São Tomás e o Concílio de Trento falam sobre a unidade do Sacrifício Cristão

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1024px-TridentinumEmbora seja proverbial na trajetória do pensamento religioso que nenhum erro triunfa a não ser a mercê da pequena verdade que contém, isto nunca foi mais evidente que quando os propagadores da Reforma começaram a pregar a inutilidade do sacrifício eucarístico. Seu êxito veio da mais permanente das verdades cristãs: a absoluta plenitude do sacrifício da Cruz.

Por isso foi indispensável, na contra-reforma católica, investigar profundamente a relação que existe entre o sacrifício da Cruz e a Eucaristia. Os resultados deste magno labor de investigação, e a nova expressão dada às verdades nela estudadas, se encontrarão nos primeiros capítulos da Seção XXII do Concílio de Trento. A característica mais interessante dessa douta e exata apresentação da doutrina católica sobre o sacrifício eucarístico consiste em reproduzir fielmente a doutrina de São Tomás, cuja orientação geral – mesmo em suas palavras textuais – se reconhecerá nas passagens clássicas em que o grande Concílio trata sobre este assunto.

Um artigo célebre da Suma é incluído, evidentemente, na decisão conciliar que acabo de mencionar; se trata do artigo 1º da Questão LXXXIII: “Sobre se Cristo é imolado neste sacramento”. Utrum in ho sacramento Christus immolatur.

Reproduzirei em primeiro lugar o texto de São Tomás, com os comentários indispensáveis, seguindo das palavras do Concílio. Unidas, estas duas autoridades tão separadas no tempo irão clarear a maneira em que a Eucaristia é um sacrifício, permanecendo o mesmo e único sacrifício da Cruz.

“Minha resposta é o que se chama a celebração do sacramento ‘imolação de Cristo’ por um duplo motivo: primeiro porque, segundo expressa Santo Agostinho em sua epístola a Simpliciano, ‘as imagens das coisas levam os nomes daquilo que figuram, de modo que, se contemplamos um quadro ou uma pintura dizemos: este é Cícero, aquele Salustio […] Logo, a celebração de um sacramento […] é certa imagem representativa da Paixão de Cristo, que constitui sua verdadeira imolação; portanto se chama a celebração de ‘imolação de Cristo’ […] Isto se justifica também por outro motivo, tendo em conta os efeitos da Paixão do Senhor, uma vez que, por meio deste sacramento, nos fazemos participantes dos frutos da Paixão de Cristo. Por tal motivo, em certa oratio secreta do Domingo se diz: ‘Quantas vezes se celebra a comemoração desta Vítima, outras tantas se realiza a obra de nossa redenção’. No que se refere ao primeiro modo, poderia afirmar-se que Cristo também foi imolado nas figuras do Antigo Testamento; segundo as palavras do Apocalipse (XIII); ‘Cujos nomes não estão escritos no Livro da Vida, do Cordeiro que foi imolado desde o princípio do mundo’. Mas quanto ao segundo modo, convém com toda propriedade a este sacramento que, em sua celebração, Cristo seja imolado”. Sed quantum ad secundum modum, proprium est huic sacramento quod in ejus celebratione Christus immoletur (III, Q. LXXXIII, art. I).

Cito o texto latino da última frase, pois seu sentido tem sido distorcido ou mal interpretado. Se torna evidente, depois de analisar cuidadosamente as palavras de São Tomás, que faz à representação e aplicação sinônimos ou equivalentes da imolação na Eucaristia. Entretanto, uma vez que esta última pode existir somente no sacramento da Nova Lei, enquanto que a representação pode falar-se também dos sacramentos da Antiga Lei, ainda que, como é natural, de forma muito mais vaga e imprecisa. O sacramento da Antiga Lei nunca poderia ter o que chamamos de “aplicação sacramental”; ela é propriedade exclusiva do sacramento da Nova Lei.

São Tomás repete aqui a doutrina enunciada no artigo anterior (III, Q. LXII, art. VI), ou seja, sendo a morte de Cristo causa eficiente de salvação, não pode ser aplicado a nós sem pressupor que Cristo viveu e morreu realmente; a mera esperança no Cristo que haveria de vir não poderia nunca ser causa efficiens aplicável à alma por contato verdadeiro. São Tomás não distingue entre representação e aplicação até o ponto de suscitar uma diferença no conceito da imolação eucarística; o que quer dar a entender é isto: que o tipo de imolação compatível com a aplicação não se encontrará jamais fora do sacramento da Nova Lei, enquanto que a imolação compatível com a representação pode encontrar-se, mesmo que de forma vaga, nos ritos dos hebreus. Portanto, no sacramento da Eucaristia, a representação e aplicação do sacrifício da Cruz constituem a única classe de imolação que pode ser admitido no sacrifício do altar cristão. A Cruz é a verdadeira imolação de Cristo. A Missa, sua imagem perfeita é, portanto, uma imolação.

