O acidente inglês – Por Hilaire Belloc [Parte III]

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Thomas Cromwell

Todos nós sabemos que nada foi debatido de forma mais violenta do que esta questão. Existem milhares de livros, muitos muito eruditos, que tratam do tema, e qualquer esquema geral se verá forçosamente submetido, de um modo ou de outro, a críticas enérgicas. Entretanto, considero possível desenhar suas linhas principais com bastante clareza e firmeza. Considero possível representar, tais como foram, suas verdadeiras causas e seus verdadeiros motivos. Tratarei de fazê-lo aqui, mesmo que este tipo de verdade choque contra fortes prejuízos populares.

Primeiro, o motivo. Irei chamar o primeiro ato, a ruptura de Henrique VIII com a Santa Sé, um acidente, pois estimo que esta palavra é a que mais se aproxima com a verdade. Um acidente – por exemplo, um automóvel que se desvia – não é intencional em seus efeitos. Se deve a um cálculo mal feito por parte do condutor, quem, ao querer fazer uma coisa, faz outra. Se pode, com frequência, corrigir a má manobra e eliminar suas consequências. O condutor não a faz por gosto.

Depois de séculos de costume dos efeitos da desunião, hoje nos parece cosia corrente que exista um óbvio e necessário abismo entre os que aceitam a plena autoridade da Santa Sé e os que a recusam ou negam. No mundo moderno é que existe esse abismo. Entretanto, ele não existia no início do século XVI. Desafiar o poder político da Santa Sé e negar-se a acatar sua política, chegando até mesmo a proibir durante um tempo a entrada de seus decretos, eram cosias que ocorreram uma vez ou outra no curso, não só da história inglesa, mas de qualquer outra história nacional. Depois de um tempo, a dissidência sempre recuava, pois nela não estava involucrado nada de caráter doutrinal, isto é, nada que ofendesse as ideias religiosas que formaram a cristandade: os dogmas nos quais se fundam os sacramentos, a Missa, o reconhecimento das ordens, e todas as práticas cotidianas do povo cristão.

Para o inglês das ruas, um choque com o Papado era, essencialmente, um choque político. Somente alguns poucos homens sensatos compreenderam que esse choque poderia gerar males irreparáveis, como viram Fisher e Tomas More. Visto que a unidade é vital, e Pedro e a Igreja são uma única coisa. Separar-se do Papado, mesmo que temporalmente, não é somente uma negação da unidade da Igreja, mas um ato que contém potencialmente a corrupção progressiva. Mas insisto na necessidade de compreender que não era esse o aspecto do assunto aos olhos do homem comum que até então vivia na Inglaterra ou, se for bem observado, em qualquer outra parte da cristandade durante a década compreendida entre os anos 25 e 35 do século XVI.

A supremacia do rei sobre tudo relacionado à vida diária do homem não era somente uma verdade estabelecida, mas que se exercia de forma verdadeira e contínua. Desde Eduardo III, o rei era quem outorgava, sem outra intervenção, as grandes abadias e bispados. Os estatutos decretados pela coroa, especialmente o Praemunire[1], demonstravam até que ponto o poder local insistia em manter-se independente em relação ao poder papal, quando se tratava de assuntos temporais. Enquanto a supressão das petições a Roma…, bom, o homem comum não levava petições a Roma! O homem comum pensava no Papa, naturalmente, como o necessário e indiscutível chefe espiritual da cristandade. Mas o fato de admitir um conflito nas relações entre o presente, poderoso e universalmente reconhecido chefe do estado inglês e centro da autoridade espiritual de Roma, não significava para o simples cidadão dessa época um ato impressionante, sequer revolucionário.

Deve ser recordado, além disso, que a palavra “Coroa” agora meramente simbólica, tinha então seu pleno significado. O rei governava verdadeiramente. Era dono de todo o poder que está disperso na atualidade entre um punhado de grandes financiadores, nativos e estrangeiros, donos de diários e diretores de monopólios, com seu séquito de políticos. Nomeava e exonerava aos juízes cujas funções consistiam não somente em interpretar os costumes, mas também em cumprir as ordens reais. Estruturava em seu gabinete todas as novas leis importantes, que o Parlamento se limitava a registrar de fato, mesmo que com certo poder para discuti-las. Podia, também, por sua própria vontade, rechaçar, e assim o fazia, as escassas propostas que lhe chegavam de baixo. Podia mandar matar ou arruinar a quem queria. Fazia a paz e a guerra. Todos os postos e salários eram criados por ele. Toda a vida pública se movia segundo sua vontade pessoal.

