A linguagem da fé

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Gustave DORE l'Ascension 1879É fato incontestável que a Igreja perdeu nos últimos quatro séculos um grande número de fiéis e as apostasias têm se multiplicado.

O protestantismo do século XVI foi com efeito um terrível desmoronamento, e mesmo em nossos dias o desaparecimento da fé atinge proporções que teriam parecido impossíveis aos sólidos cristãos dos primeiros tempos. Esta instabilidade no êxito exterior da Igreja nos tornou, a meu ver, tímidos, nervosos e nos privou de certo modo do sentimento da vitória espiritual que nunca faltou à verdadeira mentalidade católica. As forças de desagregação que têm arrancado do seio da Igreja raças e povos inteiros parecem ter-nos enchido dum sentimento de terror, a nós que, graças a Deus, temos conservado a fé.

Muitas vezes tenho perguntado a mim mesmo que admiração teria o católico pela sua religião, se nunca tivesse havido nenhuma heresia, nenhum cisma, nenhuma apostasia. Se a Igreja tivesse sofrido somente da parte dos infiéis, se bem que tais provações exteriores não possam obscurecer a visão da glória da Igreja, pois são atos de seus inimigos oficiais. O que, porém, é próprios para inquietar os fiéis, para lhes roubar o gozo da certeza, para lhes inspirar dúvidas acerca da vitória, são as deserções e as traições dos que receberam o batismo da Igreja. Por isso quisera saber qual seria o sentimento católico, caso a Igreja tivesse dirigido sempre como mestra soberana todas as almas regeneradas pelas águas do batismo, sem jamais ter sido dilacerada pela heresia ou cisma, e na suposição de que todos os seus filhos tivessem observado fielmente o preceito de São Paulo: “Que unânimes e a uma voz glorifiqueis a Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm XV, 6).

Às vezes se diz, e até muitas vezes com certa razão, que os cismas, as heresias e as apostasias são provações que purificam a Igreja. No entanto esses tristes acontecimentos fazem sem dúvida um grande mal, porque perturbam a fé nos crentes fervorosos. Demais, como todos os teólogos o admitem, a doutrina católica nessas lutas contra a heresia perde algo das suas harmoniosas proporções. Com efeito, a heresia consiste ordinariamente na negação duma verdade particular. Ora, o teólogo católico tem o dever de, em defesa do dogma, deixar de lado qualquer outra preocupação e concentrar a sua atenção sobre o ponto de doutrina atacado para o defender. Daí resulta que outras verdades, que permanecem sempre inatacáveis e essenciais, não sejam encaradas nas suas justas proporções, à semelhança das velhas cidades, numa guerra, situadas atrás e longe do campo de batalha: não necessitam do cuidado que é preciso ter-se com as trincheiras escavadas para deter o inimigo e defender a pátria.

Quanto a fazer-se uma exposição do catolicismo como o faria um teólogo genial, suposto que nenhuma contradição tivesse surgido na cidade de Deus, ninguém o ousará empreender, por lamentável que seja a falta duma tal obra. Entretanto há uma empresa que não excede as nossas forças. Consiste em enumerar os elementos inalteráveis, permanentes e perpétuos do catolicismo. Podemos certamente inventariar os tesouros de nossa herança. Nenhuma perversidade, nenhuma instabilidade do espírito humano, nenhum evento histórico, poderá jamais diminuir essas riquezas. Digo finalmente que a Igreja no exercício do seu magistério, para enfrentar os detratores e os contraditores que atacam ora um ora outro dos seus dogmas, não faz outra coisa senão aplicar sabiamente esses tesouros. A expressão oficial do catolicismo permanece sempre a mesma num grau admirável. É pois meu desejo que os católicos conheçam perfeitamente os elementos indispensáveis da nossa religião.

Tenho em mente nações católicas, milhões e milhões de fiéis que podem compreender e apreciar as belezas da sua religião e, na prática, dar preferência a esses elementos da nossa fé que lhe são essenciais e constitutivos. Imagino um catolicismo que possa chamar-se verdadeiramente “clássico”, na significação que a palavra clássico tem na literatura e na arte. Clássica é a obra que possui as qualidade que não só os técnicos, mas também as multidões julgam essenciais e necessárias, por sublimes e belas que sejam. Assim – para maior clareza e antecipando-me – a habitação do Espírito Santo na Igreja e na alma do justo é uma propriedade essencial do cristianismo. Os católicos devem pois conhecer, admirar e apreciar esse dom, do contrário o catolicismo não lhes seria o que deve ser, nem seria clássico.

