Vida e obra de Dom Anscar Vonier – Parte 5

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Benedito_Calixto_-_Naufrágio_do_Sírio,_1907Não sabemos exatamente a data da primeira fundação de Buckfast, mas sabemos a data em que o segundo fundador da abadia começou sua futura atividade. Foi em 22 de agosto de 1889. Ele passou quatro anos como aluno e, em seguida, tornou-se noviço quando lhe foi dado o nome pelo qual é tão conhecido, Anscar, o apóstolo dos países escandinavos. Um ano depois, em 2 de julho de 1984, professou os votos perpétuos. Começou, então, o curso usual de estudos filosóficos e teológicos, mas os seus dons já eram reconhecidos desde cedo, a ponto de ser nomeado assistente do mestre de noviços. Era costume do noviciado começar o dia com um curto período de leitura das Escrituras. Isto proporcionou-lhe a oportunidade de se familiarizar com a Bíblia, especialmente as cartas de São Paulo. Não seria um exagero dizer que ele sabia os escritos de São Paulo praticamente de cor. Em 17 de dezembro de 1898 foi ordenado sacerdote. A comunidade de Buckfast não era rica (e estava longe disso), mas encontrou meios para desenvolver os já reconhecidos dotes intelectuais do pe. Anscar, que foi enviado para Sant’ Anselmo no outono de 1900 para estudar filosofia. As prescrições dos graus acadêmicos eram menos rigorosas do que as que eles tinham, tornando mais ainda uma conquista notável que Anscar conseguisse em um ano obter um doutorado em filosofia com uma tese sobre “O Infinito”. Em 1903 a comunidade de Buckfast estava suficientemente bem estabelecida para se tornar uma casa isolada e o fr. Bonifácio Natter, em sua eleição, foi o primeiro abade de Buckfast restaurado. Dois anos mais tarde o abade Bonifácio cedeu às persistentes solicitações do abade Primaz para que o pe. Anscar fosse a Roma para ensinar na faculdade de filosofia de Santo Anselmo. Não há dúvidas de que seu tempo no Santo Anselmo foi uma das fases mais importantes de sua vida, tanto como estudante quanto como professor. Deve ser lembrado ele havia passado seus anos de formação dentro dos limites de uma interpretação muito rígida do caminho beneditino de vida. Seus contemporâneos deixaram registrados que, em seu fervor monástico, o jovem padre Anscar sustentou que, se São Bento voltasse à terra hoje, ele apontaria para uma casa Trapista e diria: “Esse é o meu mosteiro”. No, entretanto, Santo Anselmo ele conheceu jovens monges de todo o mundo com uma interpretação da Regra bastante diferente da de Buckfast. Ele era um homem grande o suficiente para perceber que o regime de Buckfast, herdado de La Pierre-qui-Vire era apenas uma maneira de viver a forma de vida beneditina e não necessariamente a melhor. Esta compreensão da amplitude do monaquismo mostrou-se também mais tarde, quando ele era abade.

Em 1906 o Abade Bonifácio foi eleito Visitador da província francesa da Congregação de Subiaco. A província francesa tinha algumas casas fora da Europa, uma das quais ficava na Argentina. Dom Bonifácio decidiu fazer uma visita canônica nesta casa no verão de 1906. Ele foi o instrumento para levar Dom Vonier para Buckfast e sempre o teve na mais alta estima. Sentia, portanto, que o pe. Anscar seria o melhor homem para atuar como Assistente das Visitas. Ao mesmo tempo, a viagem daria ao professor algumas férias bem-vindas. Eles se encontraram em Barcelona, em 03 de agosto de 1906 e embarcaram no transatlântico italiano Sírio, que estava levando algumas centenas de emigrantes para a Argentina.

Os detalhes do desastre que ocorreu no dia seguinte, sábado, 4 de agosto, não precisam deter-nos, exceto aqueles que afetaram o pe. Anscar. Em uma tarde perfeitamente calma, com um calmo mar, o Sírio em alta velocidade e à vista da costa bateu num recife submerso. A causa do destrate foi, sem dúvida, um erro de julgamento por parte do capitão. Quando o navio bateu, Dom Bonifácio e pe. Anscar estavam conversando com dois bispos, também em viagem para a Argentina. Pe. Anscar foi enviado até os arcos para cuidar dos passageiros de lá enquanto Dom Bonifácio permaneceu no tronco. Depois de um curto período de tempo a haste rompeu e afundou quase que imediatamente. Os arcos onde o pe. Anscar estava ficaram firmemente presos no recife. Um certo número de barcos de pesca espanhóis tinha sido alertado sobre acidente, do qual foram capazes de resgatar os que estavam nos arcos, entre eles o pe. Anscar. Quase todos aqueles que estavam no tronco morreram, entre eles Dom Bonifácio. Um dos bispos disse mais tarde que tinha
visto o Abade nadando com energia, mas sem conseguir chegar à terra ou até um dos barcos que salvaram os sobreviventes. Pe. Anscar foi primeiro para Dourness, no sul da França, onde existe uma comunidade de monges beneditinos e também uma de freiras. Quando, depois de alguns dias, ficou claro que Dom Bonifácio tinha se afogado, pe. Anscar voltou para Buckfast.

Como sequência dessa tragédia duas pequenas coisas influenciaram o padre, o futuro de Anscar. Uma foi que ele sempre manteve uma espécie de pavor da morte. Ele nunca ficava à vontade com um sacerdote em leito de morte se fosse um dos seus monges ou amigos. O outro ponto é que em sua curta estadia em Dourgne iniciou a amizade com a Abadessa de lá. Ele era naturalmente um homem reticente e raramente deixava seus sentimentos serem conhecidos, mas com a abadessa ele encontrou alguém que pudesse se corresponder com total facilidade e liberdade. É uma sorte que ela manteve um número de suas cartas e como elas nos dão vislumbres de seus pensamentos e sentimentos durante os primeiros anos em que foi abade. Todas elas foram escritas em francês e demonstram seu completo domínio de uma linguagem que talvez não haja igual para expressar delicadeza de pensamento e sentimento.

Na eleição realizada em 14 de setembro, a comunidade elegeu o frei Anscar como seu abade. A benção teve lugar na festa de São Lucas, em 18 de outubro. Fr. Adam Hamilton, que já foi mencionado, encontrou uma série de razões para a escolha desta data, todos baseados no relato de São Lucas do naufrágio com São Paulo. Mas, como Dom Vonier apontou em uma carta para a abadessa de Dourgne, “há apenas um detalhe que não se enquadra com a minha situação: São Lucas chegou à costa com São Paulo, mas eu …”; a sentença é deixada inacabada. A benção abacial passou com pouca atenção e é dada por qualquer pessoa fora da Comunidade e alguns amigos íntimos. Mas pode ser considerada como a conclusão da primeira parte da vida de Dom Anscar, um período de preparação para a tarefa que Deus, em sua providência, lhe tinha destinado a realizar.


Esta é uma tradução rápida de uma palestra feita por Dom Leo Smith, no English Benedictine Congregation History Commission – Symposium 1996.


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