São Tomás expressa esta verdade no mais suave dos latins: Celebratio autem hujus sacramenti… imago quaedam est representativa passionis Christi, quae est vera ejus immolatio; et ideo celebratio hujus sacramenti dicitur Christi immolatio (III, Q. LXXXIII, art. 1).

São Tomás bem conhecia as objeções que alguns séculos mais tarde trariam conseqüências tão grandes. Que estranho é que, em um período determinado, os homens suscitem objeções sem perder a fé, enquanto que em outro momento histórico essas mesmas dificuldades se transformam em um grito de guerra de uma revolução espiritual!

A primeira objeção diz o seguinte: “Pareceria que na celebração do sacramento Cristo não é imolado, já que, no capítulo décimo da Epístola aos Hebreus, diz o apóstolo: ‘Cristo, em uma única oblação, tornou perfeito para sempre os que são justificados’. Dita oblação foi sua Imolação. Portanto, Cristo não é imolado ao se celebrar o sacramento”. O protestantismo não disse nada mais definido do que isto contra o sacrifício eucarístico.

Escutemos agora a resposta. “Santo Ambrósio […] diz: ‘Uma é a vítima’ que Cristo ofereceu e nós oferecemos hoje, ‘e não são várias as vítimas, pois Cristo foi oferecido uma única vez’. Assim, este sacrifício é exemplar daquele. Porque, assim como o corpo que se oferece em todas as partes é um só Corpo, e não muitos corpos, assim também existe um único sacrifício”.

Aqui São Tomás argumenta a razão intrínseca e definitiva da unidade do sacrifício cristão. O Corpo que oferecemos é uno e sempre o mesmo, tanto sobre a Cruz como sobre o altar. O sacrifício do Calvário e o da Eucaristia guardam entre si a relação do exemplum; um é a cópia fiel do outro. O que este contém, aquele contém.

Expressa a segunda dificuldade: “A imolação de Cristo teve lugar sobre a Cruz, na qual se ofereceu a Deus como uma oferta, de bom odor de sacrifício, como se diz no quinto capítulo da Epistola aos Efésios; mas ao se celebrar este mistério, Cristo não é crucificado; portanto, não é imolado”. A resposta de São Tomás demonstra que não estava disposto a conceder o mínimo a quem propugnava uma espécie de crucifixão realista, ou coisa semelhante, efetuada no ser natural de Cristo durante o sacrifício eucarístico. “Afirmo que, assim como a celebração do sacramento é a imagem representativa da Paixão de Cristo, do mesmo modo o altar representa Cruz sobre a qual Cristo foi imolado em sua própria natureza […]”. Novamente a representação resolve a equação entre a Cruz e o altar.

A terceira objeção vai um passo além. Citando Santo Agostinho, sustenta que “na imolação de Cristo, sacerdote e vítima são a mesma pessoa; por outro lado, na representação do sacramento, o sacerdote difere da vítima; por isso a celebração do sacramento não pode ser uma imolação de Cristo”. Se responde: “No mesmo pensamento, o sacerdote é também imagem de Cristo, cujo lugar e poder pronuncia as palavras da Consagração […] daí que, de certo modo, o sacerdote e a vítima se identifiquem”. Esta resposta leva o caráter representativo da imolação eucarística ao último grau de realismo. Na Eucaristia possuímos ainda aquilo que fez a imolação de Cristo tão maravilhosa: o sacerdote e a vítima são uma mesma pessoa. Na Eucaristia o sacerdote e a vítima se identificam em semelhança sacramental, assim como no Calvário se identificavam naturalmente. Vemos aqui como difere em certo modo São Tomás da apresentação moderna que geralmente se dá ao mesmo assunto.

Para ele existem dois elementos representativos: o sacerdote cristão e o Corpo e Sangue sacramentados. O primeiro representa a Cristo; os elementos eucarísticos, o Corpo e Sangue de Cristo. O sistema moderno é diferente; afirma que Cristo em pessoa é quem oficia diante do altar, como o fez no Calvário. O ponto de vista de São Tomás se acomoda melhor à doutrina sacramental, uma vez que o sacerdócio cristão representa exatamente o sacerdócio de Cristo como o Corpo eucarístico representa o Corpo natural de Cristo.

O sacerdócio cristão é um sacramento tão autêntico como o sacrifício cristão. Ambos guardam entre si a mesma relação que existiu entre Cristo e seu holocausto sobre a Cruz. Sacramentalmente, o sacerdócio católico é uma única coisa com a vítima eucarística, do mesmo modo que, naturalmente, Cristo era uni com o holocausto que pendia da Cruz. Irmos aprofundar o assunto mais adiante.

Chegamos, finalmente, ao texto do Concílio de Trento. Nos encontramos diante de um estilo muito diferente da simples fraseologia e clareza de São Tomás e, entretanto, as idéias e boa parte das palavras do Doutor Angélico aparecem, sem disfarce, no documento clássico. Será necessário, contudo, dividir em duas orações constitutivas a cláusula latina do Renascimento, procedendo com certa liberdade, já que sua composição intricada dificultaria sua compreensão. Nosso modo de falar se parece muito mais com o de São Tomás que o destes teólogos do Renascimento.

