O acidente inglês – Hillaire Belloc [Parte IV].

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Como, então, se iniciou um processo tão aparentemente impossível como o da descatolização da Inglaterra católica? Como se originou a inesperada, desorganizada e, até essa geração, incrível transformação de todo um povo que não a desejava?

Se originou assim:

668,Anne Boleyn,by Unknown artist Unknown artistA mulher de Henrique, Catarina, filha do rei de Aragão, não podia ter mais filhos. Esteve grávida muitas vezes, e sofreu de vários males juntamente com a desgraça de perder a seus filhos imediatamente depois de nascidos. Havia somente a princesa Maria; Henrique não tinha herdeiro masculino direto.

Assim, a possibilidade de ter um herdeiro masculino era algo muito importante para Henrique. Devemos recordar que a família Tudor era de baixa origem, que não tinha verdadeiro direito ao trono e que, em 1525, quando começou o distúrbio, somente tinha quarenta anos que havia usurpado o trono da Inglaterra, substituindo a dinastia nacional dos Plantagenet depois da batalha de Bosworth. Consequentemente, era urgente para o rei a necessidade de um herdeiro.

Entretanto, seus ministros, notavelmente o grande Wosley, se inclinavam a fomentar a ideia de um novo casamento do rei, com o objetivo de apoiar certos planos de política exterior. Este novo casamento somente podia, naturalmente, ocorrer depois da anulação do primeiro com Catarina de Aragão. Entretanto, novamente, deve-se prevenir o leitor moderno contra uma má interpretação do passado.

“Anulação” não significava, nem significa, que o casamento existente se dissolve. É uma declaração de que o casamento era nulo e sem valor desde o princípio, de que nunca foi um verdadeiro casamento, pois os contraentes não viveram juntos, ou porque não houve consentimento livro, ou porque o marido tem parentesco com a esposa em grau proibido de consanguinidade ou afinidade, ou por qualquer outra razão válida.

Anulações de casamentos (como estes) em que entravam em jogo grandes interesses, eram, então, acontecimentos políticos e sociais correntes. Se outorgavam continuamente anulações desta classe, por parte da Corte de Roma, seja por causa da consanguinidade dos contraentes ou por alguma outra razão; em toda a história do final da Idade Média se multiplicam estes casos.

A irmã de Henrique desfrutou (se me permite o termo) dessas anulações. O processo era fácil. Se uma das partes apresentava o pedido e as provas e não havia oposição da outra parte, com frequência o assunto seguia automaticamente em curso. Mesmo que houvesse discussão, se o caso apresentava a menor consistência (como sempre ocorria com os enredados parentescos das grandes famílias), o assunto, em geral, também seguia um curso favorável. Com tal método, se cometiam graves abusos mas, na metade das vezes, se apresentava um caso realmente sério, e a anulação se outorgava com a mesma justiça e razoabilidade que se outorgaria hoje; como se outorga, certamente, hoje diante do grande escândalo das pessoas de cérebro embotado, incapazes de compreender os princípios perfeitamente claros da lei canônica.

Portanto, a ideia de anular o casamento do rei com Catarina de Aragão, para contrair novas núpcias, não tinha nada de anormal aos olhos da época.

Talvez nunca saibamos com certeza absoluta quem, em princípio, sugeriu esta política. Existem testemunhos que asseveram que foi Wolsey; outros, que teve origem com o próprio Henrique; este disse que um enviado francês o havia instigado, embora, conta a história, de forma notoriamente hipócrita que sua veracidade torna-se duvidosa. O melhor testemunho de todos (pois estava no coração da sociedade da corte), Pole, disse que a sugestão veio, em primeiro lugar, da própria Ana Bolena. De qualquer modo, a ideia tomava forma; Wolsey, como já disse, pensava em empregar evidentemente com finalidades políticas e substituir um importante casamento estrangeiro para o rei.

Assim, Henrique desejava iniciar uma relação com uma jovem e atraente dama da corte que tinha nome, por ser uma Howard; isto é, por ser membro da principal família do reino, da semi-realeza, e representante da linha de Tomás de Brotherton, filho menor de Eduardo I. Seu nome era Ana. Seu bem relacionado, embora menos importante, progenitor era Bolena ou Bullen, mas a situação social de Ana e o que lhe dava categoria era sua qualidade de descendente dos Howard por linha materna, pois sua mãe era irmã do duque de Norfolk. Permita-me destacar aqui um ponto essencial que é necessário para compreender tudo. Não foi a simples paixão de Henrique por esta mulher, Ana Bolena, a causa do que se seguiu. A causa do que ocorreu foi a negativa de Ana Bolena de ceder diante de Henrique, e sua determinação em ser rainha. Ana, com seu poder, foi a autora do que iria acontecer; em sua inexcusável debilidade, Henrique não foi o autor.

