O Lado Oposto – Dom Anscar Vonier

Para definir com maior clareza a posição intelectual do catolicismo, os teólogos têm muita vez percorrido a um processo muito simples: imaginam o erro oposto ao dogma de modo a pôr em relevo a verdade em face do erro contrário. Mas uma tal ficção torna-se inútil quando se trata da Nova e Eterna Aliança.

A triste realidade histórica do modernismo forneceu-nos um sistema mais oposto ao catolicismo do que tudo que se possa imaginar. Pode dizer-se que o modernismo é a negação radical de todo o organismo sobrenatural e de todas as riquezas que uma aliança implica e pressupõe. Pois o traço característico duma aliança de Deus com o homem consiste em criar instituições e em fornecer ao homem meios fáceis de santificação e de salvação, os quais devem ser tomados em consideração em toda atividade moral e religiosa dos indivíduos.

A vida cristã para o modernismo é, pelo contrário, simplesmente uma experiência pessoal, uma experiência vivida, que o indivíduo procura realizar mais e mais. O modernismo não pressupõe nenhum dom de Deus ao homem. Se ele pudesse falar de dons pressupostos, não indicaria senão o subconsciente, que emerge pouco a pouco e se torna consciente. Porquanto o modernismo, súmula de todos os erros, nada tem que ver com as graças sobrenaturais que a consciência não pode conhecer.

Os modernistas moderados não rejeitam os fatos históricos; mas para eles a religião consiste muito mais na interpretação intelectual que cada indivíduo dá a esses fatos do que nos próprios fatos. Os modernistas rígidos ou extremistas, porém, rejeitam mesmo os fatos históricos como inúteis. O que exigem, como necessário, é poder passar da obscuridade do subconsciente à luz da consciência. Todos eles, extremistas ou moderados, repelem os artigos da fé católica que afirmam a importância e a necessidade dos dons sobrenaturais, inacessíveis à consciência e à experiência íntima.

Esses dons estão, aos olhos dos modernistas, fora da psicologia e não têm nenhum valor espiritual ou religioso, ainda que admitam a sua realidade objetiva. Para eles, um homem não pode ser religioso, crendo na Redenção, se não sentir interiormente ter sido resgatado. Desprezam as orações dirigidas a Deus para obter graças sobrenaturais que não podem ser conhecidas pela consciência. No entanto, é surpreendente ver até que grau o modernista, no domínio da consciência, copia o católico. Adota quase inteiramente a doutrina católica sobre a oração mental. Apropria-se de todas as riquezas do misticismo católico. Todas as experiências dos nossos santos são para ele como uma espécie de sorte-grande: é a experiência o seu forte.

Todavia, pedí ao modernista que faça profissão de fé no sacrifício de Cristo na cruz, como poder de destruição do pecado, e ele mostrará uma irresistível oposição intelectual. Pedí-lhe crer nos sacramentos como instrumentos capazes de santificar eficazmente sem o esforço consciente do homem, e ele vos responderá que não crê em magia. A razão por que as teorias modernistas têm sido mui perigosas para muitos espíritos desprevenidos, é que os adeptos dessa heresia têm quase o fervor duma Santa Teresa ao pregar a sua religião, uma religião individualista e experimental. Falam do reino de Deus nas almas com tais expressões que um Santo Inácio de Loiola não poderia superá-los neste ponto. Mas ignoram o reino de Deus exterior, o qual não depende dos esforços e das experiências religiosas do homem.

Assim, o teólogo pode facilmente ceder ao desejo de expor a doutrina da Nova e Eterna aliança para descrever expressamente o oposto, o contrário do modernismo. Pois não há exagero em afirmar que o modernismo contém tudo o que é do catolicismo, com exceção dos elementos que posso chamar as riquezas necessariamente pressupostas duma aliança de Deus com o homem. Nisto o protestantismo difere do modernismo, porquanto ele admite os dons sobrenaturais de Deus. Exagera mesmo um desses dons, pois considera a santidade do cristão como algo puramente extrínseco, uma coisa imputada exteriormente e arbitrariamente predestinada.

No entanto não podemos dizer que o modernismo, rejeitando tudo o que não é ato da experiência, se tenha tornado adversário do protestantismo. Com efeito, a fé religiosa conforme Lutero é essencialmente um sentimento, um movimento do coração. O modernismo levou ao extremo essa ideia falsa da fé. Toda doutrina que faz a religião depender da experiência e que está disposta a admitir todos os fenômenos religiosos, contanto que eles sejam percebidos pela consciência, não é, pode dizer-se, alheia ao modernismo

Os modernistas não recusariam admitir o fato da transubstanciação, se esse ato tão oculto pudesse com os progressos da psicologia religiosa tornar-se um fenômeno de ordem experimental. Pois o que eles rejeitam são os dons a priori, que o dogma católico reconhece e proclama, para os quais só têm desprezo e escárneo.

Não é fácil num livro como este evitarem-se todas as expressões que dele desejaríamos afastadas. Assim não me agrada a palavra – institucional – aplicada à religião. Contudo evita-la seria um preconceito inútil, já que é constantemente empregada hoje em dia pelos teólogos. Procuramos pois dela tirar o maior proveito.

