Raiz da heresia?

Colocarei a seguir os trechos escritos pelo pe. Penido, seguidos de afirmações de Dom Vonier sobre o assunto e alguns comentários meus, que estarão em azul.


Acusação: Raiz da heresia, na recusa da quádrupla equação católica entre doutrina da Sagrada Escritura, dos Santos Padres, da Escolástica e do Magistério vivo da Igreja Católica Apostólica Romana.

Texto do pe. Penido: Este ensinamento reveste a maior importância para os teólogos, pois reafirma solenemente(*) a continuidade entre a teologia patrística e a teologia bíblica de um lado, entre a teologia escolástica e a teologia patrística do outro. Sirva também de admoestação aos leigos que se deixaram seduzir pela teologia “arcaizante” de… D. Vonier. Estudemos a patrística, sim, mas para ali descobrir germes fecundos de ulteriores desenvolvimentos, não como expressão “clássica”, definitiva do pensamento cristão, após a qual só houve decadência, regressão, desvirtuamento. […]

O que Dom Vonier escreveu sobre o assunto: Imagino um catolicismo que possa chamar-se verdadeiramente “clássico”, na significação que a palavra clássico tem na literatura e na arte. Clássica é a obra que possui qualidades que não só os técnicos, mas também as multidões julgam essenciais e necessárias, por sublimes e belas que sejam. Assim – para maior clareza e antecipando-me – a habitação do Espírito Santo na Igreja e na alma do justo é uma propriedade essencial do cristianismo. Os católicos devem, pois, conhecer, admirar e apreciar esse dom, do contrário o catolicismo não lhes seria o que deve ser, nem seria clássico. A Igreja tem permanecido eminentemente clássica, sobretudo na sua liturgia. No entanto não se pode dizer o mesmo quanto a todos os seus inúmeros filhos. Pois, se bem que possuam em geral a fé segundo a sua definição, o conhecimento que eles têm da Pessoa e da obra redentora de Cristo é muito desigual e comporta graus infinitos. As verdades de fé não agem com a mesma força nas suas inteligências, vontades e sensibilidades; sobre as suas faculdades. Pode mesmo dizer-se que a inteligência ou compreensão da religião católica é completa ou incompleta, profunda ou superficial, grande ou pequena, segundo os indivíduos e segundo os períodos da história. […] Como foram expressas as mesmas verdades espirituais, em certas épocas, por homens santos e irrepreensíveis sob o ponto de vista da doutrina, nós o sabemos. A leitura das obras católicas forma o ouvido do leitor, de modo que facilmente pode chegar a descobrir as características do estilo antigo e do moderno. Não pretendo demonstrar ter São Leão exposto melhor a verdade que Santo Afonso. O que quero dizer é que ele o fez de maneira muito diferente. É certamente lícito afirmar que nem todas as maneiras de expressar uma doutrina são igualmente boas. Ninguém está obrigado a reconhecer que a linguagem moderna da espiritualidade cristã seja a melhor. Tem-se no entanto o direito de aspirar que os católicos, em grande número, se familiarizem com uma linguagem que seja perfeita.  Não significa isto deprimir a religião das pessoas simples, mas anelar que o nosso catolicismo seja expresso nas suas cerimônias exteriores com a maior beleza e perfeição possíveis; que os católicos, homens e mulheres, ornados com a cultura moderna, estejam unidos aos milhões para manifestar a sua fé, assim como estão unidos para a defesa das causas da vida moderna, tais como as ciências ou o patriotismo. Devo pedir desculpas às pessoas piedosas de parecer em certas páginas deste livro deplorar a influência do puro sentimento e da imaginação na vida cristã. Bem longe de mim desprezar o que chamamos “piedade popular” que é tão útil para agrupar os fiéis. Mas como o meu escopo formal é pôr em evidência as verdades fundamentais, às quais as formas de piedade, mesmo as mais imaginativas e as mais sentimentais, devem o que têm de melhor, pode parecer que eu as censuro, quando de fato não o faço. É mesmo minha obrigação mostrar que a inteligência do crente dá provas do seu vigor quando a sua imaginação pode exercer-se sobre as verdades cristãs sem as prejudicar. (Retirado do livro A Nova e Eterna Aliança, onde, como veremos ser de costume, ele explica o que ele quer dizer com certas expressões)

