A unidade na variedade

Mais um texto em que se prova que Dom Vonier não critica o modo atual católico a despeito do clássico, mas defende o clássico aos que o ignoram e o rejeitam por causa do modo atual (ou outros modos que surgiram), e defende mostrando a unidade essencial deles apesar dos acidentes.


 

Para tratar lealmente o meu grande tema, a Nova Aliança, não devo negligenciar os fatos que parecem contradizer a minha tese principal. Vejamos pois se os elementos essenciais e permanentes do catolicismo, os elementos clássicos, que tanto aprecio, não sofreram no decorrer do tempo deformações introduzidas, não pelos hereges, mas pelos próprios católicos piedosos.

Tanto o teólogo como o historiador estudam, cada um sob o seu ponto de vista, as várias manifestações exteriores da fé católica através dos tempos. Talvez nenhuma questão, em nossos dias, tenha sido objeto de maior atenção dos críticos da evolução religiosa do que as modificações aparentes do culto e da piedade na Igreja católica. Muitos volumes têm sido escritos sobre este assunto, e poderiam escrever-se ainda muitos outros.

Se ouso tratar da matéria nesse capítulo do nosso estudo, não é que eu tenha, evidentemente, a pretensão de fazer uma exposição completa de todas as diferentes manifestações da devoção no seio do catolicismo imutável. O que posso tentar aqui é expor alguns princípios que permitirão ao leitor ver essas modificações na sua verdadeira perspectiva e nas suas justas proporções. A tese principal dessa obra antes requer que se mostre ter havido, de fato, poucas variações, do que elas enumerar exemplos.

Pertence ao espírito de discernimento inato no catolicismo, não ligar senão uma importância relativa aos fenômenos, que são evidentemente fruto do tempo, e dar máxima importância aos que são fruto do pensamento e da doutrina. Nem todos têm no mesmo grau o dom de discernir essas duas causas de mudança: o tempo e o pensamento.

Notam-se na fé católica duas espécies de mudança: (1) há o desenvolvimento do dogma; (2) as variações de temperamento, de sentimento ou, se preferem, de imaginação, na piedade.

Não é preciso analisar aqui de modo mais extenso as “modificações” do dogma. Emprego de propósito o termo modificação para indicar, de maneira vaga, qualquer acréscimo que tenha sobrevindo às verdades reveladas ou dogmáticas. O catolicismo, quanto ao desenvolvimento do dogma, anda a passo lento. Neste sentido tem feito realmente pouco progresso. As mudanças de temperamento religioso, porém, parecem às vezes fazer prodígios e exceder em extremo ao desenvolvimento do dogma.

A estabilidade dogmática tem como contrapeso a estabilidade litúrgica nas formas do culto instituídas realmente pela Igreja. São de fato relativamente insignificantes as mudanças introduzidas na liturgia. A missa romana de hoje pouco difere, em suma, da missa romana dos primeiros séculos*. Há mais de mil anos que ela não sofre alterações. E no oriente a Liturgia tem sido ainda mais estável. Mas, quanto ao temperamento religioso, tem-se dado o contrário. Enorme tem sido a mudança durante esse espaço de tempo.

A Liturgia da Igreja é a expressão prática do dogma. Ela segue portanto os movimentos do dogma e não os do temperamento. A missa latina contém o mistério divino do sacrifício Eucarístico e toda uma doutrina de vida cristã. Ela satisfaz plenamente o monge do século nono, ao cavaleiro das cruzadas, ao fervoroso franciscano do século treze, ao cientista do século quinze, ao clero do concílio de Trento, ao campeão da fé no século dezesseis e ao missionário do século vinte. Um tal fenômeno é bastante para nos impedir a dar demasiada importância às pretendidas variações da piedade católica.

O temperamento intelectual do catolicismo permaneceu praticamente o mesmo. É ele inalterável. A prova disto é que todos os dias mestres e alunos das nossas escolas de teologia manuseiam as obras doutrinárias católicas de todos os períodos da história com grande facilidade e perfeita compreensão. Sentimo-nos bem com os Escolásticos. Não nos parece estranha nenhuma das suas dissertações. Se não aceitamos todas as suas conclusões, ao menos compreendemos muito bem a maneira de ver deles. Os nossos espíritos são essencialmente irmanados. Mesmo quando a ingenuidade daqueles tempos nos faz rir, nós nos assemelhamos aos que riem ouvindo as garrulices dos irmãos menores.

