A Ilusão Milenarista

Pe. Penido: Um dos mais preciosos ensinamentos da Encíclica é o concernente à fundação da Igreja. A esse respeito vigoravam, mesmo entre os teólogos, ideias inexatas e até mesmo errôneas. E. Mura, por exemplo… H. Dieckmann… Dom Anscar Vonier abismou-se por completo no erro, chegando até a soçobrar na franca heresia. Para não sermos acusados de calúnia, transcrevemos aqui alguns textos desse autor. (1) “A ideia básica deste livrinho sobre o Mistério da Igreja é a estreita relação que há entre a Igreja na sua constituição essencial, e o mistério da glorificação de Cristo o filho de Deus.” (2) “A Igreja não tem essencialmente relação tão imediata com a morte de Cristo como a tem com o estado glorioso de Cristo.” (3) “Verdadeiramente a Igreja não é outra coisa mais do que uma província no reino da glória do Senhor.” (4) “O conceito da Igreja é idêntico ao conceito de glorificação de Cristo.” (5) “Admitimos como verdade fora de qualquer dúvida que a fundação da Igreja data de Pentecostes.” (6) “A Igreja é em toda a sua essência e existência um ser de glória, como o próprio Cristo.” (Todas essas citações são tiradas da edição brasileira de “O Mistério da Igreja”, às páginas 15, 16, 17, 18, 19, 38.) Rematava, atribuindo erroneamente uma heresia ao Cardeal Manning, para adotá-la em seguida: a heresia da união hipostática entre a Igreja e o Espírito Santo. (Ver acima, no 3.º capítulo [da Parte Segunda], a nota 28 [= 2.º Excerto, acima – N. do T.].)

Já observamos que, em outros livros (incluindo um livro posterior a essa palestra), ele não atribuía nenhuma união hipostática entre a Igreja e o Espírito Santo. Quanto a relação com a glorificação de Cristo, não foi ela seguida da cruz, pressupondo as lutas da Igreja? Alguns dos outros itens são explicados no capítulo “As Grandes Metáforas”. Quanto ao item cinco, já vimos que ele pressupunha que a fundação foi anterior ao pentecostes, apesar de não se excluir a real possibilidade de ou o texto ter sido mal traduzido ou ele realmente ter sido infeliz ao se expressar dessa forma na palestra.

Pe. Penido: Já o excelente eclesiólogo suíço Charles Journet assinalara a obra de Vonier como eivada de ilusão milenarista. (Nova et Vetera, Revue Catholique Pour la Suisse Romande, 1941, p. 327. Ele critica D. Vonier, por ter absorvido a Igreja militante na triunfante; esquecendo-se de que a província da glória de Cristo deve ser precedida pela província da Cruz de Cristo. “Antes da hora da recapitulação nos céus, há a hora da recapitulação no sangue; antes da Igreja da glória de Cristo, há a Igreja da Cruz de Cristo.”)

Um texto já mencionado de D. Vonier: Uma das mais profundas originalidades do cristianismo consiste no seguinte: o seu divino fundador anuncia, como parte da sua mensagem, que a condição normal de seus discípulos será a de sofrer toda a sorte de opressões e de perseguições. Não fosse o otimismo que lhe faz declarar que todo sofrimento conduz à vitória, Cristo poderia ser chamado profeta de desgraças, porque jamais alguém falou do futuro com cores mais sombrias do que ele. […] Outras tribulações, de gênero especial, esperam os seus discípulos e a sua Igreja, precisamente por lhe pertencerem (colocar Jo XV 18-21). Os cristãos serão perseguidos como foi o próprio Cristo. Serão entregues à morte pelos homens que pensarão honrar assim a Deus. Pois não foi o divino Mestre crucificado por terem os sacerdotes da antiga Lei declarado que era blasfemador? […] Os milhares de anos de história da Igreja com todas as narrações de perseguições, comparados com a glória da vida futura, não são realmente mais do que os trinta e três anos da vida mortal de Cristo em estado de humilhação. (A Vitória de Cristo, p. 129)

D. Vonier, no mesmo livro, explica o que quer dizer por Igreja vitoriosa: “Em todos os atos de sua vida, a Igreja Católica manifesta um aspecto da vitória de Cristo: a sua fé, as suas orações, os seus sacramentos, as suas lutas, toda a sua organização, estão a proclamar que o seu chefe é Aquele que destruiu o mal e adquiriu uma glória eterna. Para que ela seja uma Igreja de vitória, não é preciso estar isenta de assaltos externos e que todos os seus filhos sejam santos. Uma só coisa lhe é necessária: deve ser capaz de resistir a todos os adversários exteriores e destruir todos os pecados que se achem nos corações de cada um dos seus membros. Ora, este poder a Igreja sempre o teve; portanto, temos toda a razão de proclamá-la Igreja militante, o que significa Igreja vitoriosa.” (Vitoria de Cristo, 116)

Pe. Penido: Vem agora a Encíclica, com soberana autoridade, dissipar as confusões e pôr em meridiana luz a verdade católica. A Igreja foi formalmente fundada e constituída no Calvário; nasceu do lado do Salvador, qual nova Eva mãe de todos os viventes. (E, 39, 12. – E, 74, 33: “O Corpo Místico de Cristo, nascido do coração rasgado do Salvador.”)