Não era este o primeiro amor de Henrique. Semelhante a maioria dos príncipes do Renascimento – inclusive muitos príncipes clericais -, era um libertino. Já havia tido entre suas amantes a irmã mais velha de Ana Bolena, a quem havia casado, um tanto desdenhosamente e dando-lhe presentes modestos, com um cavalheiro sem importância. Ele, sem rodeios, se sentia atraído pelo aspecto físico, e queria que Ana ocupasse o lugar de sua irmã na qualidade de amante. Mas o domínio de Ana sobre si mesma era tão forte quanto o débil de Henrique. Negou-se a ser sua amante, insistindo a ser sua esposa.

Nestas condições de desejo e fracasso, Henrique perdeu completamente seu equilíbrio[1]. Se encontrava à mercê da jovem; e, em determinado momento que não podemos precisar, entre junho de 1525 e fevereiro de 1527, era tamanho seu entusiasmo que se propôs realmente à louca ideia – pois era louca – de casar-se com ela. Estou inclinado a fixar uma data mais anterior à que nos dá a maioria, e situá-la em 1525; mas, de qualquer modo, não foi posterior ao início de 1527. Qual não seria o horror dos que intrigavam para conseguir a anulação com objetivos internacionais e, em especial, o horror de Wolsey, diante de semelhante fracasso de seus planos! A única vantagem política possível de semelhante matrimônio seria o problemático nascimento de um filho varão. Apesar da linhagem de Ana, o casamento seria vergonhoso para o rei; seria a ruína da política exterior de Wolsey, que girava sobre uma aliança francesa, construída pelo casamento de Henrique com uma princesa da França.

Naturalmente, entretanto, a determinação de Ana em ser rainha, força motriz de todo assunto, não saiu da superfície; tudo quanto apareceu diante do mundo foi o procedimento para conseguir a anulação na Corte Pontifícia.

A defesa de Henrique alegava duas razões: primeiro, que Catarina havia sido de fato mulher de Arthur, irmão de Henrique, morto na juventude. É certo que os jovens haviam sido casados publicamente, mas o argumento era, sem dúvida, uma mentira: os meninos (pois nunca haviam deixado de ser) nunca haviam convivido. Segundo (o qual é teologicamente insensato), nesses dias se discutia abertamente se o poder dispensador do Papa, no caso em que Catarina houvesse sido mulher de Arthur, se estendia ou não ao grave caso de um casamento com a mulher de um irmão morto e se dizia que, portanto, a dispensa (que certamente foi conseguida por Henrique VII para o casamento de seu segundo filho com Catarina) não era válida por ser contrária à lei de Deus.

Quando o caso começou a ser tratado, Catarina manteve-se rigidamente firme contra todos os esforços para fazê-la transigir. Afirmou com vigor que seu matrimônio com Arthur jamais fora consumado, de modo que não podia colocar a causa por dispensa. Era a esposa de Henrique e nunca fora de outro; esposa de Henrique e rainha seguiria sendo sempre.

Temos aqui outro ponto que é importante discernir com clareza: do mesmo modo que é importante para nós discernir claramente o fato de que o povo considera uma ruptura com o Papado como um ato unicamente político e não religioso e o fato de que não foi a paixão em si de Henrique por Ana Bolena, se não a tenaz determinação em ser rainha que ela demonstrava e que produziu o resultado.


[1] – A enfermidade de Henrique tem muita relação com sua não estabilidade. Pelos sintomas que apresentava, estamos moralmente seguros de que fazia muito tempo de que sofria de sífilis.


Aproveitando as postagens de uma biografia de Anscar Vonier, responsável pela reconstrução de um mosteiro destruído durante a revolução protestante, resolvemos também revezar com postagens com um texto de Hilaire Belloc sobre o tema.

Será interessante conhecer a história de uma verdadeira Reforma, mesmo que pequena, e um verdadeiro Reformador (Anscar Vonier), em comparação com uma falsa reforma motivada pela ambição e vaidade humana:

Parte 1: https://anscarvonier.wordpress.com/2015/03/29/vida-e-obra-de-dom-anscar-vonier-parte-1/

Parte 2: https://anscarvonier.wordpress.com/2015/04/13/vida-e-obra-de-dom-anscar-vonier-parte-2/

Parte 3: https://anscarvonier.wordpress.com/2015/04/18/vida-e-obra-de-dom-anscar-vonier-parte-3/

Para mais novidades, visite nossa página no Facebook: https://www.facebook.com/projetoanscarvonier

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