“Nosso Deus e Senhor, nas vésperas de oferecer-se sobre a Cruz ao Pai Eterno pela morte, com intenção de procurar a redenção eterna, na Última Ceia, na noite em que foi traído, ofereceu a Deus Pai seu Corpo e Sangue sob as aparências do pão e do vinho. Fez isto para que seu sacerdócio não terminasse com a morte e deu, assim, para sua esposa amada, a Igreja, um sacrifício visível, adequado às exigências da natureza humana. Seu objeto era o seguinte: que o sacrifício sangrento que estava a ponto de realizar-se sobre o Calvário fosse representado, que permanecesse sua recordação até o fim do mundo, e que fosse aplicado a nós sua virtude salvadora para a remissão dos pecados cometidos diariamente por nós; ao fazer assim, se proclamava sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque para toda a eternidade.

Além disso, deu seu Corpo e Sangue como alimento aos Apóstolos sob esses mesmos signos, fazendo-los sacerdotes do Novo Testamento. Deu-lhes, do mesmo modo, o preceito de oferecer seu Corpo e Sangue em sacrifício e, em seu nome, a quem os sucederiam no sacerdócio. Este preceito foi manifestado nas seguintes palavras: ‘Fazei isto em memória de mim’. Assim sempre entendeu e ensinou a Igreja Católica. Depois de celebrar aquela antiga Páscoa que costumava sacrificar a multidão dos filhos de Israel em memória de sua fuga do Egito, Cristo instituiu a nova Páscoa, que era Ele mesmo, destinado a ser imolado pela Igreja sob signos visíveis, por meio de seus sacerdotes, em memória de sua própria passagem deste mundo ao Pai, passagem que nos redimiu pela efusão de seu sangue e nos liberou do poder das trevas, transladando-nos a seu reino […] Assim como neste sacrifício divino que se celebra na Missa se contém e imola o próprio Cristo em forma incruenta, Aquele que se ofereceu sobre a Cruz de forma cruenta, é doutrina deste Santo Sínodo que este sacrifício (o da Missa) é verdadeiramente propiciatório, pois o Senhor, aplacado pela oblação do sacrifício, concede graça e o dom da penitência, perdoa os crimes mais odiosos e todos os pecados; posto que é uma mesma e única vítima, e a que se oferece hoje pelo ministério dos sacerdotes é a mesma que então se imolou sobre a Cruz: a única diferença é no modo da oferta. Os frutos daquela, me refiro ao holocausto cruento, chegam até nós de forma mais abundante por meio desta (a incruenta); nada, portanto, mais fora do modo de pensar da Igreja, que afirmar que uma revogue a outra.

Por esta razão se oferece, não só pelos pecados dos fiéis vivos, seu reato, satisfação e outras necessidades, mas também por aqueles que morreram em Cristo e ainda não estão totalmente purificados, coisa que fazemos legitimamente seguindo a tradição apostólica”.

Temos, portanto, nesta passagem do Concílio, os vocábulos cujo sentido vemos alterados com freqüência neste tema: representação, aplicação, imolação, conteúdo, memorial e até monumento.

O Concílio aceita a dualidade que aceita São Tomás. O sacrifício da Cruz é uma ação absolutamente completa, como o é também o sacrifício da Missa. A unidade do sacrifício cristão reside na perfeita representação, aplicação e conteúdo. Não insisto em uma nova comparação entre o texto do Concílio e a passagem de São Tomás que comentamos neste capítulo; são muitas as semelhanças evidentes para a necessidade de um comentário. Constatarei somente que o Concílio destaca que a Última Ceia foi uma ação completa, que representou com antecipação esta outra ação completa: o sacrifício da primeira Sexta-Feira Santa. Não existe na interpretação tridentina o menor vestígio dessas teorias modernas que convertem a Ceia em parte do sacrifício total; de fato, se pergunta – diante a tão claras decisões – como pode alguém se atrever a perturbar a ordem tradicional da dispensação redentora: ou seja, em primeiro lugar, a instituição do sacrifício comemorativo, em segundo, o sacrifício natural e, finalmente, a celebração efetuada – não por cristo, mas pelo sacerdote – do sacrifício comemorativo.

O Concílio de Trento torna um o sacrifício do Calvário e o da Eucaristia, uma vez que os mantém claramente separados em seus respectivos modos de ser.

“O sacrifício que diariamente se oferece na Igreja não difere do que Cristo ofereceu, mas é seu memorial” (III, Q. XXII, art. III ad 2m). Antes das grandes controvérsias protestantes, São Tomás, sem correr o perigo de ser interpretado de forma distorcida, podia distinguir com clareza entre o sacrifício da Cruz e seu memorial sobre os altares da Igreja. Para ele, a Missa é uma comemoratio. Assim, se distingue radicalmente entre o sacrifício da Cruz e o sacrifício da Eucaristia, pois sabemos o que São Tomás entende por commemoratio. O que interessa não é saber se é uma commemoratio, mas que classe de commemoratio se trata.

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