O homem natural e o Cristianismo – E os que nunca ouviram falar de Cristo?

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Esta é uma tradução ainda sem revisão do livro “Christianus”. Já traduzimos o livro todo, embora ainda não esteja revisado.


Igreja_Santo_Inacio_RomaAs várias características esboçadas e descritas neste livro são, de fato, apropriadas e, em grande parte, características exclusivas ao perfeito, o cristão completo, a um homem que é atualmente um membro vivo do Corpo Místico de Cristo. A diferença entre o homo Christianus e o homo non Christianus é imensa, e alguém poderia até dizer que é insuperável. Ainda assim, não poderíamos esperar que o homem suba a tais alturas de perfeição psicológica como estão contidas na alma do cristão completo, se em sua natureza ele não possuía certas qualidades que são preparações remotas e potencialidades para a vida superior. Antes de concluir esta série de ensaios, lancemos um olhar nas condições do “primo distante”* do cristão realizado, no homem em seu estado natural, seu estado de pagão. Quais são as chances e possibilidades de ser mais que um filho da ira?

Em nossos dias, talvez mais do que em qualquer período, bons homens têm se preocupado a respeito do destino espiritual de seus amigos que não são cristãos. É como se uma imensa nuvem cobrisse a terra pela imensa altura e tamanho da estrutura dogmática cristã; parece colocar-se entre o sol e a vasta proporção da raça humana. Se o Catolicismo é verdadeiramente o templo de Deus na terra, construído não por mãos humanas, mas pelo divino Arquiteto, não é a sua própria força e harmonia que exclui grande multidão de ser pedras vivas nele? A mais perfeita e completa revelação cristã não é também a mais exclusiva e intolerante? Nenhuma madeira ou feno podem ser permitidos no trabalho daquele que tem em sua disposição toda matéria preciosa da criação. Para muitos, uma crença fervorosa no destino das multidões incrédulas é uma sombra que quase os fazem perder a luz do sol em seu firmamento. As épocas anteriores parecem ter sido menos sensíveis e muito menos preocupadas com aqueles que estão fora. O próprio São Paulo tem uma frase que seria quase uma sugestão de indiferença para o homem que não habita na casa construída por Deus: “Pois que me vai a mim em julgar os que estão de fora? Não julgais vós os que estão de dentro? Os de fora, porém, Deus os julgará. Tirai esse iníquo do meio de vós”. [1]

Na fraseologia moderna, essa dificuldade é conhecida como o problema da salvação daqueles que estão fora da Igreja; é uma questão muito debatida entre os teólogos de nossos dias, e não é sem interesse que alguém observa as fases de uma controvérsia tão entusiasmada. Todos nós parecemos estar assombrados pelo pesadelo da abundância de milhões que, ao que tudo indica, estão longe das misericórdias da dispensação cristã. O peso de tal pensamento é grande até mesmo para as mentes mais sólidas. Assim, a teoria que tem sido apresentada nos últimos anos é que a vasta maioria dos seres humanos são incapazes de responsabilidade moral ao ponto de sua consciência estar preocupada com homens vivos e mortos, não como pessoas adultas, mas como crianças.

Os pensadores antigos não sentiam a necessidade de fazer deste mundo quase numa confusão universal a fim de justificar os caminhos de Deus; de fato, sua atitude foi diametralmente oposta: eles ponderavam sobre homem e de seus poderes; eu poderia até mesmo dizer que eles ponderavam sobre dos pecados e das transgressões do homem, pois foi dado a eles a honra de serem humanos agentes para os quais o pecado tem responsabilidade moral. Eles comumente afirmavam que o homem poderia ser suficientemente culpado por privar-se das misericórdias da dispensação cristã. Eles podiam construir teorias bastante satisfatórias sobre o mérito real acerca do destino eterno dos infiéis, pois eles acreditavam que os infiéis eram homens e mulheres com o senso humano comum de responsabilidade moral. Você não pode formular opinião sobre a possível salvação dos infiéis se começar com a suposição de que eles não são seres humanos no verdadeiro sentido da palavra, seres sem um vestígio de sentido moral; você não legisla para os internos de um asilo, tudo o que você faz é mantê-los a sete chaves. É realmente angustiante ver como o sentimento está tornando-nos covardes, de modo que não damos mais crédito ao homem com responsabilidade suficiente para salvar ou perder sua alma.