Em outro capítulo do mesmo livro: “Quando falo aqui da estabilidade dogmática do catolicismo, nela incluo toda a vida moral católica que, sob o ponto de vista prático, pode ser encarada como uma parte do dogma. A propósito, surge a questão se a vida ascética da Igreja considerada como distinta da vida moral, possui igualmente estabilidade. A resposta deve ser afirmativa. Os princípios gerais da doutrina ascética no século quarto – foi nessa época que a ascese católica se tornou um poder espalhado no mundo inteiro e universalmente aceito – são os mesmos de hoje. O mesmo deve dizer-se do que chamamos de vida mística, a vida contemplativa ou de oração da religião católica. Nada mais fácil, com efeito, do que compor um tratado completo de oração, extraído das obras de Santo Agostinho. Seria compreendido com a mesma facilidade com que o são as cartas de São Francisco de Sales sobre a vida devota e mística.[…] Realmente, tem-se a tentação, nos tempos atuais, de duvidar da exatidão dum grande número de livros religiosos escritos, segundo as formas primitivas do catolicismo, por termos sido educados numa atmosfera saturada de devoções particulares. Tornamo-nos assim incapazes de simpatizar com os hábitos da piedade dos tempos passados. Ouso mesmo dizer que o católico do século dezesseis compreendia, provavelmente, melhor o seu irmão do século quinto do que nós compreendemos a ambos. Parece-me terem todas as variações, que sobrevieram à piedade católica, os mesmos limites que tiveram as variações da civilização. Cada civilização tem sua maneira própria de compreender e exprimir a religião; mas esta diferença não toca de modo algum a substância da fé. Que a humanidade, sob o ponto de vista do temperamento, passa por uma sucessão de fases mais ou menos profundas, mais ou menos duráveis, não resta dúvida. O catolicismo não é somente a melhor religião da humanidade: é a única religião dada por Deus à humanidade como raça. Deve pois poder adaptar-se a todos os diversos temperamentos da humanidade. […]O Espírito Santo, pode dizer-se, é o autor das novas formas do sentimento religioso. Ele conhece melhor o homem do que o homem conhece a si mesmo. É o mesmo Espírito na criança e no adulto; mas sob outro aspecto é um espírito muito diferente, porquanto a santidade da criança está bem longe da do homem que já atingiu a maturidade. De modo semelhante, o Espírito é o mesmo em todas as gerações. Ele conhece os homens e dá graças diferentes segundo a diversidade de raças e gerações […] O temperamento, como tudo o que faz parte da natureza humana, é submetido à Providência divina, tanto na ordem natural como na sobrenatural. Em suma, não posso decidir-me a dar grande importância às pretendidas variações na manifestação da piedade no catolicismo. Houve nisto exagero. Atribuíram-lhes proporções que não correspondem aos fatos históricos. O modo romanesco de se escrever hoje a história dá-nos a impressão de se anunciarem gratuitamente novas manifestações do Espírito Santo, como se esse espírito divino tivesse de ser dado duma maneira ainda desconhecida. O nosso tempo sob a influência de numerosa literatura sui generis chegou a julgar-se diferente dos outros tempos, num grau mais profundo do que o é na realidade. Têm-se exagerado demais as devoções e as formas externas de piedade, que nos são próprias. A massa dessa literatura religiosa dá a impressão de que há pouca ou quase nenhuma afinidade entre nós e as gerações dos séculos passados, o que não é verdade. […] Este caso pode servir-nos aqui de exemplo clássico para ilustrar a verdade que defendemos neste capítulo, a saber que a unidade reina na diversidade das manifestações da nossa fé. O que se passa nessas vastas reuniões de fiéis, não é de certo diferente do modo de proceder, mais simples e mais primitivo, das gerações dos primeiros cristãos. Tudo é realizado em maior escala, mas os atos são os mesmos como os que sempre fizeram parte do culto da Igreja católica. […] Os sentimentos do tempo, exprimem-se, eles mesmos, livremente e dum modo original. No entanto a continuidade é absolutamente intacta, não somente quanto a fé, mas no culto essencial, assim como há continuidade nos vários estilos das igrejas e catedrais. Os poderosos movimentos que operam de modo mais direto sobre os órgãos executivos da Igreja não fazem exceção à lei da unidade na variedade. O fato de serem criadas novas ordens religiosas não significa que tenha aparecido um novo ideal religiosa. Não pode haver novidade, novitas, na Igreja. Quem diz novidades, diz heresia na linguagem eclesiástica. Os Inovadores são os hereges que têm com as suas dissensões e revoltas afligido a Igreja. […] As diferenças acidentas das ordens religiosas, de todos os tempos, como que desaparecem quando comparadas com o acordo que há entre elas, quanto aos pontos essenciais. […]É isto de certo um fenômeno surpreendente, quando nos lembramos que na história profana mal se pode encontrar a continuidade dum ideal. A onda da santidade católica correm sem interrupção através dos séculos. Cometeríamos, pois, uma grave injustiça para com a nossa fé, se recusássemos atribuir aos homens doutros tempos as grandezas e os esplendores da vida sobrenatural, por ser a maneira de pensar e de amar diferente da nossa nalguns pontos acidentais. Devemos igualmente lembrar-nos de que, segundo as disposições da Providência divina, as gerações cristãs do passado não desfrutavam esses dons naturais, essas vantagens materiais que tanto têm contribuído para o encanto e esplendor do culto nos últimos tempos.”

Ou seja: Dom Vonier não critica o modo atual católico a despeito do clássico, mas defende o clássico aos que o ignoram e o rejeitam por causa do modo atual (ou outros modos que surgiram), e defende mostrando a unidade essencial deles apesar dos acidentes.

Segundo as próprias palavras de D. Vonier, por “clássico” ele não entende algo “após a qual só houve decadência, regressão, desvirtuamento”, mas algo “que possui qualidades que não só os técnicos, mas também as multidões julgam essenciais e necessárias, por sublimes e belas que sejam”.

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