Os modernistas não são necessariamente inimigos duma religião institucional, se tomarmos esta expressão em sentido lato. Pode um modernista seguir todo o sistema filosófico da sua doutrina e achar ainda lugar para uma religião institucional. As experiências religiosas, que são o único credo do modernista, podem ser habilmente organizadas e tornar-se de fato uma instituição, uma sociedade espiritual, uma ecclesia, contanto que as suas respectivas experiências sejam concordes na prática.

Encontram-se nos escritos dos modernistas mui belas descrições sobre o Corpo místico de Cristo. A Igreja e os seus membros têm sido exaltados às vezes em seus livros até às nuvens. Tais expansões podem enganar os próprios eleitos, mas uma só palavra que facilmente pode passar despercebida ao leitor desprevenido trai o veneno do modernismo. Esta palavra é: experiência.

Os verdadeiros inimigos da religião institucional são os puritanos e os não-conformistas, (1) para os quais a única religião que tem valor é a religião individua. Para eles, uma instituição não é nem um auxílio para o sentimento religioso, nem um resultado deste sentimento.

O modernista não vai tão longe. Acerca dele poderíamos mesmo dizer o contrário. É possível que alguns modernistas em momento de descuido tenham denunciado e condenado a religião institucional, mas entendem com isso uma religião não-experimental, porquanto eles não recusariam recitar todo o símbolo duma Igreja: una, sancta, apostólica, dando a esta fórmula a significação duma vasta experiência religiosa coletiva.

Mas vê-se logo que uma tal religião é uma caricatura da verdadeira instituída por Deus, da religião da Nova e Eterna Aliança. Realmente, a religião verdadeira não somente vai além da ordem dos fenômenos da experiência, como também da ordem dos fatos individuais. Além da ordem dos atos humanos. Ela é maior que todo o gênero humano. Possui riquezas que excedem tudo o que o homem pode sentir ou produzir. Ela é organizada, mas não à maneira duma associação ou liga de homens que se agrupam para dirigir os seus sentimentos e interesses religiosos como se administra um capital. O modernismo, como vimos, admitiria uma tal instituição.

A verdadeira religião institucional possui uma organização criada por Deus mesmo. Ela se impõe ao homem. Não depende da escolha dos homens, mas se eleva diante deles como uma autoridade superior, como uma autoridade celeste: apresenta-lhes leis, ministra-lhes meios de santificação, facilita-lhes a salvação eterna. Os órgãos administrativos dessa religião foram instituídos por Deus antes de quaisquer conselhos e deliberações dos sábios.

A organização não é a mesma coisa que instituição. Esta prevalece sobre aquela que é somente um dos seus resultado. Tomada neste sentido, é a religião institucional da Nova Aliança uma coisa distinta e bem definida. Pode-se aceita-la ou não: mas sabe-se o que se aceita ou o que se rejeita. Contra esta Igreja de instituição divina, milhares de pregadores do erro têm do alto da cátedra da heresia feito ecoar a voz condenando-a como potência do mal, como veneno destruidor de toda a verdadeira religião; mas em vão.

Como os modernistas, que o são ex-professo, os adversários da religião institucional tornaram-se campeões do misticismo que eles declaram incompatível com toda organização religiosa. Eles têm também procurado apossar-se da maior parte das riquezas espirituais da vida católica pessoal. A grande admiração que têm a um São Francisco de Assis contrasta com o ódio que manifestam contra os papas de todos os tempos. Chamam de mártires aqueles que foram registrados na história da Igreja como maus católicos, insubmissos, revoltosos. Gostariam de ler os Evangelhos somente à luz da emancipação do homem e ver no próprio Cristo o herói duma insurreição contra o jugo de toda religião institucional. Tanto mais se entusiasmam com o Cristo que imaginam, quanto maior aversão têm a todo o liame imposto ao espírito do homem.

Hoje em dia forja-se um Cristo que, simples revolucionário, procura destruir a religião instituída, e ignora-se o verdadeiro Cristo, o Filho de Deus, que veio ao mundo edificar uma mansão espiritual sobre bases bem sólidas e para ser, Ele mesmo, a aliança perfeita e permanente de Deus com o homem. Os próprios católicos devem estar para ser, Ele mesmo, a aliança perfeita e permanente de Cristo não se torne para eles uma força negativa em vez dum poder positivo e criador.

Jesus Cristo não só combateu os fariseus e os sacerdotes da lei mosaica, mas é Ele uma Pessoa divina, uma Pessoa infinita que afirma e cria. E o Evangelho não é apenas uma descrição mórbida do antagonismo pessoal entre Cristo e os seus inimigos. Existe realmente esse antagonismo no Evangelho, mas não é isto absolutamente a razão de ser da narração sagrada. Encaremos pois as coisas nas suas justas proporções e compreenderemos que mesmo sob o ponto de vista histórico há muito mais amor do que ódio acerca da Personalidade divina de Cristo.

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