As teorias que mencionei são realmente estranhas; elas dão ao homem um estranho desequilíbrio, tornando-o praticamente um louco por natureza. Os homens podem ser muito competentes em todas as outras coisas. Podem exercer um comércio; podem barganhar e trapacear; podem mostrar toda a agudeza de suas mentes bem treinadas; podem fazer profundas deliberações ao redor de suas fogueiras – já que estamos pensando de raças e tribos que não conheceram os missionários europeus; podem fazer guerra e paz; eles podem casar e estar casados; podem até mesmo construir templos, escrever poesias e esculpir estátuas; de fato, podem fazer tudo o que uma civilização faz; mas uma coisa eles não podem fazer, de acordo com nossos bons teóricos: eles não podem pensar com razão sobre questões morais. Eles são seres humanos maduros, contudo; mas quando se trata de consciência, quando se trata de obrigação, eles não são adultos, mas meros bebês para os quais não poderia haver nada pior no mundo do que o limbo das crianças. Nesta vida eles são como homens, tanto no seu melhor quanto no pior; na próxima serão como imbecis que morreram sem serem capazes de distinguir entre o caminho correto e o errado.

Onde estão os chefes das nações que domavam os animais da terra, e brincavam com as aves do céu, que entesouravam prata e ouro, em quem os homens confiavam, e cujos bens são inesgotáveis? Onde estão aqueles que trabalham a prata com dificuldade? Nada resta de suas obras. [2]

Eles foram gigantes sobre a terra, mas suas almas eram meramente espectros infantis. Esta não é uma interpretação mal humorada a respeito das benevolentes teorias modernas sobre a salvação do infiel. Eles não salvam nenhum infiel; pois suas criaturas humanas são muito incompletas em relação à ética para serem infiéis. Um infiel é alguém que nega, não alguém que não conhece a diferença entre o sim e o não. Sua teologia pode ser, certamente, chamada de grotesca; de fato, ela não é mais uma teologia do que um tratado sobre a mortalidade infantil. Você pode ter uma teologia somente se tratar de seres humanos. Você pode, por exemplo, ter muitas boas visões teológicas sobre o destino eterno dos que morrem na infância, seja após o batismo ou sem este Sacramento. Crianças são seres humanos normais em crescimento. Você tem princípios que guiam-no ao pensar sobre eles; eles pertencem à Igreja ou estão fora dela, através do rito do Batismo ou sua omissão; são parte da raça humana; partilham o destino da raça através do simples ato de nascer. Mas se você me diz que um Rajah Indiano, que possui grande astúcia em suas intrigas, que ama a arte e a beleza, não é mais que um bebê, eticamente, e, portanto, não pode ter sua alma ameaçada, eu estou sendo confrontado por algo extremamente anormal, e é bem estranho tentar classificar teologicamente tal ser.

Tal ponto de vista, de fato, quando é totalmente exposto, mostra-se extremamente absurdo. O homem não é como um monstro; a criação não falhou de tal forma. Muito mais saudável, mesmo do ponto de vista da psicologia natural, é a opinião de São Paulo sobre os Gentios:

Os pagãos, que não têm a lei, fazendo naturalmente as coisas que são da lei, embora não tenham a lei, a si mesmos servem de lei; eles mostram que o objeto da lei está gravado nos seus corações, dando-lhes testemunho a sua consciência, bem como os seus raciocínios, com os quais se acusam ou se escusam mutuamente. [3]

Sim, São Paulo conhecia os Gentis; ele conhecia os Gregos e os bárbaros; ele percebeu que, em sua degradação, eles eram capazes das coisas que trariam sobre eles a ira de Deus. A terrível descrição do Apóstolo sobre o estado moral do mundo pagão, como lemos no inicio da Epístola aos Romanos, não tem nenhum vestígio dos benevolentes paliativos modernos que transforma o pecado cristão em um pecado venial ou uma má ação infantil.