A Igreja tem permanecido eminentemente clássica, sobretudo na sua liturgia. No entanto não se pode dizer o mesmo quanto a todos os seus inúmeros filhos. Pois, se bem que possuam em geral a fé segundo a sua definição, o conhecimento que eles têm da Pessoa e obra redentora de Cristo é muito desigual e comporta graus infinitos. As verdades da fé não agem com a mesma força nas suas inteligências, vontades e sensibilidades; sobre as suas faculdades. Pode mesmo dizer-se que a inteligência ou compreensão da religião católica é completa ou incompleta, profunda ou superficial, grande ou pequena, segundo os indivíduos e segundo os períodos da história.

O título deste livro: “Nova e Eterna Aliança”, exprime bem, a meu ver, o “Catolicismo Clássico” como o tenho em mente. Com os teólogos católicos, parto deste princípio que a Encarnação do Filho de Deus criou entre Deus e o homem novas relações privilegiadas e indestrutíveis. Deus pelo sangue de Cristo entrou em nova e eterna Aliança com o homem. Fez um novo e definitivo testamento.

As condições essenciais desta Aliança são, o que tenho o prazer de chamar, os elementos clássicos do cristianismo. Elementos precisos, nitidamente determinados, e não sugestões ao acaso, promessas ou vagas aspirações. Enumerá-los é dever dos mestres da doutrina cristã. Explicá-los ao povo e torna-los amados e admirados dos fiéis, compete aos pregadores sacros.

Para evitar confusão, digo desde já que o ato da ressurreição de Cristo e da ressurreição corporal de todos os homens n’Ele e por Ele, é um elemento essencial da Nova e Eterna Aliança. Podemos facilmente supor uma época da história religiosa do catolicismo que, por qualquer razão, os católicos não se interessem por esta admirável doutrina ou não sejam atraídos pela sua beleza, ou mesmo pensem ela ser inútil, supérflua e até mesmo impregnada dum ressaibo de materialismo.

O católico que tivesse tais sentimentos de desinteresse pela doutrina da ressurreição do Senhor estaria evidentemente fora do catolicismo clássico, porquanto não apreciaria e não amaria uma verdade essencial da religião, como seria seu dever. Não me refiro aqui ao católico que nega a ressurreição de Cristo. Um tal católico é um apóstata e não apenas um cristão ignorante das belezas de sua religião.

Poderia indagar-se se houve tempo em que os cristãos possuíam o que podemos doravante chamar uma atitude católica clássica com que eram capazes de admirar de maneira habitual os esplendores da Nova e Eterna Aliança, atribuindo-lhe todo o seu apreço, ao menos o apreço, a estima, que é possível lhe ser dada neste mundo.

Inclino-me a pensar terem os cristãos vivido longos períodos nesta feliz disposição de espírito. Os simples fiéis falavam antigamente das riquezas da sua fé numa linguagem que demonstrava ser-lhes familiar o conhecimento dos méritos de Cristo. Podemos supor que não só os tempos apostólicos, mas também os que vieram em seguida foram tempos clássicos no sentido que dei a esta palavra.

O classicismo cristão aparece claramente no tempo dos Padres da Igreja. Os seus escritos, compostos geralmente de sermões dirigidos aos fiéis, demonstram suporem eles em seus ouvintes um conhecimento muito profundo das grandes verdades cristãs, pois delas falavam com tamanha precisão que dificilmente encontramos igual hoje em dia a não ser nas escolas teológicas.

Eis o critério do catolicismo clássico: se os fiéis podem habitualmente, sem esforço e sem dificuldade, sem que a sua linguagem pareça bizarra ou arcaica, falar das realidades da sua fé: da graça, da caridade, do Corpo e do Sangue de Cristo, do Espírito Santo, da remissão dos pecados, da incorporação em Cristo, tomando todos estes fatos em seu sentido literal, servindo-se deles para as suas orações e como hinos de louvores e de ação de graças, expressando-os de todos os modos possíveis. Um tal modo de agir denotaria uma magnífica inteligência espiritual nos fiéis. Se, pelo contrário, ao falarem das verdades cristãs, eles são tímidos, hesitantes, enleados, é sinal de que, se não perderam a fé, perderam pelo menos os esclarecimentos da fé.