Dom Vonier: Os filhos de Deus não eram um, mas estavam dispersos; Cristo morreu para reuni-los. Jesus não morreu para uma nação: “Mas para reunir em um corpo os filhos de Deus que andavam dispersos” (Jo 11, 52). O que Jesus fez através do mérito de Seu Sangue, o Espírito faz de forma eficaz através da sua presença pentecostal em todo o mundo até o fim dos tempos. (O Espírito Eterno e o Nascimento da Noiva, no livro “O Espírito e a Noiva”)

Pe. Penido: O dia de Pentecostes assinalou, por sua vez, a promulgação e a manifestação externas da Igreja. Se é verdade que o Corpo Místico não pode existir formalmente sem estar animado por sua Alma, o Espírito Santo, é também verdade que já no Calvário “foi a Igreja enriquecida daquela abundantíssima comunicação do Espírito que divinamente a ilustra desde que o Filho do homem foi elevado e glorificado no seu doloroso patíbulo.” (E, 40, 28. – E, 74, 25: “Foi ela (Maria) que com suas eficacíssimas orações, obteve que o Espírito do divino Redentor, já dado na Cruz, fosse depois em dia de Pentecostes conferido com aqueles dons prodigiosos à Igreja recém-nascida.

A MESMA COISA QUE PIO XII DISSE NA ENCÍCLICA: “De fato o divino Redentor começou a fábrica do templo místico da Igreja, quando na sua pregação ensinou os seus mandamentos; concluiu-a quando, glorificado, pendeu na Cruz; manifestou-a enfim e promulgou-a quando mandou sobre os discípulos visivelmente o Espírito paráclito”

Dom Vonier: “Quando dizemos que a Igreja nasceu no dia de Pentecostes, queremos dizer, é claro, que o início de uma vida que é uma vida total, que é toda a nova santidade do cristianismo, surgiu em seguida; não só foram dados sinais externos da presença do Espírito, mas uma santidade interior, a santidade da Igreja, começou sua carreira naquele poderoso dia” (O Espírito Eterno e o Nascimento da Noiva, no livro “O Espírito e a Noiva”)

A propósito: “Com a efusão do Espírito Santo em Pentecostes, nasce na sua vitalidade a Igreja que vai sob a ordem de Nosso Senhor, instituir para os batizados uma liturgia sacramental, compreendendo a oração, a pregação, o ofício divino, a celebração dos mistérios da Cruz e da Eucaristia, que multiplicará rapidamente os bispos, os padres e outras ordens, para a multiplicação e santificação daqueles que creem” (Dom Lefebvre. A Vida Espiritual, p. 88, ed. Permanência).

Pe. Penido: A “Igreja que Cristo adquiriu com seu sangue e cujos membros se gloriam de uma Cabeça coroada de espinhos” (E, 29, 17), essa Igreja não é um ser de glória, mas, como o seu Fundador, um ser “perseguido, caluniado, atormentado por aqueles mesmos a quem veio salvar”. (E, 30, 2.) Entendemos agora por que essa Encíclica sobre a Igreja foi escrita (nem podia deixar de sê-lo) sob o signo da Cruz. […]

Creio não ser mais necessário mostrar o que D. Vonier falou sobre o estado atual da Igreja no livro “A Vitória de Cristo”, escrito um ano depois do “Mistério da Igreja”. Entretanto, ainda é útil mencionar o que ele pensava sobre o Milenarismo:

Dom Vonier, acusado de “ilusão milenarista”, chamando o milenarismo de ilusão: Outra forma de ilusão sobre o grande assunto da segunda vinda de Cristo tem sido mais universal, mais persistente e é, de certo modo, mais desculpável. Essa forma de sonho religioso é mais antiga que os Evangelhos; é a esperança do homem do milênio. Tem sempre sido a fé de certas pessoas pias, cujas almas têm sido afligidas pelas iniquidades mundanas, a de que haveria sobre a terra algum dia um magnificente reino de Deus. Com o advento do cristianismo, Cristo seria, é claro, o Rei dessa feliz era de santidade humana. Não é fácil se opor a essas pessoas e provar que estão erradas quando professam esperança em um grandioso triunfo de Cristo sobre a terra antes da consumação final de todas as coisas. Esse tipo de ocorrência não é excluído, não é impossível, não há certeza de que não possa haver um período prolongado de cristianismo triunfante antes do fim. O ponto de divisão entre as aspirações legítimas de almas devotas e as aberrações de um milenarismo falso é este: os Quialistas – como os milenaristas são chamados, a partir da palavra grega “mil” – parecem esperar uma vinda de Cristo e uma presença de sua glória e majestade sobre a terra que não seria a consumação de todas as coisas, mas uma porção da história da humanidade. Isso, porém, não está consoante com o dogma católico. A vinda de Cristo no segundo advento – a Parúsia, como é chamada tecnicamente –, na cristandade ortodoxa, é a consumação de todas as coisas, o fim da história humana. Se antes desse final há de ter um período, mais ou menos prolongado, de santidade triunfante, isso resultará não da aparição triunfante da Pessoa de Cristo em sua Majestade, mas da operação dos poderes de santificação que estão trabalhando agora: o Santo Espírito e os Sacramentos da Igreja. Os Quialistas de todas as épocas e opiniões, e muitos podem ser encontrados hoje, parecem desesperar não somente do mundo, mas até mesmo da dispensação da graça inaugurada no Pentecoste; eles esperam, a partir da presença visível de Cristo, uma completa conversão do mundo, como se um resultado feliz não se fizesse de outra forma. Ainda têm de aprender o significado destas palavras de Cristo aos Apóstolos: “Santifica-os pela verdade. A tua palavra é a verdade.” A Igreja Católica tem plena confiança na presente ordem da vida sobrenatural, e se ela anseia o retorno de seu Cristo, não é porque desespera do trabalho que lhe foi dado, mas porque deseja ver esse trabalho manifesto a todos os homens, para que se evidenciem as coisas maravilhosas que Cristo realizou aos homens antes de sua ascensão ao céu. (Retirado do livro “Morte e Julgamento”, capítulo que já está disponível).

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