanto, perguntaremos: não forma, por acaso, parte da própria natureza do sacramento-sacrifício o não servir de suplemento, nem sequer de complemento ao sacrifício natural? Ambos pertencem a esferas completamente diferentes, o primeiro não poderia ser obstáculo ao segundo. Semelhantes erros podem surgir somente na mente de homens que não compreenderam o que é de fato o sacramento; se admitimos por um momento que o sacramento-sacrifício não contém nem um vestígio do que constitua o sacrifício natural, cadit quaestio, o problema desaparece.

Na mesma ordem de idéias, seria uma teologia muito débil, para não dizer coisa pior, transformar o sacrifício eucarístico em parte do sacrifício natural de Cristo; dizer, por exemplo, que a última Ceia deve ser considerada como o primeiro ato da Paixão e Morde de Cristo; ligação semelhante com o sacrifício natural contraria a própria essência do sacramento, o qual nunca poderia formar parte integrante de um processo natural. O sacrifício natural e o sacrifício eucarístico de Cristo estão ligados por relações verdadeiramente maravilhosas, que não têm paralelo em todo reino da verdade revelada; um representa o outro, mas sem completá-lo. A unidade do sacrifício redentor de Cristo é um dogma do catolicismo, mas somente se preservará se fazermos a grande distinção de São Tomás: no Calvário Cristo se ofereceu in própria specie; no altar ele se oferece in specie sacramenti. Assim, a unidade fica salva por meio da absoluta diversidade dos dois estados.

A liberdade da mente católica é suprema: não une o sentimento nem a imaginação; sabemos que Cristo é oferecido no altar, e nosso modo de conceber esta realidade, a maior das realidades terrenas, é mais etéreo que um raio de sol. Que o homem espiritual alcance espiritualmente a realidade espiritual.

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