É claro que a exposição do catolicismo em todo o gênero de expressão deve ser e tem sido uma obra-prima, uma criação admirável do pensamento, da palavra e das artes. Em São Paulo encontramos a frase que se tornou proverbial: “a loucura da Cruz”. No entanto, longe o pensamento de que esta loucura não possa ser representada com beleza. Foi São Paulo o primeiro a exaltar a sabedoria da linguagem cristã, o que é próprio dos perfeitos:

“Entretanto, é sabedoria que nós pregamos entre os perfeitos, não porém uma sabedoria deste século nem dos príncipes deste mundo, que estão sendo reduzidos a nada; mas pregamos a sabedoria de Deus, misteriosa e oculta, que Deus predestinou antes dos séculos para nossa glória, a qual nenhum dos príncipes deste mundo conheceu; porque se a tivessem conhecido, nunca teriam crucificado o Senhor da Glória” (I Co II, 6-8).

Pode certamente julgar-se o grau de cultura duma época, não só na ordem sobrenatural como também na ordem natural, pela maneira por que os escritores, os oradores, os artistas, em grande número, representam a fé cristã. Bem sei exigir uma coisa difícil pedindo uma apresentação “perfeita” da fé cristã; porque o nosso tempo, não obstante abundar em devoções, não se salienta francamente no domínio da arte religiosa.

Sem querer criticar a época em que vivo, penso não ser muito severo em fazer reservas sobre o valor artístico das suas composições religiosas. É uma observação que pode ser feita pelos católicos.

Foi São Leão Magno um santo de primeira ordem. Foi papa e doutor da Igreja. Ao seu nome acrescenta-se um adjetivo que exprime a sua superioridade. Santo Afonso de Ligório foi também um grande santo, doutor da Igreja e bispo. No entanto esses dois homens, tratando do mesmo tema nas suas pregações aos fiéis, agem de maneira inteiramente diferente.

Em São Leão temos uma exposição clássica; em Santo Afonso uma exposição imaginosa. Dificilmente podemos fazer a ideia de um bispo do tempo de São Leão falando como Santo Afonso. As diferenças de linguagem são tão palpáveis que formam base segura para uma crítica literária.

Como foram expressas as mesmas verdades espirituais, em certas épocas, por homens santos e irrepreensíveis sob o ponto de vista da doutrina, nós o sabemos. A leitura das obras católicas forma o ouvido do leitor, de modo que facilmente pode chegar a descobrir as características do estilo antigo e moderno.

Não pretendo demonstrar ter São Leão exposto melhor a verdade que Santo Afonso. O que quero dizer é que ele o fez de maneira muito diferente. É certamente lícito afirmar que nem todas as maneiras de expressar uma doutrina são igualmente boas. Ninguém está obrigado a reconhecer que a linguagem moderna da espiritualidade cristã seja a melhor. Tem-se no entanto o direito de aspirar que os católicos, em grande número, se familiarizem com uma linguagem que seja perfeita. Não significa isto deprimir a religião das pessoas simples, mas anelar que o nosso catolicismo seja expresso nas suas cerimônias exteriores com a maior beleza e perfeição possíveis; que os católicos, homens e mulheres, ornados com a cultura moderna, estejam unidos aos milhões para manifestar a sua fé, assim como estão unidos para a defesa das causas da vida moderna, tais como as ciências ou o patriotismo.

Devo pedir desculpas às pessoas piedosas de parecer muitas vezes nas páginas deste livro deplorar a influência do puro sentimento e da imaginação da vida cristã. Bem longe de mim desprezar o que chamamos de “piedade popular” que é tão útil para agrupar os fiéis. Mas como o meu escopo formal é pôr em evidência as verdades fundamentais, às quais as formas de piedade, mesmo as mais imaginativas e as mais sentimentais, devem o que têm de melhor, pode parecer que eu as censuro, quando de fato não os faço. É mesmo minha obrigação mostrar que a inteligência do crente dá provas do seu vigor quando a sua imaginação pode exercer-se sobre as verdades cristãs sem as prejudicar.

Mesmo depois de feitas todas estas concessões, conserva-se a admirável visão que oferece na sua sublime estrutura a religião da Nova e Eterna Aliança, a religião da Redenção, assim como a memória guarda a lembrança dos mosaicos das basílicas constantinianas em que aparece Cristo na sua majestade, os Apóstolos cingidos de suas coroas de ouro e os cordeiros a se dessedentarem no rio da vida que corre sob os pés do Cordeiro de Deus vitorioso.


Retirado do livro “A Nova e Eterna Aliança”, das edições Lumen Christi, que em breve será traduzido pelo projeto.

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