Tribulação e angústia sobrevirão a todo aquele que pratica o mal, primeiro ao judeu e depois ao grego; mas glória, honra e paz a todo o que faz o bem, primeiro ao judeu e depois ao grego. Porque, diante de Deus, não há distinção de pessoas. Todos os que sem a lei pecaram, sem aplicação da lei perecerão; e quantos pecaram sob o regime da lei, pela lei serão julgados. [4]

A responsabilidade moral do homem e a solidez ética encontram-se na raiz da mensagem de salvação cristã. Se Paulo é um devedor do Grego e dos bárbaros, ao sensato e ao insensato, ele supõe que são capazes de receber sua mensagem. Ele começa com a convicção de que eles correm o risco de perder suas almas. Longe dele a impressão de que o mundo, em sua maioria, é essencialmente imaturo. O que ele pode fazer com homens cuja consciência não pode apelar, que são tão pouco desenvolvidos para ter consciência em tudo?

Podemos garantir, então, que assumir em todos os homens adultos o poder de conhecer o bem e o mau, o poder de fazer o bem e o mau, é a mais antiga tradição. Como todos os homens recebem de Deus a graça sobrenatural do tipo mais especial, é uma verdade mais recente, ou melhor, uma verdade limitada. Devemos evitar o erro de interpretar uma verdade mais antiga por algo novo. Se não podemos entender como Deus dá a graça sobrenatural a todos os homens, em todos os tempos e lugares, não devemos cair na teoria de que inúmeros homens são incapazes de qualquer vida elevada, com o objetivo de contornar a dificuldade. A única certeza é a responsabilidade moral do homem; isso se queremos sustentar que a redenção do homem possui qualquer significado.

Não é tão claro para nós como Deus se relaciona individualmente com a alma; mas de uma coisa nós sabemos: que nada pode evitar que Deus fale ao coração de cada homem nascido neste mundo. A voz da consciência é a voz de Deus: a Palavra de Deus é “ a verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem” [5]. Se Deus pode iluminar um único coração humano, Ele também pode iluminar inumeráveis corações. Será que somos tão simplistas a ponto de imaginar que um número vasto cria qualquer embaraço a Deus? Quando admitirmos o fato de que Deus, em seu próprio caminho, fala à alma do homem, admitiremos também que Ele fala a todas as almas, pois, para Deus, todas as almas são como uma só.

O contemporâneo que tenta confortar-me ao dizer que o pagão está além da possibilidade de perdição pois ele não pode ouvir a voz de Deus, ou a voz da consciência, e põe diante de mim um problema teológico de proporções tão temíveis que o crente fiel do passado, que diz que não conhece os caminhos de Deus com os homens, embora saiba que Deus haja com justiça com todos. Nenhum de nós é insensato ao professar a ignorância a respeito dos caminhos de Deus; mas não é insensato colocar limites no alcance do poder de Deus limitando a ética natural da vida a um punhado de raças? Parece que estamos fazendo o sucesso sobrenatural de Deus depender da quantidade de fracasso na ordem natural. Admitamos que todos os homens podem ser salvos por Deus, e vamos acreditar na habilidade das misericórdias Divinas. Isto, não a teoria da quase universal debilidade mental, é o sólido conforto cristão.

O Profeta Isaías descreve o trabalho do Redentor com palavras de beleza inigualável, no qual Mateus, o Evangelista, recorda com amor em louvor a Jesus Cristo:

Eis o meu servo a quem escolhi, meu bem-amado em quem minha alma pôs toda sua a afeição. Farei repousar sobre ele o meu Espírito e ele anunciará a justiça aos pagãos. Ele não disputará, não elevará sua voz; ninguém ouvirá sua voz nas praças públicas. Não quebrará o caniço rachado, nem apagará a mecha que ainda fumega, até que faça triunfar a justiça. Em seu nome as nações pagãs porão sua esperança [6]