Henrique VIII rompeu com Roma influenciado por Thomas Cromwell, homem indiferente às consequências nacionais sempre que pudesse encher seus bolsos. Essa ruptura foi uma imitação de certos senhores alemães, semi-soberanos, que rejeitaram por completo a autoridade de Roma há vários anos; e outros elementos no ambiente da época ocultavam a gravidade de tal ato.

Henrique cometeu sua loucura justamente quando muitos, em toda Europa, proclamavam a corrupção da autoridade papal e o dever de desafiá-la.

Seu contemporâneo, o rei da França, havia falado vagamente para prescindir do Papa e estabelecer um “patriarca ocidental”. Além disso, na mente dos homens existia pouca relação entre a heresia e o repúdio dos direitos papais nos altos assuntos de estado. Outra coisa teria sido se a heresia tomasse um caráter ameaçador e, o Papado, como centro da unidade ortodoxa, tivesse imediatamente aparecido como algo essencial. Mas a princípio não foi assim.

Portanto, a verdade principal se mantém: a ruptura com Roma poderia ter sido aparada, e provavelmente teria sido se houvesse seguido sendo um ato isolado. Não se levou a cabo por ódio à autoridade papal e menos ainda por um motivo doutrinal. O povo inglês era um povo católico normal daquela época. Alguns humanistas desse povo e os que apoiavam com ardor a reforma dos abusos formavam um grupo poderoso nas universidades e entre os bispos; os queixosos contra a as dívidas e impostos clericais eram numerosos e, em especial, muito fortes em Londres, que sempre teve uma influência primordial nos destinos da Inglaterra. A irritação contra o imposto papal datava na Inglaterra por um grande tempo anterior. Existia muita irritação contra a retirada clerical de fundos; especialmente contra as riquezas e rendas da Igreja, muitas vezes dadas a entidades distantes e decadentes. Mas os propagadores das novas doutrinas anticatólicas constituíam aqui uma minoria muito pequena e nada popular que até então tinha exercido apenas uma influência geral. Eram, como todos os revolucionários, ardentes e sinceros, muito mais intensos que a grande massa inerte da sociedade que atacavam; mas ainda que tivessem suscitado a discussão por todas as partes, ainda não tinham afetado o tom da vida inglesa.

Existiam, naturalmente, um grande relaxamento e muita indiferença, como quase sempre ocorre nas velhas sociedades católicas que ainda não despertaram do perigo. Mas o próprio Henrique, em seu caráter e em sua fé, era profundamente católico. Professava especial devoção pelo Santíssimo Sacramento, e apenas um pouco menos pela Santíssima Virgem; toda sua mentalidade era não somente católica, mas, se me for permitida a expressão, quase que irritantemente católica. As novas críticas da doutrina católica o chocavam e exasperavam e, na boca de algum de seus súditos, o enjoavam ao extremo.

Como, então, se iniciou um processo tão aparentemente impossível como o da descatolicização da Inglaterra católica? Como se originou a inesperada, desorganizada e, até essa geração, incrível transformação de todo um povo que não a desejava?


[1] – Ofensa consistente no desconhecimento ou desprezo do rei e seu governo e, em especial, a introdução na Inglaterra de uma autoridade papal estrangeira.


Aproveitando as postagens de uma biografia de Anscar Vonier, responsável pela reconstrução de um mosteiro destruído durante a revolução protestante, resolvemos também revezar com postagens com um texto de Hilaire Belloc sobre o tema.

Será interessante conhecer a história de uma verdadeira Reforma, mesmo que pequena, e um verdadeiro Reformador (Anscar Vonier), em comparação com uma falsa reforma motivada pela ambição e vaidade humana:

Parte 1: https://anscarvonier.wordpress.com/2015/03/29/vida-e-obra-de-dom-anscar-vonier-parte-1/

Parte 2: https://anscarvonier.wordpress.com/2015/04/13/vida-e-obra-de-dom-anscar-vonier-parte-2/

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