É notável a época dos Santos Padres pelo frescor de pensamento, ainda hoje de inesgotável encanto para nós. Quando pois dizemos ter havido mudanças de temperamento no catolicismo, não queremos com isso significar que houvesse mudanças de interesse intelectual. Pode asseverar-se portanto que as preocupações intelectuais do catolicismo têm sido as mesmas em todos os tempos.

Quando falo aqui da estabilidade dogmática do catolicismo, nela incluo toda a vida moral católica que, sob o ponto de vista prático, pode ser encarada como uma parte do dogma. A propósito, surge a questão se a vida ascética da Igreja considerada como distinta da vida moral, possui igualmente estabilidade. A resposta deve ser afirmativa. Os princípios gerais da doutrina ascética no século quarto – foi nessa época que a ascese católica se tornou um poder espalhado no mundo inteiro e universalmente aceito – são os mesmos de hoje. O mesmo deve dizer-se do que chamamos de vida mística, a vida contemplativa ou de oração da religião católica. Nada mais fácil, com efeito, do que compor um tratado completo de oração, extraído das obras de Santo Agostinho. Seria compreendido com a mesma facilidade com que o são as cartas de São Francisco de Sales sobre a vida devota e mística.

Onde estão pois as variações das formas exteriores do catolicismo? Como diferiram as gerações católicas umas das outras? O que acabamos de expor mostra que essas diferenciações não são profundas. Entretanto, existem certas diferenciações, é fato histórico. Dirão talvez que a maior parte dessas mudanças sobrevieram principalmente nas devoções católicas que têm sofrido variações em certas épocas: ora domina uma forma de devoção, ora outra. Esta explicação no entanto é incompleta, não satisfaz plenamente.

Em muitos séculos da história do catolicismo não havia as devoções como as entendemos hoje, e nem por isso a fisionomia religiosa de cada um desses séculos era a mesma. Assim, dificilmente podemos dizer que houvesse uma devoção especial no século quarto, como também no onze e no dezesseis. Entretanto o temperamento religioso dessas épocas foi bem diferente. Seria mais verdadeiro o dizer que a décima nona centúria foi o século das devoções, no sentido mais restrito da palavra, e que é nisto que consiste o seu temperamento particular.

Realmente, tem-se a tentação, nos tempos atuais, de duvidar da exatidão dum grande número de livros religiosos escritos, segundo as formas primitivas do catolicismo, por termos sido educados numa atmosfera saturada de devoções particulares. Tornamo-nos assim incapazes de simpatizar com os hábitos da piedade dos tempos passados. Ouso mesmo dizer que o católico do século dezesseis compreendia, provavelmente, melhor o seu irmão do século quinto do que nós compreendemos a ambos.

Parece-me terem todas as variações, que sobrevieram à piedade católica, os mesmos limites que tiveram as variações da civilização. Cada civilização tem sua maneira própria de compreender e exprimir a religião; mas esta diferença não toca de modo algum a substância da fé. Que a humanidade, sob o ponto de vista do temperamento, passa por uma sucessão de fases mais ou menos profundas, mais ou menos duráveis, não resta dúvida.

O catolicismo não é somente a melhor religião da humanidade: é a única religião dada por Deus à humanidade como raça. Deve pois poder adaptar-se a todos os diversos temperamentos da humanidade. É necessário que essa religião apresente algo de novo, já que os homens das diferente épocas não têm sempre o mesmo temperamento. Mas, do mesmo modo que a natureza humana não muda, apesar da diferença de civilização, assim também o catolicismo permanece sempre o mesmo a despeito das variações que possa sofrer na sua manifestação exterior.

O Espírito Santo, pode dizer-se, é o autor das novas formas do sentimento religioso. Ele conhece melhor o homem do que o homem conhece a si mesmo. É o mesmo Espírito na criança e no adulto; mas sob outro aspecto é um espírito muito diferente, porquanto a santidade da criança está bem longe da do homem que já atingiu a maturidade. De modo semelhante, o Espírito é o mesmo em todas as gerações. Ele conhece os homens e dá graças diferentes segundo a diversidade de raças e gerações:

“O espírito de inteligência… (é) benigno, estável, constante, seguro, tudo pode, tudo vê e encerra em si todos os espíritos, inteligente, puro, sutil”. (Sab. VII, 22-23).