O grande e poderoso Redentor não é como um rio devastador; seu toque firme é infinitamente atencioso e paciente. Onde quer que haja uma faísca de vida, ali Ele está pacientemente vigilante. A mecha que fumega é, para Ele, um sinal de esperança. Longe dele pisar ou apagá-la. Existe algo na natureza que paira irresolutamente entre ser e não ser como uma faísca que está na mecha que fumega? A própria mecha (o linho) é uma substancia fina; que uma faísca não deveria queimar imediatamente mostra a fragilidade da vida da faísca. Mesmo assim, há alguma energia na mecha. Como há fumaça, também deve haver fogo em algum lugar desta frágil mecha; e esta vida frágil, esta tímida atividade, o Redentor contempla com o mais terno interesse. Milhões de almas humanas podem não ser nada mais que uma mecha que fumega, mas eles não são considerados como nada para o Filho de Deus. O grande Profeta do passado teve uma verdadeira visão do mundo espiritual e do papel de Cristo. Seu Redentor não age em um mundo que está sobre o fogo; seu Salvador cuida de cada fraca faísca que pode ser avivada pelo Espírito.

Há de fato outra, por assim dizer, apresentação contraditória deste tempo pelo próprio Cristo: “Eu vim lançar fogo à terra, e que tenho eu a desejar se ele já está aceso?” [7]. Esta descrição de si mesmo da boca do Filho de Deus é algo que raramente tentou o artista cristão. Como pintaremos o Filho de Deus lançando no fogo? Isso foi tentado em um lugar, na Igreja de Santo Inácio em Roma; lá o Cristo é visto lançando chamas. É ainda mais estranho dizer que a impressão sobre o espectador não é tanto em relação às bolas de fogo quanto da mecha que começa a queimar. O Filho de Deus que veio para lançar o fogo é realmente Alguém que assiste com interesse a mecha que fumega; Seu fogo é a chama da mecha; não um é incêndio, não é um calor devastador, é um grande fogo na mecha, vindo após a fumaça e a centelha silenciosamente fumegante. Eles são fogo que Nosso Salvador deseja acender, pois há infinita paciência no fogo de Deus.

A Caridade de Cristo faz alegres chamas com a mecha e ilumina o mundo com inumerável brilho; da mesma forma que iluminamos nossas casas, não com incêndio, mas com o brilho vacilante de lâmpadas ou velas. O homem, pelo contrário, em seu tempestuoso fervor, pede tempestuosos fogos do céu para consumir cidades inteiras e torná-las em cinzas:

Aproximando-se o tempo em que Jesus devia ser arrebatado deste mundo, ele resolveu dirigir-se a Jerusalém. Enviou diante de si mensageiros que, tendo partido, entraram em uma povoação dos samaritanos para lhe arranjar pousada. Mas não o receberam, por ele dar mostras de que ia para Jerusalém. Vendo isto, Tiago e João disseram: Senhor, queres que mandemos que desça fogo do céu e os consuma? Jesus voltou-se e repreendeu-os severamente. [Não sabeis de que espírito sois animados. O Filho do Homem não veio para perder as vidas dos homens, mas para salvá-las.] Foram então para outra povoação. [8]

Seria muito frio o coração em que não há calor o suficiente para fazer o mínimo de mecha fumegante. Podemos realmente compreender um homem tão desprovido de todo senso das coisas elevadas que não alcance o que o Profeta expressou em sua bela metáfora sobre a misericórdia divina? A criança selvagem da natureza tem ideais suficientes, eu diria que possui a fé suficiente em alguma Grandeza desconhecida, para atrair a atenção do Filho de Deus, que está atento aos fracos sinais de fogo sobre a terra.

Ele escuta as orações do Beduíno; Ele ouve atende o desejo ardente do Hindu; ele observa a consciência do Budista; eles são faíscas, todos eles, e Ele não extinguirá nenhum deles.

Não nos foi concedido ver como muitos deles podem resplandecer naquela verdadeira contrição que atinge a justificação sobrenatural. Mas uma coisa sempre me será uma consolação certa: o Deus que cuida da faísca tem o poder de salvar o homem onde há a mínima faísca de boa vontade.

***

Notas:
* Cousin nine times removed.

[1] – 1 Corintios 5, 12-13;
[2] – Baruc 3, 16-18;
[3] – Romanos 2, 14-15;
[4] – Romanos 2, 9-12;
[5] – João 1, 9;
[6] – Mateus 12, 18-21;
[7] – Lucas 12, 49;
[8] – Lucas 9, 51-56.

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