Sentido ortodoxo das metáforas em eclesiologia

Só o fato de tratar como metáforas já seria possível responder boa parte das acusações, apesar de tudo o que já foi demonstrado:

Pe. Penido: Antes de mais, poderíamos repetir aqui o que acima levamos dito [cf. OCM, Cap. VI, p. 159-167 – N. do T.] sobre o valor das metáforas “Corpo” e “Cabeça”, porquanto qualificar de “Alma” ao Espírito Paráclito, é usar de metáfora. […]

Dom Vonier: “Logo os cristãos irão abandonar totalmente a forma antiga para a nova, cuja conduta significará sua separação da sinagoga, suas perseguições, serem selados com a marca de fogo de Cristo na fornalha da tribulação. Em sua primeira epístola aos coríntios, São Paulo, como sabemos faz uso capital da grande metáfora do Corpo de Cristo, a fim de trazer à tona a unidade dos cristãos, apesar da diversidade dos dons. Esta é para ela a ocasião de revelar-nos o papel peculiar do Espírito Pentecostal em trazer esse elemento exclusivamente cristão: a unidade de todos em um só Corpo. É através do Espírito que somos feitos um.” (O Eterno Espírito e o Nascimento da Noiva)

Referindo-se ao “Corpo de Cristo”, “Noiva”, “Coluna e Sustentáculo da Verdade” e “Templo de Deus” (Capítulo que por si já bastaria para demonstrar que ele se referia a metáforas ao falar da Igreja e encerrar a questão a respeito do “pancristismo”): “As grandes metáforas da Noiva do Cordeiro, do Corpo de Cristo e do Templo de Deus, que de comum acordo são as metáforas que descrevem- definida na, foram produtos das mentes inspiradas dos Apóstolos quando a Igreja já tinha uma história, ou melhor, quando ela sequer tinha passado por sua primeira perseguição e estava aguardando novas hostilidades de seus inimigos. […] Quando, portanto, ele falou de Cristo como sendo Cabeça sobre toda a Igreja, e quando chamou a Igreja, Corpo de Cristo, ele foi facilmente compreendido; a metáfora entrou na vida diária de seus ouvintes […] As metáforas, em seguida, pressupõem, na literatura apostólica, uma realidade bem conhecida, algo tão caro e definido que poderia ser expresso figurativamente, sem prejuízo para a sua perfeição constitucional. […] Seria fácil trabalhar mais completamente o completo significado dessas metáforas; os Padres e outros pregadores não deixaram maravilhosas ampliações das ideias originais. Mas como todas as metáforas, seu poder está em sua própria simplicidade. Quando nos dizem que a Igreja é o Corpo de Cristo glorificado, que ela é a noiva de Cristo, quase não precisamos de mais nada. Sabemos que nada mais pode ser dito, pois o ponto de suprema intimidade foi atingido. Percebemos que tudo o que a teologia pode dizer em linguagem mais precisa não será mais profunda ou mais santa do que o conteúdo da metáfora. […] Mas as metáforas de que falamos aqui cobrem toda a definição da Igreja; na verdade, elas são mais vastas do que qualquer definição possível. […] Mas é óbvio que esses símbolos devem ser aplicados à Igreja no tempo presente; não excluímos a Igreja glorificada do círculo da imagem; uma e a mesma figura nos dá a Igreja em seus vários estados, o estado de luta e o estado de glória. É por isso que a Igreja é tão bela; ela é realmente o forte Corpo de Cristo, […]” (O Espírito e a Noiva, no capítulo “As Grandes Metáforas”)

Pe. Penido: Bem claro fique, por conseguinte, que não deve ser a analogia interpretada em sentido entitativo, senão em seu valor dinâmico. Nossa alma ao corpo substancialmente se junta, para com ele formar uma só pessoa humana: interpretássemos entitativamente a comparação, e teríamos que o Espírito Santo uniu-se substancialmente ao Corpo Místico para com ele constituir uma só pessoa ou hipóstase divina. Erro panteístico idêntico àquele que asseverou a união hipostática entre Cristo e seu Corpo Místico; erro já condenado pela Encíclica. Vimos anteriormente que D. Vonier incidiu nesse erro ao afirmar expressamente a união hipostática entre o Espírito e a Igreja [Já foi provado que ele não afirmou isso expressamente. Pelo contrário, ele afirmou claramente ser metáfora]. Já se precavera contra tamanho desacerto o grande D. Marmion, escrevendo: “Quando dizemos que o Espírito Santo é a Alma da Igreja, não entendemos evidentemente que ela é a “forma” da Igreja como a alma é em nós a “forma” (substancial) do corpo. Sob esse ponto de vista, seria teologicamente mais acertado dizer que a Alma da Igreja é a graça santificante, com as virtudes infusas que lhe servem de obrigatório cortejo; com efeito, a graça é o princípio da vida sobrenatural que faz viver duma vida divina os membros da Igreja.” Le Christ Vie de l’Âme [Cristo, Vida da Alma], p. 186. […].) Levemos pois a comparação ao plano dinâmico; passemos da ordem do ser à ordem da operação, e digamos que o Espírito Santo exerce, no Corpo Místico, uma atividade semelhante à que desempenha a alma, no corpo humano.

Dom Vonier afirmando a ordem da operação: “O Espírito Santo nos conserva tudo o que Nosso Senhor fez, tudo o que Ele disse. É pelo Espírito Santo que nós temos a presença real de Cristo na Eucaristia; não uma presença exclusivamente espiritual, isto é, um simples pensamento do espírito, uma lembrança, conforme o sentir protestante. Mas é pelo poder do espírito Santo que se dá, segundo a linguagem universal da tradição cristã, a maravilhosa transubstanciação do pão no Corpo, e do vinho no Sangue de Jesus Cristo.”

Texto também já mencionado antes por D. Vonier: “Pois a característica, desta epifania do Paráclito, começada no dia de Pentecostes, consiste nisto, que o Espirito Santo fala e age ostensivamente e que as suas obras são visíveis.”

Em outra parte D. Vonier diz: “Encontramos nos Atos a história das manifestações e das operações do Espírito Santo, e nada nos impede de considerar esta história como o quadro da situação normal da Igreja de Jesus Cristo.”

Pe. Penido: Deixamos ao leitor a tarefa agradável de vivificar o que aqui é dito abstratamente, pela leitura dos “Atos dos Apóstolos”, o livro do Espírito Santo no qual concretamente se lhe descreve a ação na Igreja. […]

Dom Vonier: “Estas considerações aumentam consideravelmente a importância teológica do livro dos Atos dos Apóstolos, que é de fato o Evangelho do Espírito Santo, assim como as narrações dos quatro evangelistas são o Evangelho do Verbo Encarnado. Encontramos nos Atos a história das manifestações e das operações do Espírito Santo, e nada nos impede de considerar esta história como o quadro da situação normal da Igreja de Jesus Cristo.”

Portanto, nada mais injusto do que considerar que Dom Vonier não tinha isso tudo como metáfora. Nota-se, aliás, que em muitas acusações D. Vonier, ironicamente, possuía o mesmo pensamento do pe. Penido.

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