O temperamento, como tudo o que faz parte da natureza humana, é submetido à Providência divina, tanto na ordem natural como na sobrenatural.

Em suma, não posso decidir-me a dar grande importância às pretendidas variações na manifestação da piedade no catolicismo. Houve nisto exagero. Atribuíram-lhes proporções que não correspondem aos fatos históricos. O modo romanesco de se escrever hoje a história dá-nos a impressão de se anunciarem gratuitamente novas manifestações do Espírito Santo, como se esse espírito divino tivesse de ser dado duma maneira ainda desconhecida. O nosso tempo sob a influência de numerosa literatura sui generis chegou a julgar-se diferente dos outros tempos, num grau mais profundo do que o é na realidade. Têm-se exagerado demais as devoções e as formas externas de piedade, que nos são próprias. A massa dessa literatura religiosa dá a impressão de que há pouca ou quase nenhuma afinidade entre nós e as gerações dos séculos passados, o que não é verdade.

A mais notável inovação dos tempos modernos, quanto a expressão exterior da fé católica, aparece sem dúvida no culto da santa Eucaristia. Esta inovação é sobremaneira interessante por ser a Eucaristia o dom mais permanente da Nova Aliança que Deus fez com o homem. Tomemos como exemplo bem conhecido a instituição – já pode ser encarada como tal – dos Congressos Eucarísticos, realizados com grande esplendor, em geral de dois em dois anos, numa das grandes cidades do globo. Poderia parecer não ter a atitude, relativa à Eucaristia, dos católicos, digamos do século quinto, ponto algum de semelhança com as festas eucarísticas dos Congressos de Chicago ou de Buenos Aires.

Este caso pode servir-nos aqui de exemplo clássico para ilustrar a verdade que defendemos neste capítulo, a saber que a unidade reina na diversidade das manifestações da nossa fé. O que se passa nessas vastas reuniões de fiéis, não é de certo diferente do modo de proceder, mais simples e mais primitivo, das gerações dos primeiros cristãos. Tudo é realizado em maior escala, mas os atos são os mesmos como os que sempre fizeram parte do culto da Igreja católica.

Quando se trata da expressão exterior duma crença religiosa, é de bom aviso aceitar implicitamente certos axiomas da filosofia imutável da humanidade. Eis um deles: Plus aut minus nont mutat substantiam rei – (o mais ou o menos não muda natureza duma coisa). As grandes dimensões dadas a um ato não mudam a natureza essencial e permanente desse ato. Se uma tragédia grega é perfeita na sua interpretação e no seu conjunto, podem variar o número dos atores e o esplendor do teatro, ela não deixa de ser perfeita por ser apresentada em condições mais restritas e de menos esplendor. Outro exemplo: a paixão de Nosso Senhor pode ser representada d modo muito belo por alguns membros duma sociedade pia, mas isto não nos impede de admirar a maravilhosa interpretação que lhe dá toda a população crente das montanhas de Oberammergau, na Baviera.

No dia em que a Igreja fez a elevação do Corpo e do Sangue de Nosso Senhor no sacrifício da missa, para adoração dos fiéis, ela admitiu em princípio e em doutrina a procissão da festa do Corpo de Deus pelas ruas das cidades mais ricas do mundo. Toda a substância do culto já se acha na elevação das sagradas espécies durante a missa, mesmo na pequena elevação. O que foi feito depois, no decorrer dos séculos, a respeito do culto da Eucaristia, é só uma questão de mais ou de menos, plus aut minus.

A civilização da época põe em obra os seus próprios recursos: a imaginação religiosa, o humanitarismo. Os sentimentos do tempo, exprimem-se, eles mesmos, livremente e dum modo original. No entanto a continuidade é absolutamente intacta, não somente quanto a fé, mas no culto essencial, assim como há continuidade nos vários estilos das igrejas e catedrais.

Os poderosos movimentos que operam de modo mais direto sobre os órgãos executivos da Igreja não fazem exceção à lei da unidade na variedade. O fato de serem criadas novas ordens religiosas não significa que tenha aparecido um novo ideal religiosa. Não pode haver novidade, novitas, na Igreja. Quem diz novidades, diz heresia na linguagem eclesiástica. Os Inovadores são os hereges que têm com as suas dissensões e revoltas afligido a Igreja. Na Inglaterra o protestantismo no século dezesseis foi comumente chamado nova ciência. Não é um novo ideal que causa uma renovação católica, mas Deus suscita novos homens que abraçam com um novo fervor e entusiasmo um ideal já existente. É bem significativo, sob esse ponto de vista, que no momento da contra-reforma católica fosse o grito universal: “Que se volte ao fervor dos primeiros tempos! Ao ideal dos fundadores das ordens religiosas!”

As obras doutrinais publicadas por esses institutos religiosos são maravilhosamente intermutáveis (interchangeable, em inglês). Há nelas uma comunidade de pensamento e de vida, de ação e de programa, que surpreenderia o crítico superficial. As diferenças acidentas das ordens religiosas, de todos os tempos, como que desaparecem quando comparadas com o acordo que há entre elas, quanto aos pontos essenciais. Acontece produzirem-se numa congregação ou família religiosa mudanças que um observador poderia, de passagem, julgar consideráveis. É que o instituto se adaptara à civilização do país em que vive ou à daquele donde viera. Muitos religiosos são filhos do seu tempo. No entanto, a despeito da distância de vários séculos, é perfeita a semelhança de pensamento relativo aos verdadeiros princípios da vida espiritual entre aqueles que professam um estado de vida cristã mais perfeito.

A paixão moderna pela teoria da evolução obriga o historiador católico a ser duplamente cauteloso, se não quiser, quando estuda os fatos, ser vítima dos preconceitos em voga. A palavra evolução de modo algum pode ser aplicada ao catolicismo, porquanto ela tomou finalmente a significação de transformismo que não tem sentido quando se trata da fé. É a fé completa, e sempre o foi, não precisa portanto de nenhum aperfeiçoamento, venha de onde vier, seja de dentro ou de fora.

Devemos dar outro nome às variações superficiais que admitimos no catolicismo. Chamemo-las, na linguagem de São Paulo, diversidade de dons ou graças, se bem que este termo indique claramente uma categoria determinada de dons sobrenaturais. Aliás São Paulo pode ser considerado como a personificação do gênio da fé que às vezes parece flutuar na superfície das coisas e se espalhar em fantasias e sentimentalismos frouxos e passageiros para voltar, como as ondas do mar, às suas profundezas nativas:

“Fiz-me fraco com os fracos, para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, afim de salvar a todos” (I Co. IX, 22).

Quando se estuda com maior atenção a vida cristã, de todas as gerações, através dos séculos, fica-se cada vez mais convencido de ter a Igreja cumprido maravilhosamente, em todos os tempos, a sua grande missão pessoal, e satisfeito de modo cabal o seu ministério. Realizou o que lhe era possível fazer em cada época.

A Igreja teve sempre uma percepção admiravelmente clara acerca das necessidades vitais do cristianismo. Ela deu sobretudo grande desenvolvimento à ciência teológica relativa a Cristo. Derramou uma luz mais intensa sobre os Sacramentos, tornou-os mais conhecido e tirou deles frutos mais copiosos. Deu estabilidade aos princípios morais e místicos, que são os fundamentos da santidade prática.

É isto de certo um fenômeno surpreendente, quando nos lembramos que na história profana mal se pode encontrar a continuidade dum ideal. A onda da santidade católica corre sem interrupção através dos séculos. Cometeríamos, pois, uma grave injustiça para com a nossa fé, se recusássemos atribuir aos homens doutros tempos as grandezas e os esplendores da vida sobrenatural, por ser a maneira de pensar e de amar diferente da nossa nalguns pontos acidentais. Devemos igualmente lembrar-nos de que, segundo as disposições da Providência divina, as gerações cristãs do passado não desfrutavam esses dons naturais, essas vantagens materiais que tanto têm contribuído para o encanto e esplendor do culto nos últimos tempos.

É certamente admirável – e o historiador das religiões não cessa de o confirmar com espanto – que a Igreja Romana tenha podido governar o mundo inteiro com tanto poder e tamanha eficácia em épocas em que a simples falta de meios de comunicação era o bastante para tudo imobilizar. Mas a unidade da fé e essencialmente um dom de Deus. É independente de todas as formas de progresso humanos.


* Ele se refere aqui à Missa Tridentina.

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