Dom Vonier contra o modernismo

Diante do que foi publicado contra D. Vonier, algumas poucas pessoas passaram a lançar suspeitas de que ele era modernista. Contra isso, basta mencionar os textos em que ele é expressamente contra o modernismo. Duvido que os que lançaram essa suspeita (que nesse caso, até onde eu sei, não foi o autor do blog referido), sejam capazes de escrever em um livro o que D. Vonier escreveu em um parágrafo. Há, inclusive, um capítulo em que ele se dedica especialmente a combater o modernismo, capítulo que será publicado ainda essa semana:

•    “A triste realidade histórica do modernismo forneceu-nos um sistema mais oposto ao catolicismo do que tudo que se possa imaginar. Pode dizer-se que o modernismo é a negação radical de todo o organismo sobrenatural e de todas as riquezas que uma aliança implica e pressupõe. Pois o traço característico duma aliança de Deus com o homem consiste em criar instituições e em fornecer ao homem meios fáceis de santificação e de salvação, os quais devem ser tomados em consideração em toda atividade moral e religiosa dos indivíduos.”

•    “A vida cristã para o modernismo é, pelo contrário, simplesmente uma experiência pessoal, uma experiência vivida, que o indivíduo procura realizar mais e mais. O modernismo não pressupõe nenhum dom de Deus ao homem. Se ele pudesse falar de dons pressupostos, não indicaria senão o subconsciente, que emerge pouco a pouco e se torna consciente. Porquanto o modernismo, súmula de todos os erros, nada tem que ver com as graças sobrenaturais que a consciência não pode conhecer.”

•    “Todavia, pedí ao modernista que faça profissão de fé no sacrifício de Cristo na cruz, como poder de destruição do pecado, e ele mostrará uma irresistível oposição intelectual. Pedí-lhe crer nos sacramentos como instrumentos capazes de santificar eficazmente sem o esforço consciente do homem, e ele vos responderá que não crê em magia. A razão por que as teorias modernistas têm sido mui perigosas para muitos espíritos desprevenidos, é que os adeptos dessa heresia têm quase o fervor duma Santa Teresa ao pregar a sua religião, uma religião individualista e experimental. ”

•    “Assim, o teólogo pode facilmente ceder ao desejo de expor a doutrina da Nova e Eterna aliança para descrever expressamente o oposto, o contrário do modernismo. Pois não há exagero em afirmar que o modernismo contém tudo o que é do catolicismo, com exceção dos elementos que posso chamar as riquezas necessariamente pressupostas duma aliança de Deus com o homem. Nisto o protestantismo difere do modernismo, porquanto ele admite os dons sobrenaturais de Deus. Exagera mesmo um desses dons, pois considera a santidade do cristão como algo puramente extrínseco, uma coisa imputada exteriormente e arbitrariamente predestinada.”

•    “Os modernistas não recusariam admitir o fato da transubstanciação, se esse ato tão oculto pudesse com os progressos da psicologia religiosa tornar-se um fenômeno de ordem experimental. Pois o que eles rejeitam são os dons a priori, que o dogma católico reconhece e proclama, para os quais só têm desprezo e escárnio.”

•    “Encontram-se nos escritos dos modernistas mui belas descrições sobre o Corpo místico de Cristo. A Igreja e os seus membros têm sido exaltados às vezes em seus livros até às nuvens. Tais expansões podem enganar os próprios eleitos, mas uma só palavra que facilmente pode passar despercebida ao leitor desprevenido trai o veneno do modernismo. Esta palavra é: experiência.”

•    “A Redenção, segundo o modernista, “não consiste num ajuste enigmático entre a pobre humanidade e a infinita santidade de Deus: consiste no palpitar do coração de Cristo e no bater dos corações dos homens agradecidos”, Expressar a magnífica generosidade da Redenção em linguagem de escritórios e de comércio é, aos olhos do modernista, façanha de tempos idos cuja mentalidade lhe repugna. O teólogo, por sua vez, pode muito bem propor ao filantropo as seguintes questões: será porventura bom entregar o Filho de Deus à dissecação do psicanalista para que lhe não deixe senão o que podemos compreender? Quanto tempo durará a admiração para uma tal pessoa? Não é verdade ser necessário para o homem ter um Redentor que seja mais que um moralista, mas que mestre, mas que amigo? Que seja uma pessoa transcendente, a Santidade duma aliança entre Deus e o homem? Não se diz, e com razão, que uma geração humana é incapaz de compreender as que a precederam? Que nos não podemos colocar sob o mesmo ponto de vista ou mentalidade dos nossos pais e ainda menos dos nossos antepassados? De tal modo somos absorvidos por nós mesmos que, em todas as épocas, não vemos senão a nós. Se Cristo Redentor não possuísse um elemento transcendente, infinitamente superior à humanidade, não seria ele vítima dos caprichos dos homens que a bel-prazer o fabricariam à sua imagem e semelhança? Não fariam da obra Redentora ora uma coisa ora outra? Em vez do Filho de Deus que, “como relâmpago, parte do oriente e brilha até ao ocidente”, dar-nos-iam um Filho de Deus que para uns estaria no deserto, para outros no recôndito da casa, e seria investido duma missão inteiramente limitada ao sabor do tempo. O teólogo que conserva os augustos e permanentes dogmas da cristologia é ainda o melhor humanista, porque o seu Cristo, se bem que realize grandes obras humanas, permanece sempre maior do que todas as suas ações.”
•    “Segundo os modernistas Cristo teria recebido em dia marcado do curso da sua vida a revelação da sua dignidade de Messias. Eles chamam essa revelação a vocação de Cristo, o seu apelo. Mas esta teoria não tem sentido na teologia católica que afirma ter Jesus Cristo tido sempre e a cada momento consciência da sua divindade, qualquer que tenha sido o modo desse conhecimento”

•    “Para os modernistas a Redenção é só um fato subjetivo. Ela não existe senão no indivíduo, quando realmente mudado e santificado. Mas se os resultados objetivos e universais da Encarnação, há pouco citados, fossem só abstrações e meras ficções intelectuais, ruiria todo o dogma católico.
Reconheço ser difícil empregar nesta matéria termos que não se prestem a equívocos e confusão. O pecador que comete hoje um pecado ofende realmente a Deus. Ele atrai sobre si a cólera de Deus e torna-se escravo de Satanás. Mas todo esse mal, por grande que seja, não é contudo senão o mal dum indivíduo ou de vários indivíduos. Já não há um reino do mal, um reino do pecado, um reino de Satã. Existiam realmente esses reinos das trevas, mas Cristo morrendo na Cruz os destruiu para sempre. O forte entrou na casa do “forte armado”, conforme a comparação do Evangelho, e “tomou-lhe todas as suas armas em que tinha posto a sua confiança”.
“Despojando os principados e as potestades infernais (Cristo) levou-os cativos gloriosamente, triunfando em público deles em si mesmo” (pela cruz) (Co II, 15). Quando os teólogos católicos dizem e repetem ter o Filho de Deus satisfeito completamente, pela sua morte, a justiça divina, eles entendem que essa reparação é o maior resultado objetivo e exterior da Redenção; mas um resultado que paira todo em Deus em ão no homem. Em nossos dias procurou-se humanizar toda a teologia da Redenção. Não se quer ver nela senão as vantagens em proveito dos homens. Tem-se desvirtuado o sentido das grandes frases técnicas da teologia, a fim de que elas signifiquem exclusivamente a conversão moral dos indivíduos. “Que é a Redenção, dizem os modernistas, senão o homem convertido interiormente, espiritualmente, despojado do seu egoísmo? É isto o aplacar a cólera divina, a única libertação real da tirania de Satanás”.
É supérfluo demonstrar que essa ideia arruína e destrói todo o dogma católico. Se a indiquei é para mostrar a que consequências ilógicas pode chegar-se quando alguém recusa admitir como grandes verdades objetivas, solidamente baseadas in natura rerum, os resultados universais da Redenção de Cristo: isto é, a satisfação à Justiça Divina, o apaziguamento da cólera de Deus, a expiação de todos os pecados, a restituição da graça, a destruição do império de Satanás, a vitória sobre a morte, o ingresso no reino da glória. Esses sublimes resultados são evidentemente de vantagens imensas para o homem; não se confundem com a transformação subjetiva e moral dos indivíduos. São eles o tesouro permanente da Nova e Eterna